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Câncer de pâncreas: vacina experimental ativa defesas do organismo em quase 100% dos pacientes

30 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

Imunizante tem como alvo mutações do gene KRAS, presentes em cerca de 90% dos tumores pancreáticos mais comuns

A vacina experimental tem como alvo sete das mutações KRAS mais comuns – Foto: Matheus Oliveira/Agência Saúde-DF

Uma vacina experimental ajudou o sistema imunológico a reconhecer e responder a mutações que impulsionam a maioria dos cânceres de pâncreas, de acordo com um estudo publicado na revista científica Nature Medicine. Os resultados fazem parte de um ensaio clínico randomizado de fase 2 liderado por pesquisadores da Mayo Clinic.

O estudo incluiu 144 pacientes com câncer pancreático em estágio 1 a 3 com mutação no gene KRAS. Esse tipo de mutação é encontrada em cerca de 90% dos adenocarcinomas ductais pancreáticos, o tipo mais comum de câncer de pâncreas, e ajudam as células cancerígenas a crescer e sobreviver.

Todos os participantes haviam sido submetidos a cirurgia e quimioterapia e não apresentavam câncer visível em exames de imagem no momento da inclusão no estudo. Os pesquisadores designaram aleatoriamente 96 pacientes para receber a vacina e 48 para observação.

Os resultados mostraram que quase todos os pacientes avaliados após receberem a vacina desenvolveram uma resposta imunológica contra o KRAS mutado. Aqueles com respostas imunológicas mais fortes tendiam a permanecer livres da doença por mais tempo.

“Historicamente, o câncer de pâncreas tem sido muito difícil de tratar com imunoterapia”, diz o médico Ben George, oncologista clínico da Mayo Clinic e principal autor do estudo, em comunicado. “O que é encorajador é que conseguimos gerar uma forte resposta imune contra as mutações do gene KRAS em quase todos os pacientes que avaliamos. Em uma análise exploratória, os pacientes com respostas imunes mais fortes à vacina pareceram protegidos, apresentando tempos de sobrevida livre de doença mais longos.”

O câncer de pâncreas apresenta alto risco de recidiva mesmo após cirurgia e quimioterapia. Pesquisadores têm buscado novas maneiras de encontrar e destruir células cancerígenas que possam permanecer no corpo após o tratamento.

Como funciona a vacina

A vacina experimental tem como alvo sete das mutações KRAS mais comuns. Ela foi projetada para chegar aos linfonodos, onde muitas respostas imunológicas começam. Lá, a vacina ajuda as células T — células imunológicas capazes de reconhecer e atacar células alteradas — a identificar células cancerígenas com KRAS mutado.

Diferentemente de algumas vacinas contra o câncer feitas especificamente para um paciente individual, esta vacina foi desenvolvida para pacientes cujos tumores apresentam uma das mutações KRAS que ela visa.

Apesar dos resultados, o ensaio clínico não atingiu seu objetivo principal de demonstrar uma melhora na sobrevida livre de doença em toda a população estudada. A mediana de sobrevida livre de doença, ou seja, o tempo em que os pacientes viveram sem que o câncer retornasse, foi de 23,8 meses para os pacientes que receberam a vacina e de 21,2 meses para aqueles no grupo de observação. A diferença não foi estatisticamente significativa.

No entanto, os pesquisadores encontraram outros sinais que justificam estudos adicionais. Dos 90 pacientes que receberam a vacina e puderam ser avaliados quanto à resposta imune, 89, o que corresponde a 98,9%, desenvolveram respostas aumentadas de células T contra o KRAS mutado.

Os pesquisadores também encontraram uma associação entre a intensidade da resposta imune e o tempo que os pacientes permaneceram livres da doença. Mais de 8 em cada 10 pacientes que puderam ser avaliados desenvolveram uma resposta de células T específica para KRAS que foi mais de nove vezes maior do que antes da vacinação. Aqueles que atingiram esse nível tiveram uma sobrevida livre de doença mais longa do que os que não a atingiram.

“A resposta imune é um sinal importante que nos ajuda a entender o que está acontecendo biologicamente e nos fornece informações importantes para o próximo ensaio clínico”, afirma George.

Os pesquisadores também encontraram indícios que podem ajudar a prever quais pacientes têm maior probabilidade de se beneficiar da vacina. Uma das pistas envolvia o DNA tumoral circulante, ou ctDNA.

Trata-se de pequenos fragmentos de DNA liberados pelas células cancerígenas na corrente sanguínea. A detecção de ctDNA após o tratamento do câncer pode ser um sinal de que o câncer permanece no corpo, mesmo quando não é visível em exames de imagem.

Em uma análise planejada, pacientes que não apresentavam ctDNA detectável no início do estudo mostraram um sinal de maior sobrevida livre de doença com a vacina em comparação com a observação.

Os pesquisadores observaram outra diferença dependendo se os pacientes haviam recebido radioterapia anteriormente. Pacientes que receberam radioterapia apresentaram menor número de linfócitos, um tipo de glóbulo branco importante para o sistema imunológico. Eles também desenvolveram respostas imunes mais fracas específicas para KRAS após receberem a vacina.

Entre os pacientes que não receberam radioterapia, os pesquisadores observaram indícios de maior sobrevida livre de doença com a vacina. Essas descobertas não estabelecem quais pacientes se beneficiarão da vacina. No entanto, elas fornecem aos pesquisadores informações para testar em um estudo clínico maior.

“Uma das coisas mais úteis que podemos aprender com um ensaio clínico de fase 2 é por que os pacientes podem responder de forma diferente”, diz George. “Podemos usar essas lições para planejar o próximo estudo e responder melhor à pergunta mais importante: essa abordagem pode ajudar os pacientes a viverem mais tempo sem que o câncer de pâncreas retorne?”

Resposta imune contra o câncer

Os pesquisadores descobriram que a vacina ativou dois tipos importantes de células T, conhecidas como células T CD4 e CD8. Ela também produziu respostas imunes contra diversas mutações do gene KRAS.

Em um pequeno grupo de pacientes, os pesquisadores observaram outro efeito potencialmente importante. Após a vacinação, o sistema imunológico começou a reconhecer outros alvos relacionados ao câncer que não estavam incluídos na vacina, um fenômeno que os pesquisadores chamam de disseminação de antígenos.

A resposta imune também persistiu ao longo do tempo. Entre os pacientes que puderam ser avaliados pelo menos 46 semanas após o início do estudo, 95,5% ainda apresentavam uma resposta detectável de células T específicas para KRAS.

Os pesquisadores afirmam que são necessários um acompanhamento mais longo e um estudo maior. Os resultados de sobrevida global ainda não estão disponíveis, e algumas descobertas que relacionam a resposta imune à sobrevida livre de doença vieram de análises exploratórias.

“Demonstramos que podemos ensinar o sistema imunológico a reconhecer essas mutações do gene KRAS”, afirma George. “O próximo passo é descobrir se isso pode alterar o curso da doença para os pacientes.”

Está previsto um ensaio clínico de fase 3 para estudar mais a fundo se a vacina pode retardar ou prevenir o reaparecimento do câncer pancreático.

BS20261030150620.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/10/30/cancer-de-pancreas-vacina-experimental-ativa-defesas-do-organismo-em-quase-100percent-dos-pacientes.ghtml

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