ECONOMIA

Bancos cortam projeções para o PIB e elevam estimativas de inflação em 2027

6 de novembro, 2026 | Por: Agência O Globo

Juros elevados e crédito mais restrito freiam economia, dizem analistas. Bradesco e C6 preveem Selic no patamar de 13,75% durante todo o ano que vem

Economia desacelera nos próximos trimestres, prevê Bradesco — Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Bradesco, Itaú e C6 Bank revisaram suas projeções para 2027 e passaram a prever uma combinação de crescimento mais fraco e inflação mais alta no Brasil. As equipes econômicas apontam que juros elevados e condições mais restritivas de crédito devem limitar a atividade, enquanto a alta do dólar pressiona os preços. Nesse cenário, Itaú e C6 esperam que a Selic permaneça em 13,75% ao longo de todo o próximo ano. O Bradesco ainda vê espaço para cortes no segundo semestre.

O Bradesco reduziu a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 1% para 0,4%. A previsão de inflação, por sua vez, subiu de 4,1% para 5,3% no ano que vem. Os analistas da instituição atribuem as revisões a uma “combinação de condições financeiras mais restritivas, menor confiança e desaceleração do crédito”.

No Itaú, a projeção de expansão da economia em 2027 caiu de 1,2% para 0,5%. O C6 também reduziu sua estimativa, de 1,7% para 1,2%, mas mantém a perspectiva mais otimista entre os três bancos.

Em relatório, o economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, lembra que a atividade econômica já vinha mostrando sinais de moderação, mesmo diante dos estímulos implementados ao longo de 2026. Isso deve ficar mais evidente no PIB do terceiro trimestre:

“Os indicadores do terceiro trimestre apontam para contração de 0,2% do PIB no período, exatamente quando as medidas de estímulo se concentravam. Ou seja, há forças (por exemplo, restrição monetária, desalavancagem das famílias e perda de confiança dos empresários) que estão reforçando o enfraquecimento da atividade econômica”, afirma Honorato.

O Itaú também projeta recuo do PIB no terceiro trimestre, de 0,1% em relação aos três meses anteriores. Para o banco, os dados apontam uma desaceleração mais prolongada da demanda doméstica, diante da perda de força dos estímulos fiscais e dos efeitos dos juros elevados. O endividamento das famílias amplia a sensibilidade do consumo às condições de crédito, enquanto a inflação limita o crescimento da renda e afeta sobretudo a população de menor renda.

A instituição espera que esse cenário se traduza gradualmente em menor geração de empregos. Por isso, elevou de 6,2% para 6,5% a projeção para a taxa de desemprego no fim de 2027.

O C6 aponta que a queda da Bolsa e a alta dos juros futuros tornaram as condições menos favoráveis para investimentos e financiamentos. Para 2026, o banco reduziu a previsão de crescimento de 1,7% para 1,5%. O Itaú cortou sua estimativa de 1,7% para 1,6%.

“A economia brasileira continua dando sinais de desaceleração. Apesar dos cortes recentes da Selic, os juros permanecem elevados e devem seguir exercendo efeitos negativos sobre a atividade”, explica Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, em relatório.

Contas públicas no radar

Honorato afirma que “o arcabouço fiscal precisa ser reforçado para ancorar as expectativas” e projeta que o governo cumprirá ao menos o piso da banda da meta de resultado primário. Para 2027, a meta é alcançar um superávit primário de R$ 73,2 bilhões. O piso, no entanto, admite um resultado pior, com superávit de R$ 36,6 bilhões.

O Itaú também defende um ajuste fiscal centrado no controle de despesas e estima um esforço da ordem de quatro pontos percentuais do PIB para estabilizar a dívida pública. Na avaliação da instituição, uma âncora fiscal crível é fundamental para permitir uma redução estrutural dos juros reais.

O Itaú também defende um ajuste nas contas públicas, principalmente com controle de gastos, equivalente a cerca de quatro pontos percentuais do PIB para estabilizar a dívida pública. Para o banco, uma política fiscal que inspire confiança é fundamental para permitir juros reais mais baixos de forma duradoura.

As preocupações com a trajetória das contas públicas levaram Itaú e C6 a elevar suas projeções para o dólar. O Itaú passou a estimar a moeda em R$ 5,60 no fim de 2027, ante R$ 5,50. O C6 revisou sua previsão de R$ 5,50 para R$ 5,80.

Inflação mais alta

Honorato afirma que o “cenário para a inflação tornou-se substancialmente mais desafiador, apesar do crescimento mais fraco”. De acordo com ele, há uma “sequência de choques” que pode elevar significativamente a inflação ao longo do próximo ano. A estimativa do Bradesco para o IPCA subiu para 5,5% em 2026 e 5,3% em 2027, ante 4,9% e 4,1%, respectivamente.

Entre os três bancos, o Itaú passou a ter a maior projeção de inflação para 2027: 6,1%, ante 4,6% anteriormente. A revisão considera principalmente medidas sobre combustíveis, um câmbio médio mais depreciado e os efeitos estimados da reforma tributária e das mudanças na jornada de trabalho.

No caso dos combustíveis, o banco considera a volta do PIS/Cofins sobre a gasolina, o fim da subvenção ao diesel no segundo semestre e o reajuste do ICMS. A instituição ressalta, porém, que há elevada incerteza sobre o repasse aos consumidores dos efeitos da reforma tributária e das mudanças na jornada. Para 2026, a projeção do IPCA passou de 5,1% para 5,2%.

Já o C6 elevou a estimativa de inflação de 2027 de 5% para 5,2%, diante da perspectiva de pressão adicional do dólar sobre os preços. O banco também aponta uma inflação de serviços ainda elevada, sustentada pelo mercado de trabalho aquecido e pelo crescimento dos salários acima da produtividade. Para 2026, manteve a previsão de 5%.

Sem cortes nos juros

Nesse cenário, o Bradesco espera que o Banco Central mantenha a Selic estável durante todo o primeiro semestre de 2027, mas retome os cortes gradualmente até baixar os juros para 12,75% ao final do ano que vem. Hoje, a taxa está em 13,75%.

O Itaú abandonou a previsão de Selic a 12,50% no fim de 2027 e passou a esperar a manutenção em 13,75% durante todo o ano. Para a instituição, o aumento das pressões inflacionárias e a piora das expectativas reduziram o espaço para cortes. Em análise divulgada após a reunião do Copom de novembro, o banco manteve a perspectiva de estabilidade nas próximas reuniões e avaliou que a sinalização do BC também tornou menos provável uma nova alta dos juros.

O C6 igualmente prevê Selic em 13,75% até o fim de 2026 e ao longo de 2027.

“O Copom reconheceu que a economia está desacelerando de forma mais acentuada, mas continuou apontando riscos para a inflação à frente”, afirma Salles. “Na nossa visão, a piora das perspectivas para a inflação, em especial diante da alta do dólar, reduz o espaço para novos cortes de juros.”


BS20261106114827.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/11/06/bradesco-reve-crescimento-do-pib-em-2027-para-04percent-menos-da-metade-da-previsao-anterior.ghtml

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