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Em entrevista ao videocast ‘Conversa vai, conversa vem’, influenciadora reflete sobre ódio nas redes sociais, critica a intolerância religiosa e diz que encontrou propósito ao compartilhar intimidade em série sobre maternidade real: ‘Idealizava uma realidade de propaganda de margarina, mas não é só esse lugar de puro amor e luz’
Rafa Kalimann ainda busca conhecer a mulher que se tornou após o nascimento da filha, Zuza, de cinco meses. Mas a influenciadora que soma 40 milhões de seguidores mostrou com todos os detalhes de sua intimidade cada passo que deu para se transformar nessa nova versão de si mesma na série documental “Tempo para amar”.

Disponível no Globoplay, o programa expõe sem filtro a dor e a delícia da maternidade real. Rafa presta serviço ao dividir frustrações e desconstruir a ideia do maternar perfeito. Um processo que envolveu depressão, solidão e que define como “fisicamente tranquilo e uma luta emocionalmente”.
Ela, que despontou no BBB, virou apresentadora de programas de TV como Circuito Sertanejo e protagoniza como atriz o filme inédito “Minha querida Alice” (do qual também assina a produção), participou do videocast ‘ Conversa vai, conversa vem’, que vai ao ar hoje, no Youtube e no Spotify. Leia trecho da entrevista:
Me vi completamente perdida numa realidade muito diferente da que idealizava, de propaganda de margarina. Fui conversar, trocar, ler, aprofundar e pensei: “Tenho um portal com 40 milhões de pessoas, mulheres que vão passar ou passaram por isso e se sentem sozinhas. É um poder gigante e não vou fazer nada?”. Tinha sede de ser útil, encontrei um propósito.
Não estamos preparados para tirar a romantização da gestação. É difícil encarar que a maternidade não é só esse lugar de puro amor e luz. Queria mostrar a realidade. Nas redes sociais, a gente seleciona muito, e as pessoas não estão dispostas a ver tanta verdade.
Mais que mostrar às pessoas, é fazer a gente mesma aceitar. Me cobrei muito. Sempre dei conta, não aprendi a pedir ajuda. Saí de casa com 14 anos para ser modelo, morava em república com 18 meninas, cada uma no seu corre. Zuza me ensinou, aprendi que não preciso fazer tudo sozinha.
Só trabalhava por um prato de comida. Achava que seria glamour puro em SP, capa de revista, grandes campanhas e… Cadê? Fazia evento, fui monitora no Playcenter só para lanchar. Tinha o café da manhã, o almoço e o lanche da tarde. Ganhava 40 reais no dia, mas estava comendo. Até que falei: “Preciso voltar pra casa, me alimentar bem”.
Na série, falou sobre a solidão mesmo ao lado do seu marido, o cantor sertanejo Nattan. Me fez pensar sobre como a sociedade normaliza o homem disfuncional. Puerpério não é um momento de aprendizado tardio para macho, né?
Não é. A gente conversou muito. A decisão de colocar no documentário vem da sensação de que ninguém fala sobre. É uma realidade comum em pais de primeira viagem. As consequências foram drásticas na internet, sabíamos que isso podia acontecer. Mas ele falou: “Entendo que precisava ter visto outro pai passar por isso para conseguir ser quem eu precisava ser”. Ele não sabia, como muitos não sabem. Por falta de referência, de diálogo, informação. Concordamos que seria um serviço para outros entenderem que não se vira pai só quando o filho nasce, mas quando o positivo chega.
Me perguntei isso muitas vezes. Nossos acordos não podiam ser os mesmos porque eu não era mais a mesma. Demorou para alinhar os pontos. Mas isso foi gravado seis meses atrás, houve mudança significativa.
Ele acolhe meus traumas. Ainda não tinha encontrado um parceiro com escuta de olhar e falar: “Entendo, estou aqui pra te ajudar ”. Tem conflito, questões a serem conversadas. O segredo é a disposição de mudar, se reajustar pelo outro. O amor tranquilo parte daí e não da falta de conflito.
Sempre acham um jeito de levar pra mulher. Sempre dizem que consigo fazer meus projetos porque um homem me deu oportunidade, que sou amante de não sei quem ou sei o segredo de um poderoso da Globo. Sou disciplinada, faço meu trabalho com determinação. Esse é o segredo que sei.
Foi uma libertação gigante. Voltei sabendo o que quero consumir, nada supérfluo. E coloquei tempo de uso. A dificuldade era até onde vou deixar que distorçam, a necessidade de assumir a narrativa da minha vida. Não me reconheço na Rafaela que criaram na mídia. Soltam algo mentiroso, que é replicado e vira verdade. Se defende é pior, vira bola de neve. Até onde preciso me provar? A internet estava me machucando aí. O documentário veio nesse sentido de me expor, mas com propósito. Não estou mais disposta a estar tão aberta nas redes para falarem o que bem entendem.
Sinto do mesmo jeito. E também quando vejo alguém sendo atacado. Não dá para medir o caráter de ninguém por um recorte.
Me faço muito essa pergunta. Não tenho resposta. O que foi que eu fiz? A maneira com que me tratam na internet e diante dos projetos que trago é como se tivesse cometido um crime. É sem freio, sem pudor. Já tentei entender o motivo pelo qual me atacam. Estou executando o meu trabalho da maneira mais clara e honesta, possível. Em algum momento, vou acolher isso e falar: “Essa é a realidade, vamos trabalhar com ela”. dizer: “Galera, é isso, fui”. Não gosta de mim, não vê verdade no que eu faço? Não me segue, não me vê. Se passar o dedo, o algoritmo não te entrega mais. Não quero e não pretendo agradar todo mundo. Quem sou eu? Nem Jesus fez isso.
Quem critica é quem não levanta do sofá para fazer algo. Se fizesse, saberia que não interessa onde, como, quando, o negócio é fazer. Quem faz, não vai falar: “ah, ela tá fazendo em Moçambique e não aqui”. Vou pela 15ª vez, são nove escolas, mais de 600 crianças. Contam comigo. Já quis parar de mostrar, só que quando exponho, as doações aumentam. Posto tudo, o sapato que uso. Não vou postar algo que vai fazer diferença na vida de milhares de pessoas? Não quero provar nada, nem justificar esse trabalho. Só tenho que continuar.
Com certeza. Isso até gera um conflito interno. Tenho tanta coisa legal para mostrar, falar. O receio de distorcerem ou me atacarem, me amedronta. Acabo me fechando. Na minha vida pessoal, mostro até meu limite, que é intuitivo. Se tenho dúvida, não posto. Mas de vez em quando ainda vai alguma coisa que não devia e falo: “Ih, devia ter ficado quieta”.
Desmentiu boatos de que se negou a falar a palavra “desgraça” na novela “Família é tudo” e evitou cantar a parte de um samba enredo que citava divindades africanas. Como a convicção religiosa influencia suas decisões profissionais?
Essa personagem falava muito “desgraça”. Estava em todos os diálogos. Não é uma palavra que fico falando em casa. Não gosto. Dentro da minha crença, ela não é bem-vinda. Fiz uma brincadeira nos stories dizendo que, nos ensaios, pula a palavra e criaram essa história sensacionalista. Não vejo problema falar sendo na personagem. A questão da intolerância religiosa me doeu. No sagrado do outro não se mexe, se respeita. Sempre fui cristã e curiosa em aprofundar. Cresci com a vizinha me levando na Seicho-No-Ie, fui para o centro espírita muito nova. E fui para o candomblé, no Gantois. Mãe Carmem me recebeu com o maior amor do mundo. Pedi para ela me explicar o candomblé para que eu pudesse ter minhas convicções sobre uma religião completamente diferente da minha e que já sofre muito preconceito.
Muita paz. Mas abrir a internet e ver que, por engajamento uma jornalista pegou quinze segundos de um vídeo em que eu estava sambando, cantando, sorrindo, posando e que, naturalmente, em algum momento, a gente para para respirar… e dizer que não cantei e usar usa isso como intolerância religiosa… É mexer com um lugar muito perigoso. Fazem isso sem se importa. Foram vários evangélicos e gente do candomblé falando sobre mim sem ter noção nenhuma de quem eu era e o que eu pensava. Foi duro.
BS20260615063021.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/06/15/a-maneira-que-me-tratam-na-internet-e-como-se-tivesse-cometido-um-crime-diz-rafa-kalimann.ghtml

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