Análise: relação entre Lula e Trump retrocede a estágio pré-encontro na ONU
18 de junho, 2026
| Por: Agência O Globo
Encontro do G7 termina sem avanços nas negociações sobre tarifaço e combate ás facções
Luíz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, na Casa Branca. Foto: Ricardo Stuckert/PR
Não houve espaço para que a “química” da relação entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump aflorasse na estância termal de Évian-les-Bains, na França, palco da reunião de cúpula do G7 encerrada na quarta-feira.
Os dois presidentes conviveram por dois dias nos bastidores do encontro dos chefes de Estado das maiores economias do mundo, do qual o Brasil participou como convidado, mas não abriram negociações sobre tarifaço ou classificação de facções como organizações terroristas.
Oriundos de campos ideológicos opostos, Lula e Trump se mantiveram distantes desde o começo da presidência do americano em janeiro de 2025. Durante o processo eleitoral dos EUA, o brasileiro havia apoiado a democrata Kamala Harris.
Em julho do ano passado,Trump decretou o tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros exportados aos EUA e citou como justificativa uma suposta “perseguição” na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por participação na tentativa de golpe de 2023. Lula reagiu de forma dura e parecia que os dois presidentes nunca se sentariam para uma conversa.
Mas um encontro de 39 segundos nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em setembro do ano passado, mudou o rumo da relação. Trump revelou minutos depois ao discursar que eles tiveram “uma química excelente”.
Essa química resultou em telefonemas, um encontro em outubro na Malásia e a visita de três horas de Lula à Casa Branca em maio. O americano chegou a relaxar o tarifaço, com retirada de produtos, e excluiu o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, das sanções previstas na Lei Magnitsky, utilizada para punir estrangeiros.
A visita do brasileiro à Casa Branca parecia ter selado um período de harmonia entre os dois presidentes. Mas 20 dias depois de Lula voltar ao Brasil, os EUA classificaram as facções CV e PCC como organizações terroristas. A sequência de medidas americanas prosseguiu com a proposta de taxação de 25% sobre os produtos brasileiros após uma investigação comercial com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. Um dia depois, ainda foi anunciada a conclusão de uma apuração por supostas falhas relacionadas ao “trabalho forçado” a 60 países, incluindo o Brasil, com sugestão de tarifa de 12,5%. Nesse meio tempo, Trump ainda postou nas redes sociais uma foto de seu encontro com o senador e pré-candidato do PL a presidente, Flávio Bolsonaro, que havia ocorrido uma semana antes.
Depois da ofensiva, Lula anunciou que tinha decidido o G7 e foi criada expectativa de uma reunião com Trump. Não houve reunião formal, mas o americano disse que conversou com o brasileiro.
Nas entrevistas de balanço da cúpula, os dois presidentes partiram para o ataque. Trump disse que o Brasil é um “país politicamente difícil” e falou da condenação do deputado cassado Eduardo Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, apesar de ter aparentemente confundido os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Lula, por sua vez, elevou o tom das falas contra o americano. Disse que ele cometeu um “desaforo” contra o país com a sugestão de novo tarifaço e falou para que o americano “não se meta nas eleições do Brasil”.
Ao fim da cúpula de Évian-les-Bains, a relação entre os dois chefes de Estado retrocedeu ao período antes do encontro na ONU, em setembro do ano passado.