Torneio da morte

Não voltasse as costas ao concerto dos Brics – grupo constituído por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, onde vive quase metade da população da Terra – o governo brasileiro teria enfrentado melhor a pandemia e não nos colocaria na vice-liderança de um lúgubre torneio: Bolsonaro preferiu disputar com Trump, aquela avantesma, a condição de maior aliado do SarsCoV-2 e sua faina assassina.

Os demais integrantes cooperaram desde a identificação do vírus e constatação dos perigos da covid-19, para conter-lhe a propagação, reduzir danos aos infectados (portanto sofrimento e morte) e sobretudo produzir vacinas.

Falando sozinho

O Brasil preferiu afastar-se, o ex-capitão secundou e ultrapassou a avantesma na negação da pandemia e contribuiu, a dizer o mínimo, para a tragédia que vivemos.

Então Trump foi-se e o ex-capitão ficou a falar sozinho; ademais, com proverbial dificuldade em ouvir e compreender algo sensato, custou a descobrir o que todo mundo sabia desde que se declarou a pandemia: China e Índia, os parceiros Brics que detesta, concentram quase toda a oferta mundial de insumos na área da saúde, inclusive os vitais para produzir imunizantes.

Péssimas escolhas

Bolsonaro escolheu muito mal o suposto aliado preferencial, os Eua de Trump; em troca o protecionismo estadunidense extinguiu milhares empregos brasileiros, ao impor barreiras à importação de produtos siderúrgicos.

Foi péssimo, e conseguiu fazer pior ao eleger adversários os aliados naturais – e não me refiro só às ofensas gratuitas assacadas contra os chineses por ele e sua turma, à frente o filho 03 e a nulidade que colocou no Itamaraty; também entrou em conflito com a Índia, ao votar contra sua proposta (na Organização Mundial do Comércio) de quebrar patentes de produtos necessários ao combate à covid-19, inclusive vacinas.

Só à força

Em vez devolver ofensas e bravatas, Índia e China reagiram da única maneira capaz de impressionar o rude ex-militar: adotaram medidas de força e embutiram recados de que podem aprofundá-las.

A farmacêutica Serum, que produz na Índia a vacina de Oxford + AstraZeneca retardou a entrega das primeiras doses adquiridas pelo Brasil, enquanto a Sinovac negaceou a liberação de matéria-prima para a produção da Coronavac no Instituto Butantã.

Foram duas semanas de atraso, no caso da Índia e um pouco mais, cerca de um mês vai-nos custar a represália dos chineses; bastou para dobrar o fanfarrão.

 

Tristeza, vergonha

Triste!, assistir ao vergonhoso malgrado inevitável, por necessário, recuo de um presidente do Brasil.

Ele mandou três ministros ao aeroporto de Guarulhos para receber meros dois milhões de doses, menos de 0,7% do que precisamos para vacinar 70% da população e alcançar imunidade comunitária, conforme prescrevem os cientistas.

O Ministério das Relações Exteriores reverteu a infame posição na Omc e Ernesto Araújo, aquela nulidade, convidou ao ‘evento’ (!) o embaixador da Índia, para humilhar-se em agradecimentos e elogios.

Contorno providencial

Já perante os chineses Bolsonaro e sua turma não conseguiram reabilitar-se, embora voltassem atrás e finalmente aceitassem “a vacina chinesa do Dória”, como a chamara ao recusá-la in limine.

O impasse só se removeu quando o escritório comercial de São Paulo em Xangai contornou o governo federal e negociou com a Sinovac, desenvolvedora da vacina, o compromisso de entregar o primeiro lote do princípio ativo na semana próxima e em seguida restaurar o cronograma acordado – inclusive completar a transferência de tecnologia que permitirá ao Instituto Butantã dominar todo o ciclo da produção.

Coincidência?

Quem quiser acredite em coincidências, improváveis em política e muito menos nas relações internacionais: logo após o acerto com os chineses para confirmar e regularizar o fornecimento daqueles insumos, veio à luz o edital para escolher quem fornecerá no Brasil tecnologia digital 5G, na qual a chinesa Huawei é líder mundial.

Sob pressão de Trump Bolsonaro inclinava-se a vetar liminarmente a participação da multinacional chinesa; menos mal se mudou (foi mudado…) de ideia.

Querem o quê?

Enquanto isso o governo protagoniza espetáculos de incompetência na gestão da saúde e enfrentamento da covid-19; a tragédia da falta de oxigênio em Manaus, pessoas morrendo por asfixia ameaça reproduzir-se em Rondônia… e depois?, onde mais?

Pior é a recusa em minorar os sofrimentos dos mais atingidos pela pandemia. Quererão o quê?, os insensíveis fundamental-liberais que ignoram nossa indecente desigualdade social e encontram na pandemia pretexto para ‘passar a boiada’, no caso suas reformas que deram certo em lugar nenhum?

Confirmarão a suspeita de Elmer Barbosa?, que transcrevi na semana passada, de que deixarão morrer os miseráveis porque custa caro mantê-los?!

Deserto à deriva

Onde quer que se olhe o governo Bolsonaro é um deserto de ideias, oblívio do melhor que herdou e cemitério de boas iniciativas, como ao negar recursos à Universidade Federal de Pelotas para dar sequência ao monitoramento do contágio pelo coronavírus.

A educação está à deriva, dois ministros empenharam-se em destruir a universidade pública, programas de avaliação e até o Fundeb, do qual dependem escolas nas regiões mais pobres; um deles, proeminente troglodita da tropa de choque bolsonarista, chamou “vagabundos” os ministros do Stf; e haveria um terceiro, que na partida falseou o curriculum e não emplacou.

Já do atual (o quarto! em dois anos) ninguém sabe sequer o nome – seria Nilton o quê?…

Enquanto isso fracassou o Enem de 2020, 53% de ausências.

Quem quer não pode

Sim, leitor panglossiano, tem aquele militar competente, tenente-coronel se bem me lembro, que tenta alguma eficiência na infraestrutura e até soma êxitos, resolveu problemas longamente postergados em rodovias e ferrovias; pena goze de escasso prestígio, não consiga recursos e condene-se à irrelevância.

No setor de energia avolumam-se ameaças de ‘apagões’, em tempo de chuvas irregulares e reservatórios esvaziados das hidrelétricas, sem notícia de medidas preventivas e muito menos apoio à diversificação do setor, via geração eólica e solar – que entretanto avançam, mas à revelia do governo.

Quem pode, não quer

Poder mesmo, com Jair Messias, têm o ministro do Meio Ambiente, encarregado de desmontar e-ou sabotar a estrutura pública de defesa do meio ambiente e o obtuso titular do Mre, aquela nulidade, que se juntou ao deputado Eduardo Bolsonaro para bajular Donald Trump e a seu serviço criar caso com os chineses e obstar iniciativas meritórias dos indianos.

Por falar na família, poderoso também é o ‘gabinete do ódio’ chefiado pelo filho 02, que deveria ser vereador no Rio mas ocupa-se em comandar, a partir do Palácio do Planalto, disseminação de fake news e ataques igualmente mentirosos a adversários reais ou supostos do governo.

Mudaram a língua!

E tem a Damares (ah!, a Damares), aquela pastora melindrada por que sua igreja perde o domínio da ciência… para os cientistas!

Enquanto isso ela engata marcha-a-ré nos avanços civilizatórios: conquistas femininas, aceitação da diferença e dos conceitos ampliados de família, diversidade de gênero… enfim da plena garantia, a todos, dos mais básicos direitos.

Sua pasta bem se poderia denominar ‘Ministério do Retrocesso’, mas o nome oficial é ‘…da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos’.

Que coisa!, a novilíngua de George Orwell (vide 1984) foi adotada aqui e a gente nem sabia!…

Vingança

Mas os generais palacianos têm poder – objetaria um leitor atento mas desavisado.

Têm não.

Quando o presidente convocou aquela constelação bordada em fardas impecavelmente engomadas houve um certo alívio: generais são bem-formados, argutos, experientes, certo conterão os arroubos de Bolsonaro.

Deu-se o contrário, foi o ex-capitão que lhes impôs coonestar os absurdos que sistematicamente diz e comete.

Há até quem veja no estranho fenômeno uma vingança tão descabida quanto primitiva, fruto de inveja e despeito: o oficial subalterno, que não ascendeu na carreira por insuficiência intelectual e foi excluído do Exército por indisciplina, agora estaria feliz em espezinhar ex-colegas que chegaram ao topo.

Eles sabem, mas…

E será que eles não percebem? – insistiria o leitor. Percebem, não são cegos nem burros. Mas ficou difícil reagir – os que tentaram foram prontamente expelidos (com opróbio) pelo ‘comandante-em-chefe’ e ficou por isso mesmo.

Na melhor hipótese os estrelados oficiais terão ainda esperança de juntar os cacos do desgoverno e chegar a algum lugar que não seja o abismo.

Na pior… bem, deixa pra lá; antes de apostar no caos convém examinar mais de perto as agruras do general (da ativa!) que Bolsonaro incumbiu de administrar, a seu jeito (dele, o ex-capitão) a mais aguda crise sanitária que o Brasil enfrenta em um século.

Ministro às feras…

Dá pena, é constrangedor ver o papel que o chefe do Executivo impõe a seu ministro da Saúde.

O presidente já o desautorizou publicamente, mandou desfazer o que fizera – e fizera o certo! –, forçou-o a empurrar a médicos e doentes drogas não recomendadas pela ciência, despachou-o duas vezes a Manaus para enfrentar problemas que, sabe o chefe, não tinha e não tem como resolver e, ao dar tudo errado, faz do subordinado um escudo e tira o corpo fora, entregando-o à feras – quer dizer, a investigações da Polícia Federal, processos na Justiça e acusações do Tribunal de Contas.

…porque obedece…

Há quem diga que Pazuello aceita calado (ou resignado, quando fala: “Um manda, outro obedece”) por apego ao cargo, vaidade, interesses…

Não me parece, acredito que caiu em armadilha da qual não consegue escapar; sentir-se-á cativo da disciplina que lhe ensinaram na longa carreira militar (“Um manda…” etc.) e em seu infortúnio não encontra meios de utilizar o conceito (de aplicação difícil, diga-se) segundo o qual é lícito descumprir ordens absurdas.

…e erra com o chefe:…

O general chegou ao Ministério no bojo de conflitos entre o presidente e seus antecessores; conflito aberto com Henrique Mandetta e velado com Nelson Teich, quando ambos não concordaram em sobrepor opiniões não fundamentadas do chefe teimoso aos preceitos da ciência.

O infeliz oficial concorda com o chefe e é nisto que erra: nem a disciplina militar haveria de forçá-lo ao triste papel.

…de quem é a culpa?

Fazem chacota do aplicado Pazuello porque sua alardeada especialização em logística pouco tem valido à… logística, no caso à do setor de saúde. O apodo parece-me injusto. Oficial de Intendência, ele será competente em sua especialidade – ou não chegaria ao topo da carreira.

Se me permitem analogia talvez politicamente inoportuna, embora exata, duvido de que um excelente gestor do Sus, ou do Programa Nacional de Imunizações saísse-se bem no abastecimento de tropas em combate, por exemplo.

“Cada macaco no seu galho” – rendo-me de vez aos ditos populares… – e assim neste processo menos culpa tem Eduardo Pazuello do que o chefe que o manda fazer o que não sabe.

Até breve!, amigo

Estamos de luto, os granberyenses e mais doridamente os que nos congraçamos na seção de Brasília da Associação Nacional dos ex-Alunos do Granbery, nosso velho Colégio de Juiz de Fora:

na madrugada de sexta-feira perdemos Roberto Timponi, o líder maior e fundador.

Só à noite chegou-me a notícia, sem tempo de participar presencialmente da última homenagem que gostaria de prestar-lhe e estar junto, solidário com família nesta hora de dor.

A todos consola-nos saber que se foi em paz, lúcido até o último alento por que consciente da vida plena dedicada à fraternidade, ao dever, ao serviço do Brasil e de todos os brasileiros.

Terei mais, muito a dizer do Comandante e amigo querido em próximas edições.

 

Tributo a Octavio Malta (Última Hora, Rio, circa 1960)
Marco Antônio Pontes
(marcoantoniodp@terra.com.br ou
marcoantoniodp1941@gmail.com)

 

 

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