SAÚDE

A chave para o ‘fim’ da diabetes? Nova dieta mediterrânea pode ser ‘segredo’ para reduzir risco de doença, diz estudo; entenda

26 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

Ensaio clínico espanhol acompanhou 4.746 adultos por seis anos e mostrou que mudanças sustentadas no estilo de vida tiveram impacto maior do que a dieta mediterrânea tradicional sozinha

Dieta mediterrânea foi eleita a melhor do mundo — Foto: Magnific

Um grande ensaio clínico realizado na Espanha concluiu que uma versão mais estruturada da dieta mediterrânea, combinada com redução moderada de calorias, prática regular de exercícios e acompanhamento profissional para perda de peso, reduziu em 31% o risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 em adultos com maior predisposição à doença.

Os resultados, publicados na revista Annals of Internal Medicine, fazem parte do estudo PREDIMED-Plus, considerado o maior ensaio de nutrição já realizado na Europa. A pesquisa acompanhou, durante seis anos, 4.746 adultos de 55 a 75 anos. Todos tinham sobrepeso ou obesidade e síndrome metabólica, mas nenhum apresentava diabetes ou doença cardiovascular no início do acompanhamento.

O estudo comparou dois grupos. Um deles seguiu uma dieta mediterrânea com redução calórica — cerca de 600 kcal a menos por dia —, associada a atividade física moderada, como caminhada rápida, exercícios de força e equilíbrio, além de orientação profissional. O outro grupo adotou a dieta mediterrânea tradicional, sem restrição calórica ou recomendação específica de exercícios.

A diferença entre as duas abordagens foi considerada expressiva pelos pesquisadores. Além da redução de 31% no risco de diabetes tipo 2, os participantes do grupo de intervenção perderam mais peso e reduziram mais a gordura abdominal. Em média, esse grupo perdeu 3,3 kg e diminuiu a circunferência da cintura em 3,6 cm. No grupo de comparação, a perda média foi de 0,6 kg, com redução de 0,3 cm na cintura.

Em termos práticos, os pesquisadores estimam que o programa evitou cerca de três casos de diabetes tipo 2 a cada 100 participantes. Para uma doença que afeta centenas de milhões de pessoas no mundo, o impacto poderia ser relevante caso a estratégia fosse aplicada em larga escala entre pessoas com risco elevado.

“Diabetes é o primeiro desfecho clínico sólido para o qual mostramos — usando a evidência mais forte disponível — que a dieta mediterrânea com redução calórica, atividade física e perda de peso é uma ferramenta preventiva altamente eficaz”, disse Miguel Ángel Martínez-González, professor de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra, professor adjunto de Nutrição da Universidade Harvard e um dos principais pesquisadores do projeto. “Aplicadas em escala em populações de risco, essas mudanças modestas e sustentadas no estilo de vida poderiam prevenir milhares de novos diagnósticos todos os anos. Esperamos em breve mostrar evidências semelhantes para outros grandes desafios de saúde pública.”

A dieta mediterrânea, conhecida por incluir azeite de oliva, frutas, vegetais, legumes, grãos integrais, oleaginosas, peixes e consumo moderado de laticínios, já é associada a benefícios cardiovasculares e metabólicos. O novo estudo, porém, sugere que seus efeitos contra o diabetes tipo 2 podem ser ampliados quando ela é acompanhada de controle de calorias, exercícios e apoio profissional.

“A dieta mediterrânea age de forma sinérgica para melhorar a sensibilidade à insulina e reduzir a inflamação. Com o PREDIMED-Plus, demonstramos que combinar controle calórico e atividade física potencializa esses benefícios”, afirmou Miguel Ruiz-Canela, professor e chefe do Departamento de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Navarra e primeiro autor do estudo. “É uma abordagem saborosa, sustentável e culturalmente aceita, que oferece uma forma prática e eficaz de prevenir o diabetes tipo 2 — uma doença global que é, em grande medida, evitável.”

O diabetes tipo 2 é uma das doenças crônicas que mais crescem no mundo. A Federação Internacional de Diabetes estima que mais de 530 milhões de pessoas vivam atualmente com a doença. O avanço é associado à urbanização, dietas menos saudáveis, sedentarismo, redução da atividade física, envelhecimento populacional e aumento das taxas de sobrepeso e obesidade.

Na Espanha, cerca de 4,7 milhões de adultos têm diabetes, a maioria com tipo 2, uma das taxas mais altas da Europa. Em todo o continente europeu, são mais de 65 milhões de pessoas com a doença. Nos Estados Unidos, cerca de 38,5 milhões são afetadas, em um cenário de altos custos de saúde por paciente. Especialistas alertam que a prevenção é essencial, já que o diabetes tipo 2 eleva o risco de complicações cardiovasculares, renais e metabólicas.

Pesquisas relacionadas ao PREDIMED-Plus também reforçaram a importância da composição corporal e da redução do sedentarismo. Uma análise publicada no JAMA Network Open apontou que a dieta mediterrânea com menor teor energético, combinada à atividade física, ajudou a reduzir gordura total e visceral e a desacelerar a perda de massa magra associada à idade em adultos mais velhos com sobrepeso ou obesidade e síndrome metabólica.

Outro estudo, publicado em 2026 na BMC Cardiovascular Disorders, indicou que substituir tempo sedentário por atividade física esteve associado a mudanças favoráveis em um marcador sanguíneo relacionado ao estresse cardíaco, embora o padrão não tenha sido consistente em todos os biomarcadores ligados à fibrilação atrial.

O estudo foi publicado acompanhado de um editorial assinado por Sharon J. Herring e Gina L. Tripicchio, especialistas em nutrição e saúde pública da Universidade Temple, na Filadélfia. Elas destacaram a relevância clínica da intervenção e seu potencial como modelo de prevenção do diabetes tipo 2, mas alertaram que a aplicação da estratégia fora da região mediterrânea, incluindo os Estados Unidos, exigiria mais do que força de vontade individual.

Segundo as especialistas, desigualdade no acesso a alimentos saudáveis, ambientes urbanos que dificultam a prática de atividade física e limitações no acesso a orientação profissional podem se tornar obstáculos. Por isso, defenderam políticas públicas capazes de criar ambientes mais saudáveis e equitativos.

O PREDIMED-Plus, realizado entre 2013 e 2024, dá continuidade ao estudo PREDIMED original, conduzido entre 2003 e 2010, que já havia mostrado que a dieta mediterrânea enriquecida com azeite de oliva extravirgem ou oleaginosas reduzia em 30% o risco de doenças cardiovasculares.

Para os pesquisadores, a nova estratégia pode ser incorporada à atenção primária como uma forma sustentável e de custo eficiente de prevenir o diabetes tipo 2 em larga escala. A intervenção não depende de dietas extremas, mas combina alimentos conhecidos, atividade física moderada, perda gradual de peso e acompanhamento profissional.

O estudo envolveu a Universidade de Navarra e mais de 200 pesquisadores de 22 universidades, hospitais e centros de pesquisa espanhóis, em mais de 100 unidades de atenção primária do Sistema Nacional de Saúde da Espanha. Também houve colaboração internacional com a Escola de Saúde Pública Harvard T.H. Chan.


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