sexta-feira , 15 dezembro 2017
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Dante Alighieri e a corrupção brasileira

Não deixa de ser significativo o uso de “malebolge” para classificar mais uma etapa da verdadeira caça cotidiana aos corruptos, deflagrada pela policia federal. Cada operação é batizada com um nome novo e desta vez é preciso parabenizar a erudição e o conhecimento literário demonstrado pelos agentes da PF.

Para quem não sabe, “malebolge” é o nome com o qual Dante, provavelmente o maior poeta universal, batizou as divisões do oitavo círculo infernal da Divina Comédia, um grande clássico da literatura, atualíssimo e eterno, como toda verdadeira obra-prima.  O círculo se divide em dez seções, que formam uma espécie de grande cavidade em forma de bolsa ou “saco” (“bolgia” no italiano do século XIV significava justamente bolsa, alforje ou “saco”), nas quais o poeta coloca todos os tipos de ladrões, traficantes, trapaceiros, corruptos e corruptores. Nada mais apropriada, portanto, do que a lembrança desta parte do “Inferno” de Dante para caracterizar o momento atual da política brasileira.

Nas “malebolge” há, porém, personagens do porte de Ulisses e Ugolino, entre outros. Por meio deles o poeta representa, respectivamente, a tragédia do conhecimento humano que não quer conhecer limites e o ódio político que faz vítimas inocentes e dá livre vazão à crueldade e à ferocidade, justificando tudo como uma justa punição infligida aos traidores da Pátria.  No caso brasileiro, talvez não haja nada semelhante à dimensão humaníssima de personagens como Ulisses, mas, infelizmente, são muitas as vítimas dos enormes desvios de dinheiro e do verdadeiro assalto à mão armada perpetrado por essas quadrilhas que envolvem políticos, industriais, doleiros e marqueteiros, mais do que suficientes para “encher” as “malebolge” de Dante.

Embora constitua apenas uma feliz referência literária para batizar uma operação policial, o uso do termo inventado por Dante mostra, mais uma vez, a atualidade e a profundidade de um maravilhoso poema que, mais do que simplesmente imaginar a fantástica viagem de um homem vivo pelo reino dos mortos, esmiúça exemplarmente a condição humana mediante a construção de personagens que, sendo almas do Inferno, do Purgatório ou do Paraíso, relembram ao protagonista, o “vivo” Dante, as suas misérias, as suas culpas ou até mesmo a grandeza de suas ações durante a breve estada no mundo terreno. Dificilmente se encontra na literatura universal um quadro tão completo e tão maravilhosamente terrível de tudo o que pode caracterizar um ser humano, das tentações e das misérias que continuamente nos afligem à grandeza e à coragem de quem soube usar corretamente o livre arbítrio para fazer a opção do bem e da justiça.

Ao contrário do que muitos podem pensar, a personagem Dante, assim como o homem e poeta Dante, não se limita a aceitar resignadamente os desígnios da providência divina para inocentar ou culpar as almas que encontra na sua viagem, pois os diálogos travados com certas personagens, sobretudo as das “malebolge”, mostram solene desprezo, sem nenhum perdão, por quem utilizou a sua breve passagem pelo mundo terreno para enganar e corromper, principalmente os que abusaram da condição de governantes ou líderes de partidos políticos.

Cá entre nós, enquanto aguardamos o julgamento e a definitiva condenação divina dos últimos corruptos encontrados pela PF, ficamos à espera de uma solução definitiva para combater e extirpar de uma vez por todas a corrupção e, sobretudo, os mecanismos, as pressões e as “tentações” que levam os humanos à corrupção.

Vulgarmente concluindo, poderíamos afirmar que Dante não põe todos os corruptos nas mesmas “bolge”, isto é, não põe tudo no mesmo “saco”. Do mesmo modo, espero que os juízes, procuradores e agentes da PF saibam fazer a distinção correta ao avaliarem os §crimes cometidos, punindo exemplarmente os mandantes, mas, sobretudo, compreendendo as razões e os mecanismos pelos quais a corrupção age no país. Enfim, assim como o divino poeta, espero que nós também possamos compreender melhor o país e a sociedade em que vivemos, depois que tudo isto passar (se é que vai passar!).

SÉRGIO MAURO

Professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara

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