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Crescimento no SUS foi de 20% em cinco anos, segundo levantamento da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM)

As internações hospitalares no SUS relacionadas à dependência de cocaína cresceram 19,8% nos últimos cinco anos. A informação é de um levantamento realizado pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) com base em dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH-SUS) consolidados por meio da plataforma analítica da TechTrials, obtido com exclusividade pelo GLOBO.
A análise demográfica mostra predominância marcante do sexo masculino, que corresponde a 74,2% das internações registradas no período, enquanto as mulheres representaram 25,8% dos casos. Os jovens também são mais afetados. Pessoas de 18 a 44 anos correspondem a 80% dos casos.
O problema não é exclusivo do sistema público. Entre usuários de planos de saúde, foram 12.496 internações, em 2022. Em 2024, esse número saltou para 22.273.
Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD) não apontam para um aumento do uso de cocaína nos últimos anos no Brasil. De acordo com o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, presidente da SPDM, esse número tem se mantido relativamente estável nos últimos anos.
O especialista acredita que o aumento esteja associado a uma combinação de fatores como baixo preço da cocaína (em comparação com países como EUA e Europa), associação com o álcool e facilidade do uso mais sistemático.
— O Brasil é o segundo país em termos de consumo de cocaína no mundo. Fica atrás somente dos Estados Unidos. A disponibilidade da droga com baixo preço faz com que a população jovem tenha fácil acesso à cocaína e com que o uso ocasional se torne mais frequente — diz Laranjeira. — Então o baixo preço, associação com o álcool e facilidade do uso mais sistemático acabam produzindo um dano biológico, cerebral, mais rápido na população mais jovem e que produz uma demanda por internações.
A médica Joana Rodrigues Marczyk, psiquiatra do Programa da Mulher Dependente Química/ PROMUD do IPq – Instituto de Psiquiatria do HC, que não participou do novo levantamento, também acredita que um aumento das internações não necessariamente reflete apenas um aumento do número de usuários.
— Ele pode indicar também maior gravidade dos casos que estão chegando aos serviços de saúde — avalia.
Os possíveis motivos para isso incluem maior gravidade dos padrões de consumo, com uso mais frequente e em maiores quantidades, aumentando o risco de complicações agudas; agravamento de transtornos psiquiátricos associados, aumento de fatores de vulnerabilidade social e limitações na oferta ou na articulação dos serviços especializados.
Como os dados levantados enquadram apenas internações hospitalares em geral, eles não se referem a internações para o tratamento da dependência em si — normalmente, isso é feito em nível ambulatorial —, mas a emergências médicas causadas pelo uso da droga, como arritmia cardíaca, AVC, acidentes de trânsito e episódios de violência. Por isso, as hospitalizações representam apenas uma parcela – a mais grave – dos casos que chegam ao sistema de saúde.
Em relação à disparidade entre os sexos, os especialistas explicam que em geral, os usuários de drogas são mais homens do que mulheres. Embora nas últimas décadas haja uma diminuição dessa diferença
— Outro fator é que as mulheres têm mais facilidade de procurar tratamento antes do que o homem. Por outro lado, elas nem sempre encontram ajuda porque são poucos os locais que oferecem serviço para as mulheres — pontua o psiquiatra.
Os dados revelam ainda o caráter recorrente da dependência química. Embora tenham sido identificados 36.861 pacientes únicos, ocorreram mais de 45 mil internações no SUS, indicando que parte dos indivíduos necessitou de múltiplas hospitalizações ao longo do tratamento.
— A dependência de cocaína é uma condição crônica e frequentemente associada a recaídas, exigindo acompanhamento contínuo e uma rede assistencial estruturada — avalia Laranjeira.
Os repasses hospitalares referentes aos pacientes hospitalizados no SUS totalizaram R$ 41,2 milhões no período, com valor médio de R$ 906,40 por internação. As regiões Sudeste e Sul responderam por mais de 90% dos valores registrados, concentrando respectivamente 47,5% e 42,6% dos gastos relacionados às internações por dependência de cocaína, o que evidencia as desigualdades regionais.
No setor privado, entre abril de 2021 e dezembro de 2024, os planos de saúde registraram 58.088 internações relacionadas à dependência de cocaína, com faturamento estimado em R$ 149,7 milhões e valor médio de R$ 2.576,52 por internação. No mesmo período, o SUS o valor médio no SUS foi de R$ 903,07 por hospitalização.
No entanto, os pesquisadores alertam que a comparação deve ser interpretada com cautela, já que os dois sistemas atendem populações distintas e operam sob modelos assistenciais e mecanismos de remuneração diferentes.
Além dos impactos clínicos e econômicos, a dependência de cocaína está associada à perda de vínculos familiares, dificuldades de inserção no mercado de trabalho, vulnerabilidade social e aumento do risco de morbidade e mortalidade.
— Isso tem um custo para as famílias, para a sociedade e para o sistema de saúde. O consumo vai dificultando a pessoa de trabalhar, de estudar ou de participar da vida familiar — diz Laranjeira.
Outro dado que chama atenção é o tempo médio de permanência hospitalar no SUS, de 28,8 dias. Mas, segundo Laranjeira, esse é o período que leva para pessoa se desintoxicar e se preparar para a próxima fase do tratamento, que é a prevenção de recaídas.
A dependência de cocaína é caracterizada não pela quantidade de uso, mas pela perda de controle e pela compulsão no consumo da substância.
— Vemos uma pessoa que tem um desejo muito grande pelo uso dessa droga, o que chamamos de fissura. Ela tem dificuldade de reduzir ou interromper o uso, mesmo quando considera que deveria fazer isso. Também começa a gastar muito tempo do dia preocupada com aspectos relacionados à cocaína e segue consumindo mesmo quando vai se dando conta dos prejuízos — explica Marczyk.
O tempo de uso para o desenvolvimento da dependência varia de acordo com o indivíduo, mas quanto maior a exposição, maior o risco. Além disso, a cocaína tem maior potencial de induzir dependência, em comparação com álcool, por exemplo. Isso acontece porque a droga ativa de forma muito intensa o sistema cerebral de recompensa.
— Ela aumenta muito a disponibilidade de dopamina de uma hora para outra, é uma substância que facilita esse padrão compulsivo. A pessoa tem uma experiência muito prazerosa de uso, isso faz com que ela queira repetir aquela experiência de uso e quanto mais ela se expuser, maior a chance de desenvolver dependência — explica a psiquiatra do IPq.
Fatores de risco para dependência incluem o uso em idade mais jovem, histórico familiar de dependência, transtorno psiquiátrico pré-existente, como depressão, ansiedade, transtorno bipolar; viver ou frequentar lugares onde a droga circula livremente e baixo suporte familiar.
O uso de cocaína impacta a saúde no curto e no longo prazo. Os prejuízos mais precoces incluem aumento do risco de problemas cardiovasculares, crise convulsiva, crise de pânico, impulsividade e maior exposição a comportamentos de risco. No longo prazo, o risco cardiovascular, em especial de arritmias aumenta mais ainda. Há também prejuízo na função executiva, ou seja, dificuldade de executar tarefas do dia a dia; piora de transtornos psiquiátricos pré-existentes, transtorno psicótico como paranoia e comportamento alucinatório.
Para reduzir o risco de danos à saúde e de internações, o diagnóstico precoce e tratamento da dependência é fundamental.
— A intervenção em transtorno por uso de substância é de tratamento ambulatorial, não de internação. Internação é um cenário reservado para quadros graves, em situação de risco agudo — diz a médica.
O tratamento é multidisciplinar e inclui o uso de medicamento que reduz a fissura, psicoterapia – em especial a terapia cognitivo comportamental -, tratamento de outros transtornos psiquiátricos, grupos de ajuda, como narcóticos anônimos, e assistência social, para pessoas com vulnerabilidade.
BS20260623073017.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/06/23/aumenta-o-numero-de-internacoes-por-dependencia-de-cocaina-no-sus-e-no-sistema-privado.ghtml

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