Alvo de operação da PF, Jaques Wagner disse que esteve com Vorcaro duas vezes: ‘Se ele delatar, acho ótimo’
18 de junho, 2026
| Por: Agência O Globo
Investigação apura relação com ex-sócio do Banco Master
Senador Jaques Wagner – Foto Lula Marques/ Agência Brasil
Antes de ser alvo de operação da Polícia Federal nesta quinta-feira, o líder do governo no Senado, Jaques Wagner ( PT-BA), afirmou que esteve duas vezes com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e disse que achava “ótimo” caso ele resolvesse fazer um acordo de delação premiada, tentativa que acabou rejeitada pela PF e a Procuradoria-Geral da República.
Wagner vinha classificando o escândalo do Banco Master como uma “trambicagem”, negando qualquer envolvimento com as irregularidades investigadas e criticando reportagens que relacionavam seu nome ao caso. Em entrevistas e discursos no Senado, o petista afirmou estar “tranquilo e calmo”, disse que não havia investigações sobre sua conduta e atribuiu o esquema a falhas de fiscalização do Banco Central.
A Polícia Federal cumpriu nesta quinta-feira mandado de busca e apreensão em endereço ligado ao senador no âmbito da nona fase da Operação Compliance Zero. A investigação apura um suposto esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades envolvendo o Banco Master e pessoas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Em janeiro, durante entrevista à rádio Giro Baiana, Wagner afirmou não temer uma eventual delação premiada de Vorcaro e descreveu o caso como uma “trambicagem” bilionária.
— Se ele delatar eu acho ótimo. Tô aqui, ó, tranquilo e calmo (…) A ‘trambicagem’ hoje do Banco Master, que bate em R$ 50, 60, 70 bilhões, é um bando de falcatrua feita lá com BRB. Tem muita gente debaixo da cama — declarou.
Na mesma entrevista, o senador afirmou estar “fora dessa confusão” e destacou que o governo da Bahia não possuía recursos aplicados no Banco Master.
— Em relação a nós aqui, eu estou fora dessa confusão. Pergunta se tem algum dinheiro do governo da Bahia aplicado no Banco Master, como tem do Rio de Janeiro, do Amapá e de Brasília. Não tem uma banda de conto nossa — disse.
Na ocasião, Wagner também reconheceu ter relação próxima com o empresário Augusto Ferreira Lima, conhecido como Guga Lima — um dos alvos da operação desta quinta-feira e ex-sócio de Vorcaro —, mas negou ter realizado negócios com ele. Segundo o senador, a relação surgiu durante negociações envolvendo os programas Cesta do Povo e Cartão Cesta, na Bahia.
O petista também confirmou ter sugerido o nome do ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, quando foi consultado sobre possíveis integrantes para o conselho de administração do Banco Master, mas afirmou que não se tratou de uma indicação formal.
— Eles aqui vieram me perguntar para eu citar, como eu estou no mundo político, e eu disse: ‘Esse é um bom nome como tem outros’ — afirmou.
Em maio, ao responder críticas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no plenário do Senado, Wagner voltou a rejeitar qualquer ligação entre o PT baiano e as irregularidades investigadas no banco. Segundo ele, o problema teve origem na falta de fiscalização do sistema financeiro.
— Eu não vim aqui por conta disso. Eu vim aqui por conta da fake news que o senador Flávio Bolsonaro fez semana passada, para esclarecer que na Bahia não nasceu nenhum trambique. O trambique nasceu quando o Banco Central, que deveria fiscalizar o que estava acontecendo, não fiscalizou e permitiu que este senhor, Daniel Vorcaro, pudesse fazer o rombo que fez de R$ 50 bilhões a R$ 60 bilhões contra o FGC — afirmou.
No mesmo discurso, o senador buscou afastar suspeitas sobre integrantes do grupo político baiano e ressaltou que não possui empresas ou participação em negócios privados.
— Eu não tenho sequer CNPJ. Rui Costa também não tem e Jerônimo Rodrigues também não tem CNPJ — disse.
Na terça-feira, dias antes da operação da Polícia Federal, Wagner voltou ao tema durante discurso no Senado ao prestar solidariedade ao presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), citado em reportagens sobre uma suposta delação de Vorcaro. O senador afirmou não ter qualquer relação com o banqueiro e voltou a desafiar críticos a apontarem investigações envolvendo seu nome.
— Eu já desafiei vários a me mostrarem qual foi a investigação da Federal que encontrou algo sobre Vossa Excelência na medida em que foi citado agora, ou sobre o meu comportamento e o comportamento do ex-Governador Rui Costa — declarou.
Em seguida, reforçou que conheceu Vorcaro apenas duas vezes.
— Eu estou muito à vontade porque não tenho nenhuma relação com ele. Conheci esse senhor duas vezes, uma vez em Salvador e uma vez em São Paulo. Não tenho nenhuma relação com ele, não tenho nenhum negócio. Aliás, eu não tenho nem CNPJ, eu só tenho CPF — afirmou.
No mesmo pronunciamento, Wagner anunciou que processaria a revista Veja por reportagens que associavam integrantes do PT da Bahia ao caso Master. Também criticou o vazamento de informações atribuídas a uma suposta delação de Vorcaro e classificou o episódio como uma “guerra de narrativas”.
— Nós estamos entre o absurdo e o superabsurdo. O absurdo é de uma delação que ninguém sabe o que tem dentro dela, a não ser aqueles que inquiriram o senhor Daniel Vorcaro e que, levianamente e ilegalmente, vazam a matéria, como vazaram no tempo da Lava Jato — disse.
O nome de Wagner passou a aparecer no contexto das investigações após a revelação de que a BK Financeira, empresa pertencente à sua nora, recebeu ao menos R$ 11 milhões do Banco Master. À época, o senador afirmou que jamais participou de qualquer negociação ou intermediação em favor da empresa.
Até a deflagração da operação desta quinta-feira, o líder do governo sustentava publicamente que não havia qualquer investigação apontando irregularidades em sua conduta.