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Para especialistas, decisão de Trump sobre facções pode ter consequências mais danosas que tarifaço; eles sugerem que Lula busque contato direto com americano
As relações entre Brasília e Washington iniciam mais um capítulo perigosamente negativo após o anúncio do governo dos Estados Unidos, na última quinta-feira, de que passará a classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas, algo que o Itamaraty buscou, sem sucesso, evitar. A avaliação é unânime entre especialistas na área ouvidos pelo GLOBO, ainda que a exata gravidade da medida, que abre a possibilidade real de interferência americana em solo brasileiro — ainda que, por ora, improvável —, só será dimensionada após eventuais aplicações práticas.
A avaliação é de que há pouco a se fazer de imediato do lado brasileiro, além de incrementar o investimento, em uma Casa Branca centralizadora, no contato direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Donald Trump. Assim como no caso do tarifaço, a tática deve passar por enfatizar como interesses de investidores e empresas americanas no Brasil também estão em jogo.
Diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, Feliciano Guimarães afirma que o impacto negativo do anúncio da semana passada é ainda maior do que o dos tarifaços impostos pelo governo Trump ao Brasil. Isso ocorreu, avalia, inclusive por ultrapassar o domínio do universo das relações comerciais e dar liberdade jurídica a órgãos americanos para interferir em múltiplos setores da vida brasileira:
— Em um primeiro momento, o maior prejudicado em potencial com esse avanço extranacional é o setor bancário brasileiro, com a possibilidade de captura de ativos de indivíduos acusados de envolvimento com o terror e o fator extra de insegurança para os investidores. Mas tenho certeza de que neste exato momento as Forças Armadas e a Receita Federal estão debruçadas sobre os novos elementos postos à mesa na devida consideração da efetiva proteção do país de interferências estrangeiras — aposta o pesquisador.
Guimarães também destaca que Washington certamente incluirá em mesas de negociações futuras com o Brasil a eventual revogação do anúncio de ontem, que passa a valer no dia 5 de junho:
— E eles não o farão de graça. A relação entre os dois países tem sido ruim desde o retorno de Trump à Casa Branca e vivemos agora nova escalada. Lula conseguiu até aqui, com habilidade, mitigar os danos de um enfrentamento que se dá por questões estruturais, expostas na chamada Doutrina Donroe (que estabelece as Américas como área de influência exclusiva dos EUA), anunciado no fim do ano passado. A dimensão política, econômica e de segurança nacional do anúncio de quinta-feira é muito mais ampla do que a dos tarifaços, dos quais saímos quase ilesos. O baque no sistema financeiro, desta vez, pode ser bem maior.
Embaixador aposentado, Roberto Abdenur alerta que o país vive hoje sob um risco inédito de intervenção em mais de dois séculos de relações com Washington, com a possibilidade de aplicações de sanções econômicas e interferência no sistema financeiro brasileiro de dimensão muito maior do que as taxações perpetuadas por Trump, “embora ainda não tenha se manifestado de forma concreta”. A ponderação do diplomata, que por dois anos, após deixar o Itamaraty, foi assessor da Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), é feita ao lado de observação que considera ser central para se assegurar uma distância grande entre o anúncio dos EUA e eventuais ações práticas do governo americano a partir da avenida de possibilidades por ele proporcionado:
— O governo brasileiro precisa enfatizar eventuais danos aos interesses privados dos americanos no Brasil, notadamente investidores e empresários. Estamos falando de um universo de mais de quatro mil empresas americanas e de um investimento direto total vindo dos EUA que só não é maior, pelos americanos, na China. Qualquer movimento pode ser extremamente contraproducente para esse estrato. Espero que o empresariado americano no Brasil se mexa.
Embaixador do Brasil nos EUA entre 2004 e 2006, no primeiro governo Lula, Abdenur destaca a ausência, na reação do petista, de críticas direcionadas a Trump. É na relação direta entre os dois presidentes, aponta, que um novo caminho de distensionamento entre os países pode ser traçado:
— Há presidentes em que o peso da relação pessoal é imenso, e esse é o caso de Trump. Ao mesmo tempo, o republicano não gosta de quem lhe baixe a cabeça. Um longo telefonema seria um caminho inicial para mais um recomeço.
Autora, entre outros livros, de “Brasil-Estados Unidos: desencontros e afinidades”, a cientista política Monica Hirst, professora das universidades argentinas de Quilmes e Di Tella e do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Uerj, lembra que, apesar dos esforços da diplomacia brasileira, o Departamento de Estado jamais se comprometeu em tratar o Brasil de modo diferenciado, com a exclusão do país da política de criminalização de grupos armados aplicada pelo Trump 2.0, de ressonância política interna, em toda a América Latina. Desde 2025, 15 organizações criminosas em países da região, entre eles México, Peru e Equador, passaram a ser consideradas terroristas por Washington.
— A depender de como a decisão for aplicada no Brasil há a possibilidade de uma transformação radical nas relações entre os dois países. Mas isso não impede uma reviravolta no futuro próximo. Para o Planalto, será uma casca de banana se dramatizar o anúncio como o fez a direita bolsonarista. O Trump 2.0 não tem estratégia definida a ferro e fogo e sim um comportamento agressivo, que joga com o efeito surpresa, de vertigem. E contra todos, não especificamente contra Brasília — diz Hirst.
Há meses na liderança de um estudo interno sobre o tema, Julia Thomson, analista de Brasil da consultoria de risco Eurasia, destaca que uma vez mais o grupo ideológico de ultradireita que gira em torno do secretário de Estado, Marco Rubio, se mostrou peça a ser levada em conta na equação das relações entre Brasília e Washington. Ela lembra das limitações a ações mais drásticas possibilitadas a partir da classificação de CV e PCC como grupos terroristas por Washington, tanto pela força das instituições brasileiras quanto pela centralidade que o México e o Caribe têm no universo da segurança nacional para o governo americano.
— Trabalhamos com um cenário sem avanços bilaterais, inclusive em possíveis acordos comerciais, como Washington o faz este momento com outros atores, mas de escalada modesta nas tensões entre Brasil e EUA. O quadro é ruim, há tensão, mas já esteve pior e pode voltar a melhorar com ações pontuais imediatas, como um telefonema de Lula para Trump — afirma Thomson.
Química: Após um encontro nos bastidores da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, em 23 de setembro, Donald Trump afirmou que houve uma “química excelente” com Lula. No dia seguinte, o presidente brasileiro disse ter sido “surpreendido” pela abordagem de Trump e concordou que havia “pintado uma química”.
Reunião na Malásia: Lula e Trump tiveram reunião bilateral em 26 de outubro, na Malásia, de cerca de 50 minutos. Em meio à crise depois da taxação de 50% imposta pelos EUA ao Brasil, Lula pediu suspensão do “tarifaço”. Passado o encontro, ambos disseram que equipes iniciariam conversas para soluções comerciais.
‘Dinâmico’: Após reunião com Lula na Casa Branca, em 7 de maio de 2026, Trump elogiou o presidente brasileiro, chamando-o de “dinâmico”. Acrescentou que a conversa foi “muito produtiva” e tratou de comércio, tarifas e outros temas. O encontro durou cerca de três horas e foi visto como marco na reaproximação após tensões diplomáticas.
Tarifaço: Em 9 de julho de 2025, Trump anunciou tarifa adicional de 50% sobre produtos brasileiros, alegando desequilíbrio comercial e criticando decisões sobre Jair Bolsonaro. A medida entrou em vigor em agosto e atingiu setores estratégicos da economia brasileira, gerando reação do governo Lula e impasse com os EUA.
Lei Magnitsky: Em julho de 2025, a gestão Trump aplicou a Lei Magnitsky com sanções financeiras contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que presidiu o julgamento de Bolsonaro. Lula classificou a medida como “interferência inaceitável”, “arbitrária” e “sem fundamento”.
Revogação de vistos: Nos meses seguintes, as restrições também atingiram familiares, além de integrantes do Judiciário e do governo federal, com revogação de vistos pelos EUA. Para o Planalto, a ofensiva deixou de ser disputa política ou comercial e passou a ser pressão direta sobre o núcleo institucional do Estado brasileiro.
BS20260531063042.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/05/31/classificacao-de-faccoes-como-terroristas-abre-novo-capitulo-de-tensao-na-relacao-diplomatica-entre-brasil-e-eua.ghtml

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