SAÚDE

A memória pode ser prevista por um teste de saliva? Novo estudo indica que sim; entenda

9 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

Descoberta poderá contribuir para o desenvolvimento de ferramentas para intervenções psicológicas e farmacológicas para transtornos relacionados ao medo e à ansiedade

Saliva – Foto: @magnific / Divulgação

Um estudo liderado pelo Instituto de Neurociências da Universidade Autônoma de Barcelona (INc-UAB), na Espanha, descobriu que a relação entre os níveis de progesterona e estradiol de uma pessoa em um determinado momento, medidos na saliva, pode ajudar a prever o desempenho dos participantes em uma tarefa de aprendizagem e memória. O trabalho, publicado na revista científica fNeurobiology of Stress, também contou com a participação de pesquisadores do Instituto de Pesquisa do Hospital del Mar, em Barcelona (HMRIB).

As descobertas fornecem novas evidências sobre o papel dos hormônios sexuais na regulação da memória, com implicações para atividades cotidianas que dependem da memória e aplicações clínicas. Em particular, o estudo identifica marcadores biológicos com forte potencial terapêutico para condições como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), fobias e ataques de pânico.

Experimento de memória do medo

A pesquisa foi conduzida com camundongos e participantes humanos saudáveis, utilizando um paradigma de extinção do medo após uma experiência negativa. No primeiro dia, os participantes humanos — homens, mulheres com ciclo menstrual natural e mulheres que utilizavam contraceptivos orais — e os camundongos aprenderam a associar um estímulo neutro a um choque elétrico leve, porém desagradável (aquisição do medo).

No dia seguinte, os pesquisadores avaliaram a capacidade dos participantes de deixar de temer o estímulo assim que ele não estivesse mais associado ao choque (extinção do medo). Esse tipo de tarefa de condicionamento do medo permite que os cientistas estudem os mesmos processos de memória em humanos e animais, facilitando comparações entre espécies.

A equipe utilizou técnicas analíticas avançadas para medir os níveis hormonais na saliva (de participantes humanos) e no sangue (de camundongos) e aplicou um modelo de aprendizado de máquina para identificar os fatores que melhor previam a extinção bem-sucedida do medo.

“Os resultados mostraram que, embora os níveis hormonais individuais tivessem alguma influência, o fator mais importante foi a combinação deles. Especificamente, uma maior proporção de progesterona para estradiol antes da segunda sessão experimental previu uma melhor extinção do medo tanto em humanos quanto em camundongos”, explicou Andero.

“Avaliar a relação entre os níveis de progesterona e estradiol pode nos ajudar a identificar quando um indivíduo está biologicamente mais preparado para realizar uma tarefa relacionada à memória, como estudar para uma prova. Se soubermos que temos o equilíbrio hormonal que nos predispõe a aprender com mais eficácia, podemos tirar proveito disso”, disse Jaime F. Nabás, pesquisador do INc-UAB e primeiro autor do artigo.

Andero ressalta ainda que isso pode ajudar a otimizar tratamentos para transtornos relacionados à ansiedade e ao trauma, por exemplo, identificando os momentos mais adequados para realizar terapia psicológica.

Quando os pesquisadores analisaram os dados de acordo com a fase do ciclo menstrual das participantes, encontraram resultados que corroboram a ideia de que a memória de extinção do medo é mais eficaz no final da fase folicular, pouco antes da ovulação. Este seria, portanto, o período em que o ambiente hormonal é mais propício à formação de novas memórias e à modificação de padrões previamente aprendidos.

“É importante notar que o valor preditivo da razão progesterona/estradiol se aplica tanto a homens quanto a mulheres, uma vez que ambos os sexos produzem esses hormônios, embora as mulheres geralmente apresentem níveis mais elevados”, afirma Óscar Pozo, pesquisador do HMRIB e coautor do estudo.

Os próximos passos serão validar esses achados em grupos maiores e mais diversos, e investigar se essa relação hormonal permanece relevante em contextos clínicos e em outros tipos de memória. A longo prazo, esse conhecimento poderá contribuir para o desenvolvimento de ferramentas para intervenções psicológicas e farmacológicas mais personalizadas para transtornos relacionados ao medo e à ansiedade.


BS20260609151624.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/06/09/a-memoria-pode-ser-prevista-por-um-teste-de-saliva-novo-estudo-indica-que-sim-entenda.ghtml

Artigos Relacionados