terça-feira , 25 setembro 2018
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Empresa de família de amigo de Aécio teria dissimulado doação

Os documentos foram apreendidos durante busca e apreensão vinculada ao inquérito em que Aécio é acusado de receber R$ 2 milhões da J&F

A Polícia Federal (PF) encontrou em um HD apreendido na construtora Wanmix, de propriedade de um amigo do senador Aécio Neves (PSDB-MG), extratos bancários que, para os investigadores, sugerem a dissimulação de doação de campanha ao PSDB, em 2014.

Os documentos mostram que no dia 24 de junho daquele ano a empresa Conserva de Estradas recebeu um depósito de R$ 1,5 milhão do Consórcio Cowan Conserva. No mesmo dia, a empresa repassou a mesma quantia para o diretório nacional do PSDB.

As informações constam em uma petição enviada pela procuradora-geral da República, Raquel Dodge, ao ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, em 9 de abril. No documento, a PGR solicita que os extratos sejam anexados aos inquéritos em que o senador é investigado, entre eles, o que deu origem à denúncia que a Primeira Turma do STF analisa nesta terça-feira, 17, e que pode transformar o tucano em réu.

Os documentos foram apreendidos durante busca e apreensão vinculada ao inquérito em que Aécio é acusado de receber R$ 2 milhões da J&F.

Para a Procuradoria-Geral da República, a “movimentação financeira realizada entre a Conserva de Estradas e Consórcio Cowan Conserva pode indicar que esta última empresa estava dissimulando doação oficial ao PSDB em 2014 se valendo da primeira”.

Construtora mineira

Tanto a Conserva Estradas como o Consórcio Cowan Conserva pertencem à família Wanderley. O dono da Wanmix, onde foram encontrados os extratos, é Eduardo Wanderley, também integrante da família. Amigo próximo de Aécio, Eduardo é sobrinho de Saulo Wanderley, dono da Cowan.

A Wanmix, por sua vez, é uma construtora mineira que forneceu concreto para a construção da Cidade Administrativa, obra mais cara da gestão de Aécio no governo de Minas Gerais. A obra custou R$ 2,1 bilhões e foi citada em delações premiadas como origem de repasses de propina para o tucano. A obra também forneceu concreto para as usinas de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte.

Eduardo Wanderley foi flagrado em conversa com o senador interceptada pela PF no âmbito da Operação Patmos – desdobramento do acordo de colaboração dos executivos do Grupo J&F.

“O Consórcio Cowan Conserva (que repassou o valor de R$ 1,5 milhão para a empresa Conserva Estrada, posteriormente depositado por esta em favor do PSDB) é formada pelas empresas Construtora Cowan e pela Conserva de Estradas. Todas as empresas mencionadas são pertencentes à mesma família”, afirma a PGR.

Na peça enviada ao Supremo, Raquel Dodge cita que no diálogo interceptado entre Aécio e Eduardo foi possível concluir que o senador se queixa que o dono da Andrade Gutierrez, Sérgio Andrade, em vez de conversar, resolveu se antecipar e procurar o Ministério Público Federal para narrar fatos relacionado à usina hidrelétrica de Santo Antônio, fatos que não fizeram parte do acordo de colaboração premiada de executivos da construtora com a PGR.

“Aécio solicita que seu interlocutor converse com ‘o cara que ia ser o guia’ (Sérgio Andrade) para saber os ‘termos que vai ser a viagem (…) se vai ser mais longa, (…) se é aquele trajeto que a gente tinha já combinado'”, escreve Raquel.

O diálogo foi um dos elementos utilizados pelo então procurador-geral da República Rodrigo Janot, antecessor de Raquel, para pedir a prisão do senador tucano. “Pelo diálogo acima transcrito com o interlocutor chamado Moreno, resta claro que o senador busca apoio junto ao seu interlocutor para obter informações sobre o conteúdo dessas colaborações, visando, evidentemente, evitar que os fatos na sua extensão devida sejam trazidos ao conhecimento do Ministério Público Federal”, escreveu Janot.

“Em fontes abertas foi possível constatar a ligação da empresa Wanmix com obras públicas com suspeitas de irregularidades e atualmente investigadas, dentre elas a construção da Cidade Administrativa de Minas Gerais e a construção das UHEs de Santo Antônio, Jirau e Belo Monte”, diz Raquel Dodge no despacho.

De acordo com a PF, o Relatório de Análise de Material Apreendido, feito com base nos extratos, “mostra também engajamento colaborativo do conglomerado da Wanmix para com o partido político de Aécio Neves”.

Defesas

Por meio de nota, a defesa do senador Aécio Neves afirmou que desconhece o assunto e que não identificou irregularidade nos dados apresentados, “uma vez que a doação está devidamente declarada no TSE, como todas as outras doações feitas às campanhas do PSDB”.

A reportagem entrou em contato com o Consórcio Cowan Conserva, a construtora Wanmix e a Conserva de Estradas, mas não obteve respostas até a publicação desta matéria. O espaço está aberto para as manifestações.

A assessoria de comunicação do PSDB, por fim, informou que o partido não tem conhecimento do assunto.

STF

Ainda nesta terça-feira (17), o senador poderá se tornar reú por corrupção e obstrução de Justiça. O Supremo Tribunal Federal (STF) deverá decidir se recebe denúncia contra  Aécio Neves (PSDB-MG).

A decisão caberá aos cinco ministros que compõem a Primeira Turma da Corte: Marco Aurélio Mello (relator do caso), Luís Roberto Barroso, Luiz Fux, Alexandre de Moraes e Rosa Weber.

Se a maioria aceitar a denúncia, Aécio passa a responder ao processo penal na condição de réu e poderá contestar a acusação com novas provas. Só ao final da ação, num julgamento a ser realizado pelo mesmo colegiado, poderá ser considerado culpado ou inocente.

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