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Reajuste do Bolsa Família e medidas para combustíveis têm paralelo com eleição passada, mas diferem no financiamento; governo nega motivação eleitoral

A menos de três semanas do primeiro turno, o reajuste do Bolsa Família reforçou a lista de benefícios anunciados pelo governo Lula durante a disputa pela reeleição. O aumento se soma a novos subsídios aos combustíveis, recursos para habitação e linhas de crédito, num movimento que tem paralelo com o de Jair Bolsonaro em 2022. A proximidade dos anúncios com a votação aproxima os dois períodos, mas há diferenças nos reajustes, nas fontes de dinheiro e na forma de acomodar as medidas nas contas públicas.
O governo nega motivação eleitoral. No caso do Bolsa Família, sustenta que a passagem do benefício mínimo de R$ 600 para R$ 691 recompõe a inflação acumulada e só foi possível após uma revisão das despesas previstas para este ano. Em 2022, Bolsonaro elevou o Auxílio Brasil de R$ 400 para 600, uma alta de 50%, acima da inflação, através de uma alteração na Constituição.
Anunciado na quinta-feira, o reajuste de Lula terá custo adicional estimado em R$ 5,8 bilhões neste ano, considerando os pagamentos a partir de outubro — entre o primeiro e o segundo turno das eleições —, e de R$ 22 bilhões em 2027. O dinheiro não aumentará o conjunto de despesas, mas irá tomar o espaço de outros gastos. Para o próximo ano, será necessário ajustar a proposta já encaminhada ao Congresso.
Segundo o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, uma redução de R$ 11,5 bilhões na projeção de despesas previdenciárias abriu espaço para o aumento em 2026. Trata-se de uma revisão do que o governo espera gastar, que permite direcionar parte dos recursos a outras despesas.
Quatro anos atrás, o aumento do Auxílio Brasil integrou a chamada PEC Kamikaze, aprovada a três meses da eleição. O pacote autorizou R$ 41,2 bilhões para ampliar benefícios, incluindo auxílio-gás, e criar pagamentos para caminhoneiros e taxistas. Além dessas despesas, Bolsonaro promoveu cortes de tributos sobre combustíveis.
Os combustíveis também voltaram ao centro dos anúncios de Lula. Em setembro, o governo apresentou medidas estimadas em R$ 7 bilhões por mês para reduzir os efeitos da guerra no Oriente Médio sobre os preços do diesel, da gasolina e do etanol no Brasil. Desse total, aproximadamente R$ 5 bilhões correspondem a subsídios ao diesel, pagos com recursos públicos. Outros R$ 2 bilhões representam a arrecadação da qual a União abre mão com a desoneração de PIS/Cofins sobre gasolina e etanol.
As medidas têm previsão de encerramento no início de outubro, mas podem ser prorrogadas.
Na habitação, houve, também neste mês, um reforço de R$ 500 milhões para os descontos concedidos às faixas 1 e 2 do Minha Casa, Minha Vida. Nesse caso, os recursos vêm do FGTS, formado por depósitos dos empregadores nas contas dos trabalhadores, e não diretamente do caixa do Tesouro.
A oferta de crédito também cresceu nos meses que antecederam a campanha. Em junho, foram anunciados R$ 4 bilhões para a modalidade do Move Brasil voltada a motos, com recursos associados ao Fundo Garantidor de Operações (FGO) e ao FGTS. No mesmo mês, o Desenrola Adimplentes foi anunciado com outros R$ 4 bilhões do Tesouro destinados a financiamento.
O peso dessas operações é uma diferença no desenho da expansão atual. Enquanto o Bolsa Família transfere dinheiro sem previsão de devolução, as linhas de crédito financiam compras e renegociações com pagamento pelos beneficiários. Já os fundos garantidores cobrem eventuais perdas, facilitando a concessão dos empréstimos.
Essas iniciativas vieram depois de um conjunto de medidas já analisado por Marcos Mendes, pesquisador associado ao Insper. Em estudo publicado em junho para a XP, o economista estimou que as ações adotadas entre meados de 2025 e o fim de maio teriam impacto expansionista de R$ 215 bilhões em 2026.
O número não correspondia apenas a gastos diretos. Eram R$ 97 bilhões em operações financeiras, principalmente crédito subsidiado com recursos do Orçamento; R$ 35 bilhões em fundos e ativos fora dele; e R$ 83 bilhões em despesas ou redução de receitas. Essa última parcela afeta o resultado primário, a diferença entre o que o governo arrecada e gasta, sem considerar os juros da dívida.
Entre as medidas já contabilizadas estavam os R$ 30 bilhões anunciados em maio para financiar veículos de taxistas e motoristas de aplicativos. Portanto, essa modalidade do Move Brasil já integrava os R$ 215 bilhões. Os anúncios posteriores são apresentados separadamente, sem atualizar o total do estudo.
Na avaliação do economista, o uso de crédito e fundos permite ampliar as políticas sem que todo o valor apareça nas despesas sujeitas ao limite de gastos, mas não elimina os efeitos sobre a dívida. Ele apontou o custo dos juros subsidiados e a destinação de recursos que poderiam ser usados para reduzir o endividamento. Em determinadas linhas, sua metodologia considerou o valor integral autorizado para financiamento.
Por reunir despesas, renúncias e crédito, o total do estudo não é diretamente comparável aos R$ 41,2 bilhões da PEC de 2022. A comparação mais direta permanece nos benefícios e no momento dos anúncios: os dois governos ampliaram a transferência de renda durante a disputa pela reeleição, mas com aumentos de dimensões diferentes e caminhos distintos para financiá-los.
BS20260918155625.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/09/18/bolsa-familia-reforca-agenda-de-beneficios-de-lula-e-retoma-comparacao-com-bolsonaro-em-2022.ghtml

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