Campanha de Lula deve sair em defesa da CNBB após crítica de Flávio, que evita novo embate e prepara acenos aos católicos
28 de setembro, 2026
| Por: Agência O Globo
Segmento religioso representa mais de metade da população, e aliados do presidenciável do PL tentam contornar repercussão
O presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro Montagem/Fotos: Marcelo Camargo/Agência Brasil – Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva elabora uma nota em defesa da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) após o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), acusar integrantes da entidade de terem ajudado a disseminar a informação falsa de que ele vai retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil caso seja eleito. Enquanto o petista pretende explorar o episódio, o adversário decidiu evitar novos embates com a Igreja e estuda acenos aos católicos, entre eles um possível encontro com padres nesta semana.
Em Goiânia, no domingo, Flávio afirmou que pessoas ligadas à CNBB teriam contribuído para espalhar o conteúdo. O candidato disse que o PT já vinha tentando impulsionar a versão e acusou a legenda de manter uma “liga da mentira”.
— O PT já estava há alguns dias tentando levantar essa fake news e conseguiu, com a ajuda de gente dentro da CNBB, infelizmente. Rapidamente se reverteu, porque a verdade está do nosso lado — afirmou.
A CNBB reagiu horas depois. Em nota, negou ter produzido, autorizado ou participado da divulgação de informações falsas sobre a eleição e cobrou provas da acusação.
“Atribuir à CNBB participação em estruturas de produção ou disseminação de desinformação, sem fatos e provas que sustentem tal afirmação, atinge injustamente a instituição e não contribui para a serenidade e a responsabilidade que devem caracterizar o processo eleitoral. A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou.
O PT viu na fala do Flávio uma oportunidade concreta de se manifestar sobre o caso e deve publicar uma nota em solidariedade à CNBB. Para integrante da cúpula da campanha, esse foi o maior deslize do senador no caso, pois “chamou para a briga” a entidade. De acordo com o Censo mais recente, há 100,2 milhões de católicos no Brasil, o equivalente a 56,7% da população.
Em entrevista neste domingo, Lula tratou do tema. Ao defender a importância da Santa para os fiéis, o presidente lembrou o episódio de 1995 em que um pastor evangélico chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão.
– Mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável. Já teve gente da religião evangélica que um dia chutou Nossa Senhora Aparecida – disse, em entrevista à TV Bandeirantes. – Eu quero dizer o seguinte: ela vai ser Padroeira do Brasil porque o povo quer e tem fé.
O caso foi impulsionado nas redes sociais após um debate sobre um projeto de lei arquivado há quase 20 anos que tinha o objetivo de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
Embora o debate seja favorável a Lula no ambiente digital, o presidente não deve publicar fotos nem planeja ir à basílica de Nossa Senhora Aparecida, em São Paulo. De acordo com auxiliares, o petista teme ser acusado de oportunismo religioso às vésperas do primeiro turno.
Por outro lado, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que é católico praticante, tem sido aconselhado a ir até a catedral erguida em homenagem à Santa nos próximos dias. Há expectativa de que esse movimento ocorra. Na noite de domingo, Alckmin gravou um vídeo em frente a uma igreja em São Paulo repudiando o movimento de retirar o título de Nossa Senhora de Padroeira de padroeira do Brasil:
—Enquanto eu e o presidente Lula estivermos governando, vamos trabalhar para proteger todas as religiões.
Mesmo sob pressão no caso, Flávio não pretende se desculpar nem retirar o que disse no domingo, em Goiânia. A avaliação entre seus auxiliares é que o candidato não fez uma acusação que justifique retratação e que há integrantes da CNBB com posições próximas ao PT. Ao mesmo tempo, aliados reconhecem que não interessa transformar a reação da Conferência em uma briga mais ampla com a Igreja Católica a menos de uma semana da eleição.
A orientação, por isso, é não alimentar o episódio. Em vez de responder às críticas da entidade, Flávio deve voltar a sustentar que nunca defendeu medidas contra a Igreja e que é falsa a versão de que apoiaria a retirada de Nossa Senhora Aparecida do posto de Padroeira do Brasil.
Ao mesmo tempo, a campanha estuda novos gestos ao eleitorado católico. Entre as possibilidades avaliadas está um encontro de Flávio com padres próximos ao candidato nos próximos dias. A agenda ainda não está definida. Aliados também têm levado imagens da padroeira aos atos eleitorais.
A aproximação com religiosos começou antes mesmo do atrito direto com a CNBB. No sábado, o canal de Flávio no YouTube promoveu uma transmissão com padres e representantes de outras religiões para rebater a repercussão do caso de Nossa Senhora Aparecida. O programa teve um bloco intitulado “Atacar a Igreja é atacar uma instituição de apoio social e espiritual” e contou, entre outros, com o padre Salathiel de Souza, da Diocese de Jundiaí (SP), além de Padre Kelmon.
A campanha também discute a escolha de um padre para atuar como porta-voz em um direito de resposta sobre o episódio. O marketing preparou um texto-base para ser gravado pelo religioso. A iniciativa faz parte da tentativa de reagir à associação de Flávio à retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.