SAÚDE

A acupuntura auricular pode ajudar a aliviar enxaquecas, afirma a neurociência

10 de julho, 2026 | Por: Agência O Globo

Estudo realizado por pesquisadores brasileiros mostram que a técnica pode ajudar a reduzir a dor e seu impacto no dia a dia

Auriculoterapia em paciente com enxaqueca. Crédito: Divulgação/Fernanda Belle. — Foto: Divulgação/Fernanda Belle

A acupuntura auricular pode ajudar a reduzir a dor das enxaquecas e o seu impacto no dia a dia. A conclusão é de um estudo apresentado nesta sexta-feira, no Fórum 2026 da Federação das Sociedades Europeias de Neurociência (FENS).

Um ensaio clínico randomizado sobre o tratamento denominado auriculoterapia constatou que as enxaquecas eram menos dolorosas imediatamente após o tratamento e 30 dias depois, em comparação com a dor sentida antes do procedimento. O impacto das enxaquecas na vida cotidiana também apresentou melhora.

No estudo, pesquisadores liderados por Fernanda Belle, fisioterapeuta do Laboratório de Neurociência Experimental da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), em Palhoça (Brasil), recrutaram 68 mulheres que haviam recebido diagnóstico clínico de enxaqueca há pelo menos um ano. Todas apresentavam enxaquecas em 15 ou mais dias por mês.

As enxaquecas caracterizavam-se por dores de cabeça recorrentes, de intensidade moderada a grave, acompanhadas de outros sintomas como náusea, sensibilidade à luz e ao som e, por vezes, aura — um sintoma neurológico que pode incluir alterações visuais, como flashes de luz ou linhas em zigue-zague. Os pesquisadores avaliaram a dor por meio do Questionário de Dor de McGill e o impacto na vida cotidiana utilizando o Headache Impact Test (HIT-6) em três momentos: antes de as pacientes iniciarem o tratamento, imediatamente após o tratamento e 30 dias depois.

No tratamento, as pacientes foram designadas aleatoriamente para receber oito sessões de auriculoterapia ou um tratamento simulado (sham) ao longo de oito semanas. A auriculoterapia envolveu o uso de agulhas semipermanentes para estimular pontos específicos da orelha, selecionados de acordo com o protocolo para enxaqueca. Em seguida, sementes de mostarda eram aplicadas nos mesmos pontos para manter a estimulação até a sessão seguinte.

O procedimento simulado envolveu a aplicação de agulhas semipermanentes em pontos da orelha não relacionados à enxaqueca, mas que correspondiam aos dedos, punho, joelho, braço, ombro, pulmão, membros inferiores e coluna vertebral. Sementes de mostarda também foram aplicadas nesses pontos.

As pacientes não sabiam a qual procedimento estavam sendo submetidas. O terapeuta sabia, mas os avaliadores dos resultados e os responsáveis ​​pela análise estatística desconheciam a qual grupo as mulheres haviam sido alocadas. Os pesquisadores realizaram avaliações fisiológicas cerebrais utilizando HEG, procedimento que envolve a fixação de pequenos sensores na cabeça das pacientes para medir o fluxo sanguíneo e a oxigenação.

Os resultados mostraram que no grupo de auriculoterapia, a pontuação média de dor diminuiu de 50,5 antes das sessões para 44,7 imediatamente após as sessões e para 41 após 30 dias. Isso representou uma redução da dor de aproximadamente 11% ao final do tratamento e de 18% na avaliação de acompanhamento realizada 30 dias depois.

No grupo submetido ao procedimento simulado, as pontuações de dor também diminuíram de 50,2 antes das sessões para 44,3 imediatamente após as sessões e para 43,9 após 30 dias, representando reduções de aproximadamente 12% e 13%, respectivamente. Na avaliação de acompanhamento aos 30 dias, as pontuações de dor estavam significativamente mais baixas do que antes do tratamento em ambos os grupos. No entanto, não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos, o que significa que o estudo não conseguiu demonstrar que a auriculoterapia fosse superior ao procedimento simulado.

Na avaliação por HEG, os pesquisadores identificaram alterações nos níveis médios de oxigenação do córtex pré-frontal ao longo do estudo, bem como diferenças entre os grupos, mas o padrão de mudança ao longo do tempo não foi claramente distinto entre os dois grupos. Contudo, eles afirmam que os resultados são importantes porque demonstram que é possível monitorar objetivamente aspectos da função cerebral em mulheres com enxaqueca crônica.

“Também observamos uma redução no impacto da enxaqueca na vida cotidiana”, diz Belle. “No grupo de auriculoterapia, a pontuação média no questionário HIT-6 diminuiu de 66,1 antes das sessões para 60,7 imediatamente após as sessões e para 59,5 aos 30 dias. No grupo do procedimento simulado, a pontuação média caiu de 65,8 para 59,2 após as sessões e ficou em 59,3 aos 30 dias. Em ambos os grupos, isso representa reduções de aproximadamente 8% a 10%.”

No entanto, como ambos os grupos apresentaram melhora ao longo do tempo, não é possível concluir que o protocolo de auriculoterapia tenha sido superior ao procedimento simulado.

“Por se tratar de uma análise preliminar de um estudo em andamento, os resultados devem ser interpretados com cautela e serão reavaliados em uma amostra maior”, ressalta a pesquisadora.

Mesmo assim, ela afirma que “no geral, esses resultados são animadores, especialmente porque observamos uma melhora nos desfechos clínicos durante o acompanhamento, com um efeito mais consistente na dor no grupo que recebeu auriculoterapia”.

“Isso sugere que a auriculoterapia pode ser uma estratégia complementar interessante no tratamento da enxaqueca crônica. Estamos reavaliando esses resultados preliminares em um grupo maior de mulheres”, diz.

Belle tem experiência pessoal com enxaquecas, uma vez que ela e membros de sua família sofrem com o problema. Por isso, ela quis explorar opções para melhorar o cuidado de outras pessoas que enfrentam a mesma situação.

“A enxaqueca é uma condição altamente prevalente e incapacitante, e muitos pacientes não alcançam um controle adequado dos sintomas apenas com tratamentos convencionais. Ela também afeta as mulheres cerca de três vezes mais do que os homens — provavelmente, em parte, devido a influências hormonais — e representa uma causa importante de incapacidade”, diz Belle.

Além de estudar a auriculoterapia em um grupo maior de mulheres, Belle e seus colegas também estão investigando os mecanismos que podem explicar como a auriculoterapia atua no organismo.

“A enxaqueca é uma condição complexa que envolve alterações neurovasculares, autonômicas e neuroinflamatórias. A orelha possui fortes vínculos com redes de células nervosas, incluindo conexões com o nervo vago, o nervo trigêmeo e os nervos cervicais, que estão envolvidos na regulação da dor, na atividade autonômica e nas respostas inflamatórias”, diz ela.

Uma das hipóteses é que a auriculoterapia pode influenciar o chamado eixo neuroimune — um sistema de comunicação bidirecional entre os sistemas nervoso e imunológico, modulando processos relacionados à sensibilização à dor e à inflamação.

“A enxaqueca é uma condição debilitante que pode ter um grande impacto na vida das pessoas, especialmente das mulheres. Ensaios clínicos randomizados e bem conduzidos sobre essa condição são raros; por isso, como neuropsicofarmacologista, fico satisfeita em ver este estudo sendo apresentado no FENS Forum, pois ele apresenta uma metodologia rigorosa e uma avaliação cuidadosa dos participantes ao longo de todo o período de acompanhamento”, diz a professora Christina Dalla, da Universidade Nacional e Kapodistriana de Atenas, na Grécia, que preside o comitê de comunicação do FENS Forum e não participou da pesquisa. “Aguardo com expectativa os resultados da auriculoterapia em um número maior de participantes. É importante ressaltar que se trata de um tratamento potencial complementar às terapias já existentes para a enxaqueca, e não um substituto para elas.”



BS20260710152128.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/07/10/a-acupuntura-auricular-pode-ajudar-a-aliviar-enxaquecas-afirma-a-neurociencia.ghtml

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