quinta-feira , 20 setembro 2018
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Esperar

Quem responde pelo chamado de ‘próximo’ não vê tantas atrações entre reportagens, carrinhos, bonecas, papeladas e o caminhar dos ponteiros do relógio

Escrevo este texto da sala de espera da hebiatra de minha filha mais velha. Cheguei às 11h25 para a consulta que estava marcada às 11h30. São 12h20. Desde que sentei na cadeira branca, posicionada com distância estratégica de outras mães, com quem divido o ambiente, penso na força simbólica que as antessalas dos consultórios médicos representam.

Durante minha infância eram a parte mais interessante do trabalho de minha mãe, que atendia em uma casa avarandada, com jardim de inverno, brinquedos e revistas organizados uns por faixa etária e outros por data de publicação. Lá estava a proibida e, por isso mesmo, irresistível mesa ocupada pela secretaria – um tanto brava um tanto engraçada – dona do controle absoluto do material de escritório. Carimbos, cadernos, grampeadores, clips e canetas coloridas liberadas por Dr. Ana para nossa brincadeira quando o expediente de Carminha chegava ao fim.

Aos poucos, percebi que aquele ambiente podia significar outras coisas para além do divertimento. Quem responde pelo chamado de ‘próximo’ não vê tantas atrações entre reportagens, carrinhos, bonecas, papeladas e o caminhar dos ponteiros do relógio. Quem torce por uma solução, um bom resultado de exame, um “Fique tranquila, está tudo certo.”, não tem tempo a perder ainda que invariavelmente sinta o tempo passar arrastado enquanto não atravessa a porta ao encontro do médico.

Hoje, entre a mãe a meu lado, a sentada à minha frente e eu sobrevoa uma certa cumplicidade. Aguardamos juntas há quase uma hora. A mulher que já leu/folheou 3 revistas, eu que já nem finjo ler nada, a terceira que não se furta de perguntar repetidas vezes à secretária se falta muito não fazemos parte da cena que se dá entre hebiatras e pacientes. Inauguramos as 3 um outro jeito de ocupar este espaço. Nossas meninas estão sendo atendidas agora, foram chamadaspor suas médicas pontualmente. E a nós resta esperar.

Ser mãe de adolescentes é viver um pouco na antessala. Estar lá se for preciso, convencer-se de que provavelmente não será. Um expediente que está só começando e tem tudo para ser divertido. Que fiquemos tranquilas, vai dar tudo certo.

 

Roberta D’Albuquerque é psicanalista, autora de Quemmandaaquisoueu – Verdadesinconfessàveissobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…

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