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Do novo penteado ao interesse pelo Brasil, técnico que completa 67 anos nesta quarta-feira se reinventa para a missão de comandar o país na Copa do Mundo e acalma uma equipe desacreditada

Em meio ao ciclo conturbado desde a Copa do Mundo de 2022, dentro de campo e na política da CBF, tudo o que a seleção brasileira precisava para o Mundial 2026 era de paz. Quando Carlo Ancelotti decidiu mudar os rumos da carreira de sucesso na Europa para liderar o escrete canarinho rumo ao hexa, ninguém imaginava que, um ano depois, a seleção chegaria para o torneio que começa amanhã, se não entre as favoritas, ao menos em um ambiente de certa tranquilidade, apesar da pressão e de toda a polêmica sobre a convocação de Neymar.
O técnico, que completa 67 anos nesta quarta-feira, tentará encerrar o jejum de 24 anos do Brasil sem um título, mas já conquistou a todos, além de se encantar pela paixão do brasileiro pelo futebol e até, veja só, pelo hino nacional. É possível que na estreia contra o Marrocos, sábado, ele já o cante inteiro, inclusive.
Campeão com clubes europeus como Milan, Chelsea, Paris Saint-Germain, Real Madrid e Bayern de Munique, e comandante de jogadores brasileiros na Europa, Ancelotti já conhecia os atletas, mas não nosso jeito de lidar com o esporte. E, na contramão, todos sabiam quem era o treinador que ergueu cinco vezes a Liga dos Campeões, não o senhor caloroso, de tiradas bem-humoradas, descrito por Paolo Maldini como um “urso de pelúcia”.
Nascido em Reggiolo, uma pequena cidade no norte da Itália, Carletto teve a vida mudada pelo futebol. Primeiro a carreira brilhante como atleta, entre 1976 e 1992, depois como técnico multicampeão. Sua liderança já era sem alarde, tranquila, como diz em seu livro. O jeito fofo, quase de um avô, foi notado por um dos barbeiros dos jogadores da seleção, que acabou “adotado” por Ancelotti e passou a cuidar de seu visual desde a chegada.
— Temos um novo visual desde que ele chegou. Faço um degradê, que não dá pra perceber por causa do cabelo branco, e aí dou uma penteada na parte de cima. Mas o toque final é com ele mesmo, o topete, só ele sabe ajeitar — revela Yuri Santos, levado ao Real Madrid pelo atacante Rodrygo, mas requisitado por Ancelotti. — A gente conversa bastante, fala da vida. Ele é um cara que se preocupa muito com as pessoas de quem gosta. Na primeira vez perguntei como ele cortava, mas fiz do meu jeito. Ele diz que é o melhor corte que ele já fez, até a mulher elogiou.
Não foi só o penteado que ajudou Ancelotti a se aproximar dos brasileiros. O cigarro eletrônico, o chiclete, até os beijinhos nos comandados não são exatamente uma novidade, mas deram um ar de “gente como a gente” e, na era das redes sociais, geraram memes do técnico. A forma como ele conquistou a todos no dia a dia, mesmo sem tanta intimidade, também o fez cair nas graças da CBF, que lhe deu mais quatro anos de contrato, até 2030. Com funcionários, a relação não é tão próxima como com os atletas, mas a cortesia é a mesma. Com a imprensa, o esforço para falar o português e se comunicar com a torcida rende cada vez mais clareza nas ideias sobre o futebol, mas também sobre a vida.
A empatia com que ouviu e acalmou uma jornalista japonesa que faz a cobertura da seleção brasileira chamou a atenção, ao pedir a ela que falasse calmamente, brincando em função do português “tão ruim” quanto o dele. O ano passou, e a língua não é mais um obstáculo. Ancelotti tem usado as entrevistas para se fazer entender cada vez mais em português. Quando não, lança mão de metáforas como a comparação do avô com um carro se tivesse rodas, ao ser questionado se levaria Neymar para a Copa se soubesse de sua lesão mais grave. O técnico ficou curioso sobre expressões particulares do futebol brasileiro, como “frango”, e pediu que elas fossem explicadas.
Entre os jogadores, o ciclo truncado desde 2022 não impediu que a seleção se estruturasse em torno da liderança de Ancelotti. O processo foi rápido. Há muito respeito pelo tamanho que o Mister tem no futebol, mas também há espaço para diálogo, troca de ideias. Se está na sua mesa, o técnico levanta e vai até os jogadores na concentração, senta ao lado deles, abraça, conversa individualmente. O beijo vem em momentos de alegria, muitas vezes no fim dos jogos. Com tanto calor humano, a impressão é de que Ancelotti tem um perfil “paizão”, motivador, mas o relato de jogadores é de um impressionante refino técnico e tático, com leitura de jogo afiada. Após o amistoso contra o Egito, Ancelotti já fazia anotações ao pedir relatórios de seus auxiliares no caminho para o aeroporto, dentro do ônibus. No campo, faz ajustes táticos com cinco minutos de bola rolando. Os gritos são só de incentivo, cobranças não vêm em voz alta, mas de maneira reservada. O carinho é grande com jogadores mais jovens, mas ele tem canais diretos com os líderes, como Casemiro, Danilo e até Neymar.
Surpreso com a estrutura e o estafe dos profissionais da CBF, o técnico não quis concentrar poder e usufruiu do que foi oferecido em seu entorno. Fez questão, inclusive, de pedir a renovação dos dirigentes que não integram sua comissão técnica estrangeira, e foi atendido.
Alheio ao processo político que o fez ser contratado pela CBF na gestão do ex-presidente Ednaldo Rodrigues, afastado, e seguir no cargo sob a gestão de Samir Xaud, Ancelotti tem plena noção de quem manda e com quem precisa falar sobre os temas da seleção, e costuma ter o coordenador Rodrigo Caetano como seu porta-voz.
O executivo desempenha o papel de maior rigidez, enquanto Ancelotti não liga, por exemplo, que o treino seja aberto. Há uma preocupação da CBF em guardar segredo em algumas questões de campo, mas o técnico, por ele, dá as escalações e responde tudo com clareza. No seu entendimento, é melhor falar a verdade do que dar espaço para especulação.
Em “O sonho”, biografia que lançou recentemente, o técnico fala de sua infância marcada pelo desejo de erguer troféus e chega aos jogos decisivos pela Liga dos Campeões. E termina o livro justamente falando do sonho de dirigir a seleção brasileira em uma Copa do Mundo. A história pode estar só começando.

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