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CONTOS QUE TE CONTO

4 de abril, 2025 | Por: LUIZ CÉSAR FIUZA

Vou de Táxi

Esta crônica apresenta histórias que envolvem corridas de táxi, as quais estão sendo contadas desde a edição passada. Seguem novos relatos para deleite de nossos leitores

Uma História Comovente

Em novembro de 1988, fui visitar o primo André, inebriado com a recente paternidade. Toquei a campainha, ele abriu a janelinha da porta e me recebeu contente. Após a recepção, caminhamos pelo bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, sedentos por uma cerveja. Pouco à frente, localizamos nosso oásis e, tendo uma geladinha por testemunha, desfiamos um rosário de emoções paternas até altas horas. Eu tinha dois filhos e ele, bêbado de sentimentos, não parava de falar da pequenina Amanda, nascida três meses antes. A conversa, transbordante de amor, fluiu até a despedida. Não podia imaginar que aquela seria a última.

Enquanto conversamos, evidenciava-se o deplorável estado físico daquele papai estreante. O peso excessivo, associado à onipresente crise asmática, compunha uma imagem débil e preocupante. Os brônquios inflamados, eternos companheiros desde a infância, tornavam penosa sua rotina, paradoxalmente ativa. André trabalhava sem descanso. Queria dar conforto à família e comprar um novo apartamento, mas não teve tempo! Com vinte e nove anos incompletos, seu coração apaixonado adormeceu para sempre.

Num mundo sem celulares, sequer fui avisado. Que loucura! Dois dias antes, comemorávamos o nascimento da bebezinha e, agora, num sopro, ele havia ido embora. Sonhos e planos, de repente, soaram vazios. No futuro, Amanda pediria à mãe o “endereço do Céu”, para manifestar seu carinho no Dia dos Pais. Sem rumo, pus-me a caminhar pelas ruas, desejando dividir aquele sofrimento com alguém. Foi quando me lembrei do Zé, meu irmão por amizade, criação e respeito. Ele morava longe, mas tinha de vê-lo.

Peguei um táxi e, durante o percurso, destilei minha dor para um motorista atento e silencioso. Quando terminei, ele manifestou seus sentimentos e pediu licença para narrar uma experiência pessoal. Disse que, de certa feita, transportou uma passageira com um embrulho nas mãos. Inicialmente, queria passar num shopping, antes de seguir para o destino final. Durante o percurso, contudo, ia repetindo xingamentos desconexos:
— CALA A BOCA, FILHO DA PUTA!
— FICA QUIETO!
Incomodado, o motorista indagou:
— A senhora está falando comigo?
— Não. Fica na sua! Não tem nada a ver com você!
Apesar de estranhar aquela conduta, rumou para o shopping. Ao chegar, a mulher pediu que aguardasse. Iria resolver um problema e logo estaria de volta. Ao desembarcar, anunciou que deixaria seus pertences no carro.

Ela foi, mas não voltou. Desconfiado, o motorista resolveu abrir o pacote e ficou estarrecido com o conteúdo: um bebê, todo machucado e queimado com ponta de cigarro, jazia sem forças até para chorar.
Horrorizado, e quase esquecendo o meu drama, perguntei:
— E aí?
Sua resposta veio com um sorriso vitorioso, de uma orelha à outra:
— Está lá em casa, com sete anos! Lindo, forte, correndo para todo lado. Ele é MEU FILHO!
Cheguei ao destino e, antes de descer, combinei uma corrida para o dia seguinte, até o aeroporto. Ele não apareceu, mas também não me aborreci. Havia tido o privilégio de conhecer um anjo. Como exigir uma segunda aparição?

A Pizza Que Não Comi

Sábado de sol e calor no Rio de Janeiro… hoje vai dar praia! Lá fomos nós, eu e Juçarinha. Sem carro, era ônibus mesmo. Dois ônibus para ir e outros dois para voltar! Gente pendurada nas portas e caindo pelas janelas. Rio, 40 graus! Uma multidão suada na ida. Uma multidão suada, salgada, faminta e sonolenta na volta! Verdadeira visão do inferno. Devíamos nossa alegre sobrevivência à invulnerabilidade juvenil.
No final da tarde, chegamos cheios de fome e decidimos por uma pizza, após o banho. Arrumados e cheirosos, pegamos o primeiro táxi que apareceu. Era um daqueles fuscas sem o banco do carona, com uma cordinha para o motorista fechar a porta, muito populares na época. Ao embarcar, pedi ao piloto um palpite sobre pizzaria. Ele nos levou até Cascadura, subúrbio próximo.

— Olha, outro dia vim aqui com minha esposa e gostei muito.
Bem recomendados e esfaimados, resolvemos seguir a sugestão.
— Garçom, por favor, uma cerveja e o cardápio.
— Qual você gosta, Juçara? — perguntei.
— Lombo canadense.
— Ok. Garçom, por favor, uma grande, de lombo canadense.
Ele nos fitou com olhar apreensivo e disparou:
— Espera aí. Vocês já comeram a pizza de lombo canadense daqui?
Balançamos a cabeça negativamente, e ele prosseguiu:
— Rapaz, essa pizza de lombo canadense daqui é muito ruim! Outro dia, um cara comeu e teve uma caganeira danada. Eu não comeria.
Espantados com tamanha franqueza, perguntamos qual nos aconselhava.
— Olha, as únicas que prestam são muçarela e frango.
Pedimos frango.
Gostei dele! Será que o patrão também gostava?

Continua na próxima edição

Vou de Táxi

Na crônica desta edição, reúno 11 histórias curtas que envolvem corridas de táxi, as quais serão contadas em três edições deste caderno, a começar pelas que seguem

O ano era 1976 e eu havia ingressado na UnB, Universidade de Brasília. Todo feliz, curtia meu status de universitário, quase um pop star. Com excesso de cabelos e escassez de barriga (realidade que se inverteria com o tempo), só faltava um detalhe para fazer sucesso com as meninas: um carro. Com tal objetivo, iniciei uma frenética corrida por trabalho, sempre acompanhado do amigo Ney, com quem compartilhava o desemprego e os classificados de todas as manhãs. Recortávamos os anúncios mais alvissareiros e caíamos no mundo. Logo a sorte nos sorriu. Ele foi trabalhar na Capemi – Caixa de Pecúlios, Pensões e Montepios Beneficentes, considerada “o maior sistema empresarial privado, sem f ins lucrativos, brasileiro, no ramo da previdência complementar, seguros e assistência financeira”. A empresa, criada em 1960, encerraria suas atividades na década de oitenta, mergulhada em escândalos.

Menos aquinhoado, eu acabei no PENAC (Pecúlio Nacional Circulista), organização sediada no Rio Grande do Sul e que mantinha escritórios em Brasília. Lotado na filial do Gama, imediatamente entrei em atividade. O Gama daquele tempo era um lugar precário, poeirento e com poucas ruas asfaltadas. E lá ia eu, entre pó, buracos e o esgoto a céu aberto.– Bom dia, minha senhora! A senhora já ouviu falar do PENAC? PENAC é o Pecúlio Nacional Circulista, que proporciona aposentadorias, pecúlios, pensões e Tcham! Tcham! Tcham! Tcham! CASA PRÓPRIA! Esse último benefício fazia faiscar os olhos daquela gente sofrida. Mas, até onde sei, apenas uma moradia foi entregue. Na ocasião, circularam com carro de som, juntaram um monte de gente e, entre fanfarras e balões, contemplaram o felizardo. Depois disso, nunca mais. Aquela seria a única residência entregue, um gesto simbólico que teve o condão de promover esperanças entre os desesperançados.

Mas, além dessa miragem, o PENAC pouco ou nada tinha a oferecer para pessoas que mal sabiam assinar o nome. Fora isso, uma clientela, no limite da pobreza e ignorante sobre os produtos oferecidos, só rendia minguados tostões ao vendedor, distanciando-o, mais ainda, do sonho automotivo. Meu companheiro de desemprego e subemprego, o Ney, também amargava rendimentos baixíssimos e, assim, logo formamos a dupla “Tô Duro” e “Eu Também”. Os amigos convidavam: — Fiuza e Ney, vamos comer pizza? — Não dá. Tô duro. (Eu) — Eu também. (Ney) Chegava sexta-feira e ficávamos admirando o Augusto e o Magrão, funcionários do SERPRO e da Sears (quem lembra?), desfilando com as namoradas. O primeiro, numa Brasília do ano, e o segundo, num pomposo GM Chevette — quanta inveja! Mas, como dizia vovó, “não há bem que sempre dure e nem mal que nunca se acabe” e, em breve, conseguimos dar um salto na vida.

Ney se tornou colega do Augusto no SERPRO, enquanto eu entrava no BRB — Banco Regional de Brasília. Meu primeiro contracheque veio turbinado, cheio de verbas extras (ah, que tempo bom!). Não titubeei e, de pronto, adquiri um poderoso fusca vermelho, ano 1975. Desde então, raramente recorri a táxis. Não obstante, esse meio de transporte fez parte de importantes momentos da minha existência, como vou mostrar. A ORIGEM: Conhecido de meu avô, seu Silva era um taxista requisitado no Engenho de Dentro. Dono de um Oldsmobile Futuramic 88, 1950, transportou meus pais no dia do casamento, em 1954, e me trouxe da maternidade, em 1957. Feito repetido em 1966 e 1967, com o nascimento de minhas irmãs. Tudo ao volante do mesmo carro, aquele velho dinossauro preto. O táxi, portanto, está na gênese da família. O TAXISTA GOURMET I: Simplicidade e qualidade, duas virtudes fascinantes. Uma vez ouvi falar de um restaurante pertencente a portugueses, situado “atrás do Ministério da Guerra”, no Rio de Janeiro.

Apesar de despojado e sem quaisquer requintes, teria sido frequentado pelo idealizador e primeiro chefe do temido SNI — Serviço Nacional de Informações, general Golbery do Couto e Silva. Curioso, quis conhecer. Para tanto, tomei um táxi e me dirigi à região da Saúde, berço do samba, sempre festejado na Pedra do Sal. Mas havia muitos estabelecimentos no lugar. Qual deles? A solução foi o taxista, ora convertido em cicerone. Ele me apresentou a gastronomia local e indicou o restaurante procurado. Desfrutei, assim, de uma tarde regada a lagosta e maravilhosos doces da “Terrinha”, ovos moles de Aveiro e pastel de nata. Com perdão de nossos ancestrais lusitanos, que consideram o termo “Terrinha” pejorativo.

O TAXISTA GOURMET II: Sempre à cata da melhor culinária, estava eu na linda João Pessoa de trinta anos atrás, procurando odores e sabores da ancestral cozinha nordestina. Encontrei estabelecimentos incríveis, mas não aquilo que desejava. Assim, resolvi consultar o Oráculo de Manaíra, seu Nezinho, experiente taxista e profeta das divindades paraibanas. Foi, então, que os deuses nos mandaram para Santa Rita, onde, sob o toldo colorido de um bar, provei do inesquecível pirão de guaiamum da Dona Otília. Prato digno das potestades da terra onde “o Sol nasce mais cedo”.

> Continua na próxima edição

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

10 de março de 2025

O JAPONÊS DO ELEVADOR – PARTE II

Na edição passada, os leitores acompanharam relatos de histórias sobrenaturais que permearam minha infância no Rio de Janeiro e que foram desmitificadas.
Deixando a infância para trás, vim para Brasília, onde prestei concurso para o Banco de Brasília e acompanhei a história do japonês do elevador a qual me intriga até os dias atuais.
De volta aos anos 1970, quando cheguei no Planalto Central…
Aqui, conheci Alto Paraíso, cidade mais esotérica do Brasil; o Vale do Amanhecer, de Tia Neiva; e a Cidade Eclética, do Mestre Yokaanan, “a reencarnação de Elias e João Batista”. Isso sem falar de Inri Cristo, a reencarnação do próprio Jesus Cristo, que via Brasília como uma “Nova Jerusalém”.
Devaneios à parte, é inegável que a magia e o ocultismo sempre pairaram sobre a capital. Independente disso, entretanto, o desconhecido, historicamente, é um propulsor dos medos humanos, e nada mais amedrontador do que a escuridão. A incapacidade dos nossos olhos de descortinar cenários nas trevas mergulha a mente humana na ansiedade e faz disparar a imaginação. E foi numa Brasília pouco iluminada que desembarquei há 50 anos.

Esse ambiente proporcionava relatos perturbadores e até aparições high-tech, como discos voadores. Havia um amigo que, cansado de relatar manifestações ectoplasmáticas terrenas, partiu para o sobrenatural extragaláctico, com seguidas narrativas sobre OVNIS. Acredito mesmo que tenha passeado com os homenzinhos verdes, porque vivia no mundo da Lua.

As assombrações dos anos 1970, porém, não habitavam apenas o universo paralelo dos birutas. Na região onde hoje se localiza o Parque Olhos d’Água, na Asa Norte, havia sido aberta uma pista. Deserta e mal iluminada, passou a ser habitat dos seres da noite. Na época, com mais de vinte anos e calejado por tantas cantilenas, nem perdi tempo conferindo a novidade: qual o propósito de um espírito se postar na beira de uma rua escura? Para assustar os motoristas? Fazer BUUUU!? Bem, antes que as perguntas encontrassem respostas, a companhia de energia iluminou a região e expulsou as fadas e os sacis.
Vida que segue e, como qualquer mortal, precisava sobreviver, por isso, prestei concurso para o Banco Regional de Brasília, onde permaneci por 18 anos. Penso não ter sido um bom bancário, pois achava a profissão sem graça e modorrenta. Apesar de tudo, porém, o salário era ótimo, ao ponto de gerar sentimentos orgásmicos em algumas figuras. Não poucas vezes, assisti a imputações do tipo: você não tem amor pelo banco. Via de regra, tais acusações eram seguidas por acalorados debates, reunindo adoradores da entidade, desejosos por demonstrar seu tesão pela empresa e, naturalmente, ser agraciados com alguma prebenda.

Aquilo era muito excêntrico, pois não se ama banco. A relação profissional exige respeito, dedicação e comprometimento, nunca amor. Sentindo-me deslocado, pensei em trabalhar numa área técnica, distante dessas idiossincrasias, por isso pedi transferência para o Departamento de Crédito Industrial e Operações Especiais. Um novo trabalho, com outra equipe. De cara, amei os novos colegas. Muito profissionais, formavam um grupo eclético, composto de um fazendeiro, um músico, um cordelista e uma senhora, bem mais velha, que adorava apelidar as pessoas.

Ah, e havia o chefe. Esse era patrimônio. Se proclamava um caçador e até exibia fotos da pele de uma onça, supostamente abatida por ele. A história sobreviveu até conhecermos o vendedor de tapetes que tinha vendido a pele para ele. Um detalhe: o couro era artificial e a cabeça de onça não era empalhada, mas de borracha.

Além dessa turma diversificada, contávamos com a insuspeita Catarina, uma senhora bastante séria, espécie de reserva moral do grupo. O mês era dezembro de 1979, e o balanço se aproximava ameaçador. Catarina, escaldada pelo ano em que quase perdeu o Réveillon, não queria deixar pendências. Nem que tivesse de fazer extra diariamente, mas no dia trinta e um estaria livre.
Chegou o dia vinte e sete de dezembro de 1979, uma quinta-feira. Com o serviço todo em dia, Catarina resolveu esvaziar as gavetas. Dezoito horas, todos começaram a se retirar.
– Estamos indo. Vai ficar? — Perguntou Washington.
– Vai dormir no banco? — completou Joãozinho.
– Não se esqueça de apagar a luz quando sair. – Finalizou o chefe.
Ela havia decidido não arredar o pé. Vinte e oito, era sexta. Trinta e um seria segunda e ela não queria problema. Por volta das vinte e duas horas, com tudo em ordem e já bastante exausta, decidiu ir para casa. Guardou seus pertences, trancou as gavetas e desligou a máquina de escrever elétrica, Remington, última palavra em tecnologia. Apagou a luz e tomou o elevador. Para sua surpresa, porém, ele parou no nono, que se encontrava escuro e silencioso. No entanto, das trevas emergiu um japonês pálido que, educado, a cumprimentou e apertou o sexto andar. Ao chegar, tornou a se despedir, desembarcou e desapareceu na escuridão.


Pensativa, ficou a imaginar: até que horas trabalharia aquele colega? Que estranho, nem acendia as luzes. O elevador chegou ao térreo e ela resolveu trocar ideia com Vicente, porteiro desde a fundação do banco.
– Vicente, uma hora dessas, um japonês entrou no nono andar e desceu no sexto, sempre no escuro… muito educado. Não tem família? Ninguém? Coitado… para estar aqui até uma hora dessas!
– Hummmm! Como era esse japonês?
Enquanto Catarina fazia a descrição, Vicente arregalava os olhos e folheava um “livro”, com a relação de empregados e respectivas fotografias (lembrem-se: não havia computador naquela época!). Foi passando as páginas até que, de súbito, ela viu a foto do japonês!
– É ESSE AÍ!
– Tem certeza, Catarina?
– Absoluta! Nunca me enganaria com uma cara dessas. Quem é? Conhece? Jamais o vi por aqui.
– Esse é o Yasushiro, ou melhor, era. Yasushiro Sakamoto. Trabalhou no banco há mais ou menos dez anos.
– Uai, Vicente! TRABALHOU? Pediu demissão? E o que ele faz aqui, tanto tempo depois, uma hora dessas, circulando pelos andares?
– Catarina, deixa eu contar. Yasushiro era daqueles caras que amavam o banco. Chegava cedo e saía tarde. Nem sei se tinha família. Isso é coisa de japonês, né? Você já ouviu falar de um funcionário que morreu durante o expediente? Então, foi o Yasushiro! Ele circula aqui dentro, porque não temos como impedir: ELE ESTÁ MORTO!
Catarina, sempre tão equilibrada, teve uma crise de nervos, e a história se espalhou. Durante muito tempo, acabaram as horas extras. Todos queriam evitar o japonês que, nem depois de morto, saía do banco. Sua presença injetou adrenalina na empresa e, a cada anoitecer, o pessoal se acotovelava para pegar o elevador e sumir dali. Ninguém parecia disposto às fortes emoções que um encontro como esse prometia. De qualquer maneira, a aparição de Yasushiro deixou um legado positivo. Sem ninguém que fizesse serão, as famílias passaram a receber mais cedo seus pais e maridos, e, por conta disso, davam graças ao “JAPONÊS DO ELEVADOR”.

► Luiz Cesár Fiuza

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

7 de março de 2025

O JAPONÊS DO ELEVADOR – PARTE I

Nasci no Rio de Janeiro e, desde cedo, morei no Engenho de Dentro, bairro que herdou o nome de um engenho dos tempos coloniais. Era vizinho do Encantado, subúrbio assim denominado por causa da lenda de um carroceiro, desaparecido “como por encanto”, durante uma enchente, sob as águas do Rio Faria, então límpidas. Hoje, o pobre carroceiro seria dissolvido, não por encanto, mas pela poluição.
De minha casa, avistávamos a Pedra Sete, nome derivado do sete no alto do morro, desenhado por um raio, conforme os antigos. O “Morro da Pedra Sete” integra a Serra dos Pretos Forros, local de quilombos, lutas e resistência. Aquele conjunto geográfico e cultural, somado à migração de pessoas vindas de lugares remotos, deu origem a um território de lendas e superstições, mistérios estimulados pela precária iluminação das ruas, que formavam um mundo de sombras. Por ali viajava minha imaginação infantil, animada por histórias que teimaram em me acompanhar pela vida.

De certa feita, Dona Maria do Carmo, uma senhora que trabalhou para minha bisavó, contou-me a respeito de seres assustadores que habitavam sua terra, um lugar denominado Serraria, em Minas Gerais. Ocultas sob a pálida luz dos lampiões, viveriam criaturas como o lobisomem, a mula sem cabeça e fantasmas, claro. Também me falou sobre uma idosa, fulminada por um infarto, provocado por susto pregado pelo neto. O rapaz terminaria seus dias enlouquecido, atormentado pela vingativa presença da avó, que, diretamente do além, insistia em questionar seu gesto imprudente, além de soltar gargalhadas, como num filme de terror.

O medo do inexplicável, ou inexplicado, sempre povoou a mente humana, e não seria diferente comigo. Em minha rua, havia a “casa do borracheiro”. Nem sei se o dono era de fato borracheiro. Sei apenas que acumulava pilhas de pneus velhos no quintal, um imenso criadouro de mosquitos. Com sua morte, a casa acabou abandonada e, em ruínas, tornou-se o lar das nossas assombrações infantis. Só Deus conhecia meu temor de passar por ali à noite. Boatos horripilantes circulavam entre a garotada de oito, nove e dez anos.

Outro episódio inesquecível, sequer esperou as sombras da noite para acontecer. Era uma tarde quente de verão, quando presenciei uma correria doida: espavoridos, uns vinte meninos fugiam de dentro da obra abandonada, situada ao lado de minha casa. Alguns pulavam o muro, ganhavam a rua e continuavam correndo até perder de vista. Havia aqueles que, após a escalada, ainda olhavam para trás em busca do perseguidor invisível. Curioso, tentei me informar, mas ninguém parecia disposto a responder. A curiosidade só foi saciada quando, em desembestada carreira, meu amigo Carlinhos gritou: É o espírito do Dick!
Dick? Sim, o simpático vira-latas pertencente à velha Ana, antiga moradora do terreno, onde agora jaziam os restos de um edifício inacabado. Entregue à própria sorte, o pobre animal vivia pelas ruas e acabou atropelado.

Estupefato, comentei com minha mãe que, achando graça, revelou: “Olha, eu estava no quintal, bem na hora, e não teve espírito nenhum.” “Dona Socorro, mãe do seu amigo Everaldo, incomodada com a algazarra dos garotos, reclamou: ‘MENINOS!’” Eles ouviram, mas não identificaram a origem da voz, daí a confusão. Fiquei decepcionado! Então, as palavras daquela alma penada canina não passavam de uma reprimenda materna?

Voz? E desde quando cachorro fala? Como puderam imaginar que o Dick, tão contido em vida, pudesse voltar do túmulo tagarelando? E, como se não bastasse, com sotaque paraibano. Logo ele, um cachorro carioca. Passada a frustração, tornei-me cauteloso e passei a não acreditar em tudo que ouvia. De qualquer maneira, concederia o benefício da dúvida ao sobrenatural, até ser desmentido pelos fatos.
Minha descrença foi se acentuando com o passar do tempo, ainda mais depois que meu pai entrou em campo. Certa vez, contou-me sobre Carlos, um ancestral que viveu no norte fluminense pelos idos de 1890. Anticlerical e racionalista, havia resolvido desmascarar um fantasma que assustava os moradores daquela região canavieira. Em dias de tempestades, o espectro cantava: UUUUUUUU!!! Uma vez, ao escutar os uivos, Carlos subiu no cavalo e partiu ao encontro do etéreo cantor. Andou a noite toda, e nada. Cansado, apeou do cavalo e encostou-se numa árvore para descansar. De repente, aquele uivo novamente! Bem ao seu lado! Ele estava ali!

Puxando um facão, partiu para enfrentar o espectro, mas não o encontrou: aquele som provinha do buraco, que encimava um tronco seco. O tronco, transpassado pelo vento, fazia as vezes de tuba, produzindo aquele canto melancólico. Assim, a cidade de Campos se livrou do seu anhangá.
A infância se foi e, adolescente, vim morar em Brasília, onde as energias se misturavam. Capital profetizada por Dom Bosco, segundo estudiosos, guardaria incríveis semelhanças com Akhetaton, sede do poder egípcio, erguida há 3.600 anos por Akhenaton, marido da rainha Nefertiti. Ele também levantou uma cidade com asas, em referência ao Íbis, e um lago artificial. As duas cidades foram, igualmente, erguidas em apenas um quadriênio. Para muitos, o presidente brasileiro seria a reencarnação do monarca egípcio. Ah, e para completar as coincidências, ambos morreram dezesseis anos após a inauguração de suas urbes.

Na capital federal, as histórias de assombrações e fenômenos sobrenaturais me acompanharam, como a do Yasushiro Sakamoto, que deixarei para a próxima edição o relato e o desfecho desta crônica.

Continua na próxima edição

► Luiz Cesár Fiuza

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

14 de fevereiro de 2025

Gato feroz

Já faz um tempinho. Mil novecentos e noventa e dois, se não me engano. Na ocasião, eu era bancário e presidia a associação dos empregados da instituição onde trabalhava. Junto comigo, na diretoria administrativa, um grande amigo, o Olary Filho. Primogênito do velho Olary e pai de Olaryzinho, que, adulto, também batizou o filho como Olary. A família, certamente, achava esse nome lindo. Olary era meu substituto imediato.

A associação abrangia todos os empregados da empresa e não apenas aqueles lotados em Brasília. Sendo assim, havia demandas distintas: o pessoal do DF reivindicava shows, festas e a construção de equipamentos para o lazer. Já os de fora, principalmente das cidades pequenas, pleiteavam convênios com entidades locais. Já os sócios das cidades grandes, por conta das distâncias, não pediam convênios, mas patrocínios para as atividades que elegessem.

Certa vez, a turma de Belo Horizonte nos fez uma solicitação. Precisavam de recursos para a confraternização programada para o encerramento do ano, e queriam, além do dinheiro, a nossa presença. Após um ano de contribuições sem qualquer contrapartida, não havia como recusar. Assim, no dia cinco de dezembro, um sábado, embarcamos para a capital mineira, com previsão de retorno à noite, depois da festa.

Acontece, no entanto, que o voo atrasou muito e, ao chegarmos, não havia quem nos levasse até o local. O que fazer? Celulares eram raridades naquele tempo, um luxo tecnologicamente limitado e de pouco alcance, dada a escassa rede de antenas. Também não dispúnhamos do endereço, pois o combinado era o encontro no aeroporto.

Imaginando a tristeza de passar o dia naquele terminal (o retorno estava previsto para as vinte e três horas), e frustrados por termos viajado para nada, resolvemos jogar com a sorte. Saímos a perguntar sobre casas de festas na cidade, torcendo para achar uma agulha naquele palheiro gigante, a cidade de BH.

Num golpe de sorte, a gerente de uma locadora de veículos, situada perto da saída do aeroporto, comentou ser vizinha de um salão, alugado justamente para aquele dia. Seria muita coincidência, mas não havia nada a perder. Pegamos um táxi e, para nossa surpresa, acertamos o endereço! O encontro foi até tarde, e a comida estava deliciosa. Não deu para quem quis. As bebidas, servidas com fartura, pareciam não ter fim. Olary, fazendo jus à infância pobre em Braz de Pina, no Rio de Janeiro, não deixava passar nada. Comeu até estufar, bebeu até miar. Também não fiquei para trás e segui meu companheiro!

Por volta das vinte horas, um dos anfitriões se dispôs a nos deixar no longínquo aeroporto de Confins, poupando nossos preciosos e inflacionados Cruzeiros (moeda da época). Já no terminal, me dirigi a uma banca para comprar um exemplar do saudoso Jornal do Brasil, meu periódico favorito. Sentamos para aguardar o embarque e, enquanto lia as matérias, Olary, performático, encenava o clássico de João Bosco e Aldir Blanc, O Bêbado e a Equilibrista. No caso, era o bêbado equilibrista, pois mal se equilibrava nas pernas, de tão embriagado.

Nesse estado, ele embarcou. Acomodado perto da janela, comecei a ler um texto de Villas-Bôas Corrêa, mas logo adormeci. Olary, na poltrona de trás, também dormiu. O avião fazia escala em Goiânia, e foi só no aeroporto Santa Genoveva que despertei. Os passageiros, em sua grande maioria, dormiam. Mas a paz seria quebrada por um súbito e estridente falatório. Quem seria o temerário capaz de tamanha ousadia? Virei para trás e divisei um entusiasmado Olary, com a língua trôpega, fazendo galanteios para a aeromoça:

— Eu administro o melhor clube de Brasília! Quando você vai a Brasília, tem onde ficar?
— Eu fico num hotel, senhor. — Respondeu à envergonhada comissária de bordo.
— AH, ENTÃO AGORA VOCÊ VAI FICAR COMIGO!

Incrédulos, os passageiros rezavam para que a pobre moça se desvencilhasse daquele encosto, mas a tortura durou até um tripulante vir em seu socorro e, pelo sistema de som, solicitar que comparecesse à cabine do comandante. Apesar de agora solitário, meu amigo não se dava por vencido e, ávido por mais vexames, decidiu me envolver em seus planos sinistros. Por que não tornava a dormir? Assim que viu passar uma outra aeromoça…

— FIUZÃO, OLHA A BUNDA DAQUELA AEROMOÇA!
Horrorizado, enterrei a cara no jornal, mas o obstinado prosseguiu:
— FIUZÃO, TIRA A PORRA DESSE JORNAL DA CARA E OLHA A BUNDA DA AEROMOÇA!

Eu não sabia onde me esconder! Ainda bem que Deus teve dó de mim e, após essa convocação, ele tornou a dormir. Ao chegar, fomos diretamente para a associação, onde estavam nossos carros. Muito cansado, tomei o volante e rumei para casa. Olary, no entanto, recém-desperto daquele porre, parecia possuído por irrefreável euforia, e foi ver o que acontecia no salão social. Naquele momento, avistou Dona Alzira, a ex-namorada. Ele não resistiu e só chegou em casa com o Sol.

Vera, sua esposa, era uma loira bonita, ciumenta e desconfiada. Assim, não seria de estranhar que monitorasse os passos do marido e, naquela noite, havia ligado inúmeras vezes para saber sobre sua chegada. Numa das vezes, seu cônjuge estava cheio de amor, ao lado de Alzira. O porteiro atendeu e, numa inútil tentativa de proteger o amoroso cavalheiro, respondeu:

— Não, seu Olary ainda não chegou. Só seu Fiuza.
Foi a senha para o terremoto: os dois compraram passagens juntos, viajaram juntos e tinham previsão de retorno simultâneo. Aí tem! — Pensou Vera. Mas os problemas de Olary estavam apenas começando, pois a esposa soube da festa e de Alzira! Meu amigo havia atravessado o Rubicão e sua sorte estava lançada, Alea Jacta Est!

Na manhã seguinte, cheguei cedo. Certifiquei-me da presença do diretor de dia e, como de costume, escolhi uma cadeira de frente para o Lago Paranoá. Mas cadê o Olary? O tempo foi passando e nada. Num dado momento, o aero bêbado surgiu. De bermudas e chinelo, trajava um improvável agasalho, muito desconfortável naquele calor. Nem tive oportunidade de consultá-lo sobre o modelito, pois, carrancudo, sentou-se distante e mal deu bom dia.

Conhecedor de sua natureza, sabia das posturas defensivas que adotava quando fazia besteira e pretendia evitar questionamentos ou gozações. Mas o que aprontara dessa vez? Certamente tinha relação com o dia anterior, mas ele permanecia enigmático, tal qual a esfinge de Tebas. Decifra-me ou te devoro, diria ele. Mas não foi preciso tanto, pois, assim que foi ao banheiro, Zé Wilson, o popular Cururu, double de garçom e fofoqueiro, seguiu seus passos. Sem perceber a presença do olheiro, Olary arregaçou as mangas e abriu o agasalho para lavar as mãos e refrescar peito e pescoço, deixando à mostra a pele coberta de escoriações.

A cena, estarrecedora, revelava a memória de uma manhã sangrenta. Cheio de hematomas, meu soturno diretor estava destruído. Diante de tantas lesões, ao invés de chamar a ambulância, o curioso Cururu, assumindo seu lado batráquio, deixou o banheiro aos saltos e anunciou:

— Pessoal, o Olary foi atacado por uma onça! Risos!!! Está todo esfolado!
Constrangida, a suposta vítima do felino deixou o banheiro e, completamente vexada, balbuciou sua versão dos fatos.

— Sabe o que foi? Pois é, o gato da vizinha ficou preso no telhado. Fui buscá-lo e olha só o que ele me fez!

Gargalhando até faltar o ar, Cururu ainda mandou uma última pergunta: ERA GATO OU GATA??? Risos!!!
Trombudo, por conta da pergunta e das risadas, saiu sem responder e, até hoje, não identificamos a fera que o atacou. Gato ou gata?

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

7 de fevereiro de 2025

Gente que faz falta

Foto: reprodução da internet

Você já esteve com alguém cuja personalidade sugira alguma superioridade espiritual? Pois foi a minha sensação quando, há anos, conheci Arlindo, um daqueles seres humanos que só nascem de tempos em tempos. Capixaba, muito jovem, foi estudar no Rio de Janeiro, onde sua alma, faminta por conhecimentos, abriu a janela para o mundo e o fez contemplar as desigualdades e injustiças sociais do seu amado Pindorama.

O conterrâneo de Augusto Ruschi passou, então, a pesquisar ferramentas de combate às iníquas estruturas sociais que tanto o incomodavam. Foi quando conheceu o velho Partido Comunista, o “Partidão”, à época liderado por Luiz Carlos Prestes. A organização, abrigo de incontáveis experiências humanas e políticas, marcaria para sempre a trajetória daquele moço. Da longa militância, guardava muitas lembranças edificantes, e outras nem tanto.

Dentre as últimas, gostava de gracejar sobre o despreparo de seus camaradas, que, certa vez, confiaram-lhe um revólver, para que fizesse a segurança do secretário-geral. Expert em textos, canetas e máquinas de escrever, se quedou atônito, sem saber o que faria com aquilo. Pensou em interpelar os companheiros mais antigos, mas temia que o mandassem “enfiar o revólver no rabo”. Aliás, conforme confidenciou, aquilo seria o melhor que poderia fazer, pois jamais manuseara uma arma na vida.

Formado em Direito e Letras, tornou-se aquilo que Gramsci definia como um intelectual orgânico. Participava do movimento estudantil e sindical, ao tempo em que devorava clássicos de filosofia, economia ou literatura. Seu interesse variava de Platão a Cebolinha, de quem era admirador confesso.
Amava um boteco, “dinâmicos centros de convivência”, onde se perdia em querelas infindas sobre O Capital, de Karl Marx, ou a última partida do Esporte Clube Flamengo, do Piauí, seu time de coração. Para ele, as relações sociais eram o oxigênio da vida, pois punham à prova as convicções, instigavam mentes e ensinavam a viver. Solteirão e sem parentes na cidade, tinha em seus interlocutores, fossem eles ébrios, intelectuais ou modestos trabalhadores braçais, a sua família.
Possuía hábitos curiosos. Nas festas, por exemplo, chegava mais cedo. Como não tinha carro, ia de táxi, sempre acompanhado do fiel garrafão de pinga, de preferência piauiense. Quando o evento estava prestes a começar, se retirava. Nunca explicou esse costume, estranho para quem tanto prezava as relações humanas. Questionado sobre o porquê de não ter carro, respondia:
— Olha, antigamente eu não tinha dinheiro para beber e ter carro. Hoje tenho dinheiro para os dois. Como não dá para beber e dirigir, optei por beber.

Morava num pequeno apartamento, de dois quartos, onde cultivava outra de suas manias: não trancar a porta! “Viver fechado não se coaduna com minha maneira libertária e um tanto anarquista de ser”. O anseio por liberdade se sobrepunha ao temor da violência.

Todas as sextas-feiras, havia encontros em sua residência. Velhos amigos, alguns mais velhos do que amigos, acorriam para lá. A bebida, sempre liberada, garantia casa cheia e a sua felicidade, pois amava esses momentos. Certa vez, tive uma amostra de como eram tais reuniões. Precisei falar com ele e fui até lá. Abri a porta, destrancada como sempre, e me deparei com um nevoeiro, marca Souza Cruz, de onde, com muita dificuldade, o resgatei.

Solidário, diversas vezes converteu a residência num albergue para amigos desventurados. Foi o caso do maranhense José Raimundo, com quem havia trabalhado anos antes. Expulso de casa pela mulher, Raimundo se hospedou com Arlindo por quase quatro meses, até restabelecer sua situação econômica e psicológica.

Quando veio a aposentadoria, acreditava ter chegado o tempo do merecido descanso. Contava com 60 anos de uma vida agitada, muito trabalho e ativismo político. Chegara a hora de pendurar as chuteiras, a foice, o martelo, os microfones das assembleias e curtir a vida na beira da praia.

Vendeu o apartamento, fez as malas e se instalou em Guarapari, num apartamento com vista para o mar. A solidão, contudo, remetia o sonho praieiro para as calendas gregas. De que valiam as areias brancas, o Sol e o sal, sem as amizades para temperar a vida? O isolamento nunca foi bom companheiro. O castelo de relacionamentos humanos, por décadas edificado em Brasília, não era passível de reerguimento em terras capixabas. Faltaria tempo! A capital federal não era apenas um ponto no mapa, mas o filme de uma vida sem reprise. Assim, antes que o banzo se tornasse patologia, resolveu trilhar o caminho de volta.

Juntou algumas economias, vendeu o apartamento de Guarapari e adquiriu um amplo imóvel de quatro quartos na Asa Norte, endereço relativamente próximo do mundo para onde pretendia voltar. Não obstante, não conseguia se encantar com a nova residência. Que saudades do antigo cafofo, perto dos botequins… um dia, Arlindo deu uma de doido e foi ter com o proprietário do seu antigo imóvel para propor uma troca. O homem não acreditou: “Isso não existe! Ninguém troca um apartamento de 1 milhão por outro de 500 mil.” Mas era verdade. Arlindo estava disposto a trocar o luxo pela tapera do coração.

Assim, meio milhão mais pobre, Arlindo retornou feliz ao antigo endereço. Apertado, lotado de bêbados fumegantes e a porta destrancada: seu paraíso! Mas esse Jardim do Éden seria abalado. Numa das famosas sextas-feiras, o assíduo Carlos Alberto chegou muito triste. Os olhos, vermelhos, denunciavam o pranto e seu olhar era de partir corações.

— O que aconteceu, meu irmão?
— Amigos, vocês se lembram do Betinho, meu filho? Pois é, tem tempo que ele vinha sentindo umas dores… febre… fizemos um monte de exames. Hoje veio o resultado.
E caiu no choro. Um silêncio atordoante tomou conta do ambiente. Quando Carlos pareceu mais calmo, alguém perguntou:
— Qual o resultado?
— Câncer, meus amigos. Bastante avançado. Eles não falaram, mas percebi. Fase terminal! Chegaram a perguntar se eu não teria recursos para tratar o menino nos Estados Unidos. É triste perder um filho por falta de dinheiro. Mas o que posso fazer, se nem casa própria tenho? Meu filho vai morrer porque não tenho dinheiro…

Ele falava isso, enquanto seus olhos transbordavam de lágrimas. A sexta-feira terminou ali. Não havia clima para a habitual confraternização. Todos foram embora e Arlindo se recolheu, pensativo. Precisava socorrer o amigo. Mas como? Vivia ajudando os outros e nem margem possuía para novos empréstimos.
Pensou, pensou, pensou até encontrar uma solução. Levantou o dinheiro e procurou Carlos Alberto, a quem entregou um cheque (meio de pagamento muito utilizado na época).

— Pega, Carlos! Vá com seu filho para os Estados Unidos e o traga curado, com um sorriso no rosto!
Carlos não entendeu nada e, entre feliz e atordoado, apenas balbuciou:
— Arlindo, onde arranjou tanto dinheiro?
Torrentes de lágrimas formaram rios pela face sulcada daquele pai sofrido. Incapaz de encontrar palavras para agradecer, Carlos correu pela porta, em busca da vida do filho.

Arlindo tinha vendido o apartamento, único bem que possuía. Felizmente, pode contar com a boa vontade do novo proprietário, que concordou em alugar o imóvel para ele. Não teria de mudar a maneira de viver. Nem de morrer, pois foi ali que terminou seus dias, entre livros, velhos cachaceiros, fumaça, pinga e cerveja. Ainda deu tempo de rever Betinho, curado e sorridente, como desejava. Há cinco anos, ele se foi, aos 85 anos. Restou a saudade do intelectual inquieto, filósofo, pensador de botequim e ser humano iluminado. Veio sem nada e, sereno, partiu sem nada levar, a não ser o respeito e o amor de todos que tiveram o prazer de cruzar seu caminho.

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

24 de janeiro de 2025

A boa meretriz

Muito cedo, aprendi a diferença entre homem e macho. Homem é um substantivo que designa o indivíduo do sexo masculino, mas também encerra valores, como respeito, honra, empatia e solidariedade. Nesse sentido, traduz um ser em construção na sua caminhada evolutiva.

Já o macho ignora tais princípios e não se circunscreve à definição do sexo. Voraz, pretende carregar adjetivos no currículo. Incorpora estereótipos supremacistas, resolve tudo “na porrada”, “não leva desaforo para casa”, “dá um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair dela”. Com o ego inflado, escoiceia os mais fracos, despreza a dialética do crescimento e, senhor da razão, encarna um pântano moral.

Mas, deixando de lado tais conceituações, recuemos no tempo e mergulhemos na tradição católica, a fim de lembrar da morte de Jesus. Para quem não se lembra, Ele foi crucificado entre dois ladrões, cujos nomes, ignorados pelos Evangelhos, estão presentes no Evangelho de Nicodemos, considerado apócrifo pela Igreja. Eles seriam Dimas (Rakh, para os ortodoxos) e Gestas, o bom e o mau ladrão respectivamente.
Mas o que diferenciava os dois? O primeiro, Dimas, reconheceu os próprios pecados, além da inocência e divindade do seu companheiro de suplício. Diante disso, recebeu perdão do próprio Cristo que, em seus derradeiros momentos, prometeu: “Ainda hoje estarás comigo no Paraíso”. (Lucas 23:42-43). Enquanto isso, Gestas transbordava em blasfêmias. Graças a essas atitudes, passaram à posteridade como “bom” e “mau”.

Isso posto, comecemos a história. Vamos falar de uma jovem que, nem de longe, cometeu os pecados de Dimas, mas, como ele, viveu a marginalidade, superou e venceu. Filha da desigualdade e da fome, desde cedo abraçou uma existência miserável, carregada de estigmas, vícios, preconceitos e violência. Ainda adolescente, foi apresentada ao meretrício e, desde então, submeteu-se a proxenetas e abusadores. Aos 22 anos, após percorrer um longo caminho, empregou-se numa “clínica de massagem”, com serviços delivery, em Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Há mais de 30 anos, porém, um encontro banal mudou sua trajetória. João Luiz, empregado de uma construtora na capital federal, foi mandado para fazer estágio na matriz, situada no Rio de Janeiro. Dedicado, suava a camisa durante a semana, mas, quando chegava sexta-feira, o suor escorria nas quadras da Portela, Mangueira, Salgueiro ou Império. Foi assim que, arteiro e peralta, se apresentou num ensaio da vermelho e branco tijucana. Após fantástica noitada, resolveu se recolher. Já passava das 4h quando chegou à casa, o apartamento da empresa, situado na Praça Saenz Peña, Tijuca.

Foi quando bateu a solidão. João pegou o jornal, abriu os classificados e procurou: “acompanhantes”! Inexperiente no tema, leu e releu os anúncios, como quem escolhe pizza, até simpatizar com uma agência “24 horas”.

— Desculpe o horário, mas…
— Não tem de se desculpar, meu senhor! Estamos aqui para servi-lo.
— Bem, eu queria uma namorada.
— Namorada? Risos! Bem, veremos o que se pode fazer. Alguma preferência?
— Não. Acho que não.
— Então tá. Já tem uma “namorada” (risos) a caminho.

Por volta das 6h30, soou a campainha. Ao abrir a porta, João se deparou com uma jovem de 1,75 m, que atendia pelo sugestivo nome de Sálvia, planta com qualidades terapêuticas, ornamentais, culinárias e até espirituais. Ao convidá-la para entrar, já estabeleceu o roteiro do programa: “primeiro, dormir. Depois fazemos o resto.

Usufruir desse tipo de relação, no entanto, implica abstrair a condição humana da “mercadoria” e João não levava jeito para isso. Apesar de incontáveis casos amorosos, jamais coisificou pessoas, sendo rotineira a preservação da amizade com quem passou por sua vida. Nesse sentido, a conclusão do programa exauriu o contrato, mas não pôs fim ao encontro e, ao invés de pagar a moça e dispensá-la, convidou-a para almoçar… e depois jantar… e depois passar a noite. João era um homem, não um macho.

No dia seguinte, desfilando de mãos dadas, levou-a para tomar café e, em seguida, propôs:
— Hoje tem um churrasco na casa do meu primo, lá em Curicica. Vamos?

Sálvia pareceu gostar da ideia, mas relutou:
— Não sei. Tenho de ligar para a agência. Preciso inventar uma desculpa. E ainda tem o Roberto, sobrinho do governador, tenho medo dele. Ele me vigia e é muito violento.

Chegaram a Curicica e o pagode comeu solto. Daqui a pouco, João sentiu falta de Sálvia e foi atrás dela. Procura daqui e dali, até encontrar: descalça, com as calças arregaçadas e a blusa amarrada, brincando de “bandeirinha” com a meninada no meio da rua. João, que já não possuía aptidão para a arte de ignorar essências humanas, sensibilizou-se mais ainda:
— Meu Deus, é uma criança!

Já no final da tarde, João e Sálvia retornaram ao apartamento, onde dormiram juntos novamente. Pela manhã, muito apreensiva, a moça ligou para o “trabalho” e foi duramente repreendida por conta da ausência, também percebida por Roberto. Nervosa, anunciou a partida, apesar da felicidade daqueles momentos. Sem graça, disse que cobraria apenas um programa, pois não teria como justificar a saída no primeiro dia sem voltar com algum dinheiro.

Uma semana se passou e, em tempos de telefone fixo e orelhão, só voltaram a conversar uma única vez. Com os dias contados no Rio de Janeiro, João Luiz aproveitou para visitar o filho mais velho, Caio, de 4 anos, que morava com a mãe no Engenho Novo. Foram momentos muito agradáveis ao lado do menino. Tomaram sorvete, foram ao parquinho, visitaram o zoológico e até mesmo o Museu Nacional, que anos depois seria reduzido a cinzas pelo Poder Público.

Passado um tempo e, premida por dificuldades financeiras, a mãe de Caio, Marta, resolveu tentar a vida em Portugal, onde havia conseguido emprego. Assim, deixou o pequenino aos cuidados da avó e embarcou para o Velho Continente, onde passaria três anos. Um dia, o menino falou:
— Mãe, volta logo. Já estou esquecendo como você é.

Perturbada com o comentário, Marta decidiu retornar.
Passado algum tempo, comentou com João sobre um curioso episódio ocorrido em terras d’além-mar. Logo ao chegar a Portugal, conheceu uma brasileira que a convidou para dividir apartamento. As duas se davam muito bem e, de certa feita, começaram a falar a respeito de suas vidas amorosas. Ambas guardavam um grande amor do passado.

— O meu morava em Brasília.
— O meu também.
— O meu usava barba.
— Que coincidência. O meu também.
— Bem, João trabalhava numa construtora.
— Mais uma coincidência, pois o meu também se chamava João.
— Escuta aqui, Marta, você não está achando coincidência demais?
Você tem uma foto dele aí?
— Tenho. Espera um pouco.
— Meu Deus! É o mesmo! Nós viemos do Brasil, nos encontramos ao acaso e nosso grande amor é a mesma pessoa.

Estupefato com a história, João confirmou haver conhecido Sálvia e se espantou mais ainda por ser considerado o seu grande amor. Haviam passado um final de semana intenso, mas, na sua cabeça, despretensioso. Guardava boas lembranças, mas nada parecido com um “grande amor”.

Instigado pela notícia, começou a buscar informações e acabou por localizar Sálvia no interior de Minas Gerais. Aquele encontro de décadas antes havia produzido efeitos irreversíveis. Portugal, muito mais que redenção financeira, foi a redenção do ser humano que se encontrou consigo mesmo, a partir do relacionamento com João. Nunca mais aceitaria migalhas do mundo, dos cafetões e nem do vampiro bem-nascido, a quem tanto serviu. A felicidade estava dentro dela e, depois do diálogo com seu próprio eu, decidiu dedicar-se aos estudos e se tornar advogada. Homem? Só se a respeitasse, como fez João.

O tempo passou e, independente, teve dois filhos. Estoica, transferiu para eles o pequeno patrimônio acumulado com a advocacia e, livre de quaisquer amarras, foi viver a vida, dependendo apenas do próprio trabalho. Requisitada, advogava para diversas instituições e empresas, mas não esquecia das origens e, por isso, nunca deixou de patrocinar causas de carentes e esquecidos desse mundo.

O reencontro deu início a uma grande amizade. Sálvia guardava gratidão pelo despertar daquele namorico. João, por sua vez, mal disfarçava a quedinha pela amiga, agora uma senhora. Atualmente, a dupla só alardeia amizade, mas, como dizem, o futuro “a Deus pertence”. Ninguém pode prever o que virá. Muitos apostam que acabarão juntos. Quem sabe, porém, Sálvia prefira um lugar ao lado de Dimas, e ao lado do “bom ladrão”, se torne a “boa meretriz”.

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

24 de novembro de 2024

A volta do boêmio

Já faz tempo. Mil novecentos e setenta e sete, se não me falha a memória. Eu frequentava um bar na Asa Norte chamado “Zebrinha”, reduto de boêmios, músicos desconhecidos e intelectuais de botequim, prontos a solucionar os problemas da humanidade a cada gole. Além desses, uma rica fauna de criaturas alternativas também habitava o lugar, sempre sussurrando pensamentos “subversivos” naqueles “anos de chumbo”. Entre meus indefectíveis parceiros, figuras do porte de Paulo Cachaça, um bêbado culto; seu irmão, Jucachaça, um bêbado brigão; e a namorada, Izachaça, que, sem talentos, era somente bêbada. Havia, ainda, Tonho Barril, exímio violonista, intérprete de Cartola e Nelson Cavaquinho.

Nunca entendi o porquê do apelido, já que em nada lembrava um barril. Esquálido e magricelo, ostentava profundas olheiras e pele amarelada. Seus cabelos, entre encaracolados e pixaim, raramente cortados ou penteados, pareciam um ninho de pardal. Diziam que a alcunha não se devia ao formato do corpo, mas à grande capacidade de armazenar líquidos com alto teor etílico.

Apesar do aspecto, Tonho possuía elevada autoestima e se sentia um artista. De temperamento agitado, estava sempre atrás de novidades. Foi assim que se aproximou do Centro Nacional de Estudos Ufológicos (CENEU), criado e presidido pelo renomado ufólogo Moacyr de Mendonça Uchôa, o general Uchoa. Longe do brilho e conhecimento de Uchoa, Tonho não compreendia aqueles estudos, no entanto se deslumbrava com vídeos, depoimentos e trabalhos desenvolvidos pelo CENEU. Impressionado e autossugestionado, havia passado a ver ETs e discos voadores durante suas cambaleantes caminhadas pelas madrugadas. Vivíamos numa Brasília silenciosa, com muitos descampados, árvores e sombras, ambiente convidativo para os homenzinhos verdes e suas naves espaciais.

Mas a fase passou, e, cansado dos extraterrenos notívagos, resolveu mudar de vida. Uma gastrite o havia obrigado a parar de beber e, sóbrio, foi abandonado pelos viajantes espaciais. A doença, contudo, o levou à autocrítica. Tonho pouco se alimentava, não fazia exercícios e bebia muito, uma combinação suicida! Desejando relegar ao esquecimento esse passado, decidiu procurar trabalho e dar início a uma nova rotina. Com a ajuda de um amigo, arranjou emprego de motorista na embaixada belga.

Seus bons serviços cativaram o embaixador, ao ponto de autorizá-lo a ir para casa com a reluzente Mercedes preta da representação diplomática. Tudo ia bem, até que Tonho sucumbiu a tenebrosas tentações. Aproveitando uma viagem do chefe, foi visitar a “Casa das Primas”, em Santo Antônio do Descoberto, no entorno de Brasília.

Com o salário no bolso e pilotando a Mercedes-Benz, foi recebido como um rei! Mas o sucesso entre as senhoritas não bastava, e ele resolveu exibir sua destreza ao volante. Encheu o carro de fãs e começou um show: acelerava até o final da rua, puxava o freio de mão e lá ia um cavalo de pau, acompanhado de gritinhos histéricos das passageiras. A cena se repetiria inúmeras vezes, até que “Sua Majestade” perdeu o controle e capotou.

Quando deu falta do veículo, a embaixada acionou o Itamarati, que, por sua vez, pediu providências à Polícia Federal. A PF rapidamente localizou o veículo: todo destruído. Nem precisava dizer, mas o animado motorista, além de ser demitido, levou um processo nas costas. Daquele dia em diante, o “sinesíforo do amor” decidiu, “em definitivo”, repensar a vida.

“Estou cansado dessa sina de cachorro sem dono”. Quero respirar a natureza. “Eu quero uma casa no campo”. Assim, com ares de Zé Rodrix, juntou seus limitados recursos e, com suporte materno, tomou um ônibus até sua Shangri-lá, a cidadezinha goiana de Alexânia. Ao chegar, imediatamente deu início a seus projetos empresariais. Instalou-se num caminho de terra, entre chácaras e fazendas, montou um bar e começou a vida tão sonhada. Tendo o verde como companhia e os pássaros por inspiração, via o tempo passar, enquanto vendia pinga, cerveja, torresmo, linguiça e outros petiscos. Também ouvia “causos” e dedilhava o velho violão. Parecia confortável naquele cotidiano sonolento, mas uma guariba jamais se transforma em bicho-preguiça, por isso, começou a redirecionar sua vocação: quero ser caminhoneiro!

Vendeu o bar, mas o pouco dinheiro apurado não permitia voos ousados. Teria de se contentar com objetivos mais modestos, pois só conseguiu adquirir um jurássico caminhão Chevrolet C6500. Aquela relíquia, ainda que bem conservada, o limitava a pequenos fretes. Apesar dessa estrutura despretensiosa, os negócios começaram bem. Transportava mercadorias de um lugar para o outro, dentro da cidade ou nas imediações. Um dia, no entanto, apareceu sua grande oportunidade: fazer a mudança de um vizinho daquele antigo bar, onde tudo havia começado.

Entusiasmado, pois jamais havia recebido uma proposta como aquela, contratou dois ajudantes e, no dia marcado, chegou cedo à casa do cliente. Era muita tralha: armário azul, cadeira rosa, o par de chifres que enfeitava a porteira e muitas outras quinquilharias. As coisas foram amarradas na carroceria lotada e teve início a viagem. Com Tonho ao volante, o caminhão começou a escalada da pequena ladeira de terra em direção à BR 060. O velho Chevrolet, no entanto, não queria colaborar. Subia até a metade do aclive e voltava de ré. Tonho acelerava, o veículo subia mais um pouco… e tornava a descer.

— AGORA VAI! VOU TOMAR EMBALO E SUBIR COM FORÇA!

E lá se foi ladeira acima! Nada o deteria! O asfalto estava perto! De repente, quando tudo parecia ter dado certo, aquele guerreiro de tantas batalhas começou a dar sinais de fraqueza. Tonho acelerou ainda mais e tentou conter a descida com o freio. Acelera! Acelera! Acelera! — Gritavam os ajudantes. Mas a velha máquina não respondia, ante o peso do tempo e dos cacarecos que transportava.

E começou a descer. Faltava força ao motor. Faltava força nos freios. O dono da casa gritava! Os ajudantes gritavam! No entanto, a máquina pré-histórica não esboçava reação. Apavorado, Tonho se agarrava ao volante e pisava no freio, à espera de um milagre. Mas o milagre não veio, e lá se foi parede para o chão, telha para todo lado, vaso sanitário no escapamento, chuveiro na cabine, um ajudante montado na geladeira e o outro, com os chifres na cabeça. Resultado: da casa, perda total!

Um mês após o infortúnio, estávamos saboreando uma geladinha e, eis que surge: Tonho, novamente Barril, acompanhado do inseparável violão! Alexânia tinha ficado para trás e o caminhão serviu apenas para cobrir prejuízos. Mais uma vez sem emprego e sem dinheiro, o bom filho à casa tornou. De volta para a mãe, para o bar e para as más companhias (nós). Ele chegou, encheu o copo com a NOSSA cerveja e começou a dedilhar o violão, homenageando Nelson Gonçalves com “A VOLTA DO BOÊMIO”. Nada mais apropriado.

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

29 de novembro de 2024

foto: reprodução da internet

A vó cafetina

O que vem à mente quando nos lembramos de nossas avós? Carinho, ternura, proteção… não é mesmo? Quem não teve uma vovó que nos fizesse as vontades e escondesse nossas travessuras das implacáveis mamães, não sabe como isso é bom. A minha, por exemplo, esteve sempre presente, tanto nas peripécias quanto nos acidentes. Ah, os acidentes… sem eles, não haveria infância. A doce imagem daquela velhinha jamais sairá da lembrança. Acredito, mesmo, que, lá no Céu, deve dar boas risadas e se sentir vingada, ao me ver dormindo e roncando diante da TV. Eu a importunava sem dó, pelo mesmo motivo. Nunca me esqueci de como afrontava as leis da física e do silêncio, ao tombar o corpo, desdenhando do ponto de equilíbrio, sob tonitruante ronqueira. Quanta saudade!

Mas gostaria mesmo era de contar sobre outra avó, muito popular na Catalão (Goiás) de anos atrás. Creio que a idosa também despertasse ternas lembranças, nos muitos “netos” que conquistou ao largo de sua carreira, empresariando a mais antiga das profissões.

E como a conheci? Foi por acaso. De 1990 a 1995, fui dirigente de uma entidade voltada para a cultura e o lazer. Nesse período, mais precisamente em 1993, recebi a oferta de alguns terrenos às margens do Lago Azul, em Três Ranchos. Eles haviam sido entregues a um banco, como “dação em pagamento”, para quitar dívidas. O gerente, querendo fazer dinheiro, nos procurou, indagando se gostaríamos de comprá-los. A proposta nos pareceu vantajosa e decidimos conhecer o local.

Reunimos um grupo de diretores e fomos a Catalão, cidade próxima de Três Ranchos e onde se situava a agência bancária. A negociação exigia cautela e, a cada etapa, retornávamos a Brasília para consultas. Numa dessas estadas, o lado solteiro da força anoiteceu lascivo, ávido por orgia e desvario. A proprietária do hotel, senhora distinta, porém sensível aos impulsos de seus hóspedes, resolveu fornecer a bússola do pecado:
— Vão lá na Vó!
Vó? Uma “vó” saciaria os instintos daquela horda? Sem alternativas, o grupo decidiu seguir a dica da hoteleira e eu seria o motorista do bando. Chegamos à porta da anciã, onde dei dois toques na buzina. Parecia que já nos esperava. Lá veio ela: passinhos curtos e ligeiros, mãos trêmulas e a cabecinha toda branca. A famosa Vó!
Objetiva, aproximou-se da janela e disparou:
— Quem está aqui hoje é a Roberta, que é casada. A Francisca, que é funcionária pública, e a Elaine, que trabalha no comércio.
Em seguida, arrematou:
— Eu não gosto de vagabunda na minha casa. Aqui só tem moça de procedência. O dinheiro aperta, os marido viaja e elas sabe que eu sei fazê os rolo, por isso me procuram. Agora vou chamar elas (sic).
Ato contínuo, iniciou-se um inusitado desfile. Iluminadas pelos faróis do carro, uma a uma, as moças deixavam a casa e exibiam seus atributos, para, em seguida, realizar o caminho de volta.

Ao observar aquela velha cafetina, fiquei pensando: a vó prestava um serviço de utilidade pública, não apenas para os citadinos, mas para os viandantes também. Paralelamente, era uma filantropa. Alcoviteira de confiança, garantia complemento à renda daquelas senhoras, sob total sigilo. Naquele mundo, a indiscrição poderia custar uma vida.

Contaram-me que tinha bem mais de 80 anos. Será? Quantas histórias colecionava? Quantos segredos guardava? Apesar de ser uma figura marginal, acumulava amizades envergonhadas entre os bem-nascidos da cidade, que a ela recorriam em busca de alegrias inconfessáveis. Afinal, não foi a respeitável dona do hotel quem a recomendou? Contaram que, certa feita, um governador visitou o município e o entretenimento ficou por conta das moças “de procedência”. Conforme a lenda, após o encontro sexo-institucional, até verbas para a cidade foram liberadas.

Aquele arquivo vivo me encantava. Algumas horas de conversa teriam o condão de produzir instigantes e caudalosas memórias. Com mais de meio século no ramo, a vó sabia da intimidade de gerações inteiras. Conhecia homens e mulheres sem máscaras, as máculas dos imaculados e os segredos de quatro paredes, para ela, segredos de Polichinelo.

Enquanto elucubrava sobre o potencial literário e histórico da vó, meus amigos analisavam as “meninas”, mas pareciam decepcionados.
— Vamos embora, não gostamos de nenhuma!
Disposto a desvendar os mistérios daquela “Atena do Meretrício”, pedi um minuto aos amigos e solicitei audiência:
— Vó, amanhã retornaremos a Brasília. Quando voltarmos, a gente pode conversar?
— Uai! Podemos. Mas o que você quer conversar?
— Vó, eu sei que a senhora está nessa vida há anos e que sabe muito, não apenas desse trabalho, mas também a respeito dos que dele se valem.
— Escuta, eu não posso ficar parada, senão não ganho dinheiro.
— Eu pago um programa, topa?
Risos!!! Olha, eu não recebo uma proposta dessas há 60 anos. Risos!!!
— Topa?
— Topo. Mas com uma condição: não vou revelar o nome de ninguém. Fechado?
— Fechado!

Regressamos ao hotel e, no dia seguinte, colocamos o pé na estrada. Ansioso, antevia a quantidade de histórias que me aguardava. Quanto material poderia produzir!
Passados três meses, voltamos para fechar o negócio dos terrenos e, como de costume, nos hospedamos no mesmo hotel. Após o cartório, saí atrás da minha entrevista, mas não encontrei quem entrevistar. A casa estava vazia. Nem sinal da vó ou das suas “moças de procedência”. Perturbado pelo silêncio solitário do casarão sem alma, interrompido apenas pelo farfalhar das folhas, sentei-me no meio-fio e observei à volta, até ser abordado por um vizinho, já bastante idoso:
— O que está procurando, meu filho?
— Eu havia combinado com a Vó…
— Ô, meu filho, vai ter de ficar para outra. A Vó se foi. Também sinto falta dela. Era minha amiga. Frequentei muito sua casa.

Pois é, a histórica abadessa havia partido. Foi montar um cabaré no céu. Será que tem cabaré no céu? De minha parte, ficou a lembrança, o vácuo das histórias não contadas e a frustração por não ter lhe proporcionado seu primeiro programa, após 60 anos.

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

23 de novembro de 2024

A última do Jacaré

Sempre fui apaixonado pelo samba. Samba é cultura, é alegria, é nossa raiz. Como todos os gêneros, o samba tem aficionados, pessoas que gostam do ritmo, da poesia ou dos próprios sambistas, pagodeiros e partideiros. Os encontros e rodas de samba são ambientes animados, onde pontificam pessoas simples, músicos, poetas e – por que não? – personalidades folclóricas. Essas últimas parecem passarinhos, voam e cantam sem direção, enfeitando os ambientes com suas histórias alegres, a maioria envolvendo conquistas amorosas, muitas das quais simultâneas. Hoje falarei a respeito de uma dessas figuras, meu amigo Wilson, vulgo Jacaré.

Com apenas 28 anos, Jacaré era um negão todo bonito, corpo malhado e uma lábia de fazer inveja aos melhores malandros cariocas, embora fosse candango. Colecionador de amores, conheceu Marlene, uma loira bem mais velha, e ela logo se apaixonou. Baixinha e gordinha, em nada lembrava as habituais conquistas do galã, mas ele parecia estar gostando da experiência, até o dia em que não gostou mais. Cansado do romance, começou a se afastar, em busca de novas paisagens.

O instinto predador falava mais alto e nem havia rompido com a loira, quando conheceu Iolanda, uma jovem negra, de 26 anos. Acreditando na resiliência de Marlene diante da nova realidade, convidou seu novo amor para o pagode que acontecia na feira, todos os domingos. Sem nada saber, Iolanda até gostou da ideia.

Marlene, contudo, ainda ressentida com o abandono, teve o mesmo pensamento. Precisava desanuviar a cabeça e convidou quatro amigas, quarentonas como ela, para curtir o samba. Ao chegar, procuraram lugar perto dos músicos, de maneira a ouvir a música e vislumbrar o recinto.

— Olha ali o Jorge!
— Olha a Denise!
— Nossa, como o Rafael engordou!
O momento era de descontração. Mas, de repente…
— OLHA ALI O JACARÉ!

E o crocodiliano não vinha só. Segura pela mão, Iolanda o acompanhava! Impecável em seu tênis branco, bermuda branca e camisa vermelha, ele passeava orgulhoso diante da plateia, escoltado pela Cinderela negra. Marlene começou a ruminar seu “Domingo no Parque” e a cerveja gelou seu coração! O desfile da infidelidade, temperado por um afetuoso Jacaré se desmanchando em mesuras, compunha um cenário insuportável, ainda mais por Iolanda ser bem mais jovem e apetrechada que ela. Estremecida pelo pior dos pecados capitais, a ira, Marlene bradou:

— Que palhaçada é essa, Wilson Jacaré???
— Ei! Sai fora! Não tenho mais nada com você! — respondeu ele.
A nova namorada, sem entender, perguntou:
— Wilson, o que está acontecendo?
— Nada, meu amor, já vai resolver.
Esse “meu amor” doeu na alma da desafortunada Marlene, que não conteve a língua.
— A conversa não é contigo, “franguinha”!
— “Franguinha”? E tu, “galinha velha”?

O edificante colóquio criou um ambiente de “Velho Oeste” entre as epitetadas galináceas, que resolveram plagiar os “rapazes do gatilho” e partir para as vias de fato. Marlene queria um couro de jacaré como troféu! Para tanto, desferia cruzados, jabs e hooks, tentando reeditar os clássicos do boxe. Mas ela não era boxer! Iolanda, por sua vez, seguia a tradição de Besouro Mangangá, mestres Bimba e Pastinha, esbanjava destreza e se esquivava dos golpes, revidando com rasteiras, rabos de arraia e martelos rodados.

A loira mal parava em pé, mas se levantava a cada queda, sem dar sinal de fadiga ou desejo de interromper o combate.
Jacaré observava atônito. De repente, uma luz: como “macho alfa”, ia colocar ordem no harém.

— PODEM PARAR! CHEGA DE BARRACO!
Na sequência, puxou Iolanda pelo braço e empurrou Marlene!
— MARLENE, VOLTA PARA A SUA MESA! IOLANDA, VENHA COMIGO!
Wilson, contudo, lembrando Garrincha, esqueceu de combinar com os russos e a estratégia não foi feliz. Mais enfurecida ainda, a ex indagou:
— AH, TÁ PROTEGENDO ELA, SEU SAFADO????!!!!
Após o questionamento, Marlene clamou pedindo socorro às amigas, que, imediatamente, vieram em seu socorro. Vendo a legião sanguinária vindo em sua direção, Jacaré e Iolanda meteram o pé, seguidos pela turba furiosa.
— VENHAM CÁ, SEM-VERGONHAS!

Assustado, o casal corria sem parar, mas não conseguia despistar aquelas celeradas. De repente, um portão aberto! Seria a salvação! Invadiram a residência e se trancaram. Sem entender nada e avesso a refugiados, o proprietário, policial aposentado, pediu socorro a uma viatura que passava. Enquanto isso, entre blasfêmias e maldições, o bando ameaçava tomar de assalto a moradia, para queimar o casal em praça pública.

Os policiais acudiram e, sob vaias, resgataram um assustado jacaré, a essa altura convertido em lagartixa, ao lado de Iolanda, a consorte sem sorte, que jurou nunca mais ver Jacaré, nem mesmo sob forma de bolsa ou sapato.

A última vez que o vi, estava em Caldas Novas. Imaginei que havia se exilado, mas não. Estava em lua de mel. Conversamos bastante e ele me confidenciou: mudei de vida. Tô quietinho. Casei com a Rosângela. Você conhece a Rosângela? A ex-mulher do Toninho?

Sim, eu sabia quem era Rosângela, a neurastênica que quase mandou o ex-marido para o Campo da Esperança. Tem gente que gosta de viver perigosamente, pensei. Jacaré e Toninho eram amigos, será que continuavam? Fora isso, o fim do casamento entre Toninho e Rosângela havia sido precedido de cenas que oscilavam entre a ficção científica e o terror, dois gêneros consubstanciados em cenários extremos, com direito a panelas aéreas e tentativas de água quente na orelha. Por que Jacaré imaginava ter melhor sorte? Não seria arriscado? Mas o incauto “estava amando” e queria tentar a sorte. Certa vez ouvi dizer que Deus nos dá sinais e nós não sabemos interpretar…

Um dia desses, encontrei-me com ele. Fiquei feliz! Está vivo… que o bom Deus o proteja das panelas voadoras e da água fervente nas orelhas. Amém!

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

22 de novembro de 2024

foto: reprodução da internet

Baterista Olímpico

Sempre gostei de esportes. Outro dia, vendo uma retrospectiva das olimpíadas, deparei-me com algumas cenas edificantes, outras heroicas, e muitos exemplos de superação. Impossível esquecer Usain Bolt, velocista jamaicano, ou Jesse Owens, ganhador de quatro ouros nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Jesse, com suas vitórias, expulsou o tirano Adolf Hittler do estádio, pois o chefão do III Reich não suportou ver triunfar aquele atleta negro, que colocava em xeque a “superioridade ariana”. Também não passou despercebida a figura de Emil Zátopeck, a “Locomotiva de Praga” que, em 1952, tornou-se o único homem a vencer os 5.000 e 10.000 metros, além da maratona, numa mesma olimpíada.

Essas imagens evocaram alguns prodígios esportivos que tive a oportunidade de conhecer. Conversei com Marinho Chagas, imortalizado no Botafogo e que ancançou a Seleção Brasileira. “Brinquei” de boxe (apenas brinquei!), com Miguel de Oliveira – pois não seria louco de me arriscar num combate real. Tive até contato com Henrique Mecking, o Mequinho, maior enxadrista da história do Brasil, consagrado com o título de Grande Mestre Internacional.

Além dessas estrelas, lidei com pessoas comuns que, premidas pelas circunstâncias, protagonizaram grandes feitos. Foi o caso de uma idosa, que, vendo romper os cavaletes de sustentação do carro consertado pelo filho, escorou o veículo com as próprias costas, salvando o rapaz. De outra feita, presenciei Zequinha, um amigo de infância, esquecer-se da obesidade e letargia que o marcavam, para saltar uma cerca sem colocar as mãos. Ele fugia dos chifres de Mimoso, um bode rabugento que pastava nas imediações.

Nenhum desses, contudo, se aproximou de Pedrinho Calcão, conhecido baterista de Brasília que, numa noite, incorporou Hermes, criou asas nos pés e venceu uma corrida de obstáculos. Não o imaginávamos capaz de tanto, pois seu físico, nada atlético, não indicava tamanha capacidade. Vivíamos os anos oitenta e Pedrinho dividia casa com o inseparável e, também baterista, Jaime Barriga. A residência era palco de inesquecíveis festanças, reunindo os dois varões e suas convidadas. Um desses eventos foi a memorável “noite do balão”. Com o ambiente inundado por clássicos da música brega (apelidada de “romântica”), e as luzes apagadas, os casais dançavam “apaixonados”. Jaime e seu par ensaiavam alguns passos para trás, em direção à porta do quarto. Deu um passo, e mais outro. O leito se aproximava. E lá vinha outro passo… (segundo ele, “passo de ganso”). Até que, acreditando estar perto do ninho de amor, deu um balão na moça, mirando o colchão. Ouviu-se, então, um estrondo que lembrava uma jaca se estatelando”.

Ele havia errado o alvo”
– JAIME, FILHO DA P#@!
– Desculpa, me amorzinho, deixa eu te ajudar!
– VAI AJUDAR SUA MÃE, MISERÁVEL!

Tamanho erro balístico não teria perdão. A porta se abriu bruscamente, dando passagem a um vulto rastejante, que se esgueirou, entre dores e gemidos, para nunca mais voltar. Aquele sarau não teve desfecho feliz.

Feito esse comentário, apenas para situar o coadjuvante, voltemos ao artista principal. Pedrinho se apresentava em diversos palcos, dentre eles o “Fundo do Mar”, um muquifo feioso que, paradoxalmente, reunia o melhor do samba. Guardado por lonas verdes, a casa era ornamentada com conchas e bugigangas marítimas grudadas nas paredes, numa alusão a “fundo do mar”. Um conjunto de gosto duvidoso e estética trash.

As apresentações aconteciam toda sexta-feira, por volta das 21 horas. Um dia, para garantir mesa, resolvi chegar bem cedo. Pedi uma cerveja e acompanhei o acesso do público. Veio a eterna passagem de som e, pouco tempo depois os primeiros acordes. Em seguida, Pedrinho irrompeu no palco. Todo de branco, mais cheiroso que filho de barbeiro e com o indefectível olhar de gavião malvado!
Repimpou-se no trono (banquinho), tomou fôlego e deu início aos preparativos para brilhar, mais uma vez.

O pagode começou. As luzes foram reduzidas e, sob penumbra, Pedrinho arremeteu:
“Agora eu sei
Que o amor que você prometeu
Não foi igual ao que você ME DEU
Era mentira o que você jurou…”

Sua voz remetia ao Flautista de Hamelin, mas, ao invés de ratos, encantava as mulheres. E elas foram chegando. A primeira foi Mariza, a quem havia jurado amor eterno. Logo chegou Celinha, acompanhada dos irmãos, aos quais pretendia apresentar ao novo namorado, aquele charmoso baterista. Vieram Lúcia, Ângela, Cida e toda uma legião de senhoritas, a quem Pedrinho prometera amor e fidelidade, na alegria ou na dor.

E era dor o que antevia. As senhoras e moçoilas desfilavam triunfantes pelo exótico “Salão das Conchinhas”, enquanto Pedrinho suava frio e via a pressão subir. Transpirando, sentia a aproximação do intervalo, quando todas correriam para os seus braços generosos. A ideia da morte violenta tomava forma.

Acossado pelo resultado de seu amor indômito, apelou ao Criador: Senhor, mostre-me um caminho! E Deus atendeu às suas preces. Misericordioso, teve pena do incorrigível pecador, e trouxe Jaime Barriga até o estabelecimento.

Ei! Psiu! Jaime. Ô JAIME!
Ao ouvi-lo, o amigo correu por trás do palco e escutou o drama:
– Jaime, tem um monte de mulher aí, e eu tô com todas. Na hora do intervalo, vou morrer! Procura um orelhão e chama o táxi do Sandoval, ele está trabalhando essa noite! Pede para ele estacionar aqui, bem atrás do bar.

Jaime obedeceu e rapidamente trouxe a notícia:
– Pedrinho, Sandoval tá aí.
– Obrigado! Agora senta aqui. O Maurício (vocalista e dono da banda) nem vai notar.
– Mas Pedrinho, eu não vim trabalhar! Vim só curtir o pagode, e mal conheço seus amigos do grupo.
– Jaime, você não entendeu! Isso é caso de vida ou morte. MINHA MORTE!
Enquanto Jaime, contrariado, tomava o lugar, Pedrinho empreendeu fuga: e, com habilidade olímpica, saltou a janela, indo se aninhar no banco de trás.
– Sandoval, corre daqui antes que seja tarde!

Posteriormente, Pedrinho recebeu a conta: garrafas e copos quebrados, mesas caídas e uma bandeja de caranguejos aéreos, espalhados por toda parte. A despesa foi grande, mas a vida era uma só! Enquanto essa trama se desenrolava, Maurício soltava a voz, sem nada perceber. Até que virou para trás e se assustou. Em vez de Pedrinho, era Jaime quem segurava as baquetas.

– Boa noite, seu Maurício! Muito prazer. “O show não pode parar”!
A mulherada, por sua vez, estava desorientada: o que teria acontecido com o sultão Pedrinho? Longe dali, o Baterista-ternura estava refugiado no sacrossanto ambiente de seu lar. Dedicou aquele fim de noite a refletir sobre os perigos do amor. Havia escapado dessa vez. Como seria a próxima? Enquanto isso, a lenda se espalhou no mundo do samba e, até hoje, os mais velhos recordam a saga do “Baterista Olímpico”!

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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CONTOS QUE TE CONTO

9 de dezembro de 2024

DIA DOS NAMORADOS

Maria da Silva era uma moça bem-comportada. Não obstante, tinha namorado quando começou a relacionar-se comigo. Creio que fosse bem-comportada com ambos. Baiana, fã de Jorge Amado, talvez desejasse vivenciar Dona Flor. Só não sei se me caberia o papel de Vadinho ou Teodoro.

O romance, contudo, deixaria a literatura bem no dia do seu aniversário. Sem saber de nada, comprei roupa nova, me arrumei todo e, recordando Fundo de Quintal, pus um “pisante invocado”. Desse jeito, belo e faceiro, me mandei para a festa. Lá chegando, percebi a presença de um misterioso caminhão na porta. Mas nem tive tempo de investigar, pois uma operação de guerra estava em curso, com o objetivo de me sequestrar e impedir o flagrante. Envergonhada, a irmã mais nova deu uma de cigana e fez a revelação: aquele era o outro! Ou será que o outro era eu? A título de consolo, lembrou tratar-se de “chifre trocado”. Adiantou muito…

Naturalmente aborrecido, voltei para casa, assisti à televisão e adormeci. No dia seguinte, Maria me procurou:
— Olha, foi tudo um terrível engano. Eu havia terminado com ele, mas o cara não entendeu e, aproveitando que carregaria o caminhão em Brasília, resolveu fazer uma surpresa. Ontem, contudo, deixei bem clara a situação e “fiquei livre, leve e solta” para você. Meio ressabiado, resolvi arriscar e, confesso, não me arrependi, pois ela disse a verdade e hoje, apesar de não namorarmos, continuamos amigos.

Maria não guardava maiores semelhanças com a imagem que fazemos do povo da “Boa Terra”. Tinha pele clara, falava como uma metralhadora e, sempre apressada, fazia tudo correndo. Não fosse a habilidade na cozinha, em nada lembraria as tradicionais quituteiras baianas.

Viajamos algumas vezes e, muito tímida, não gostava de ser fotografada. Nas raras vezes que permitia, postava-se como um dois de paus, com a face impávida, parecendo haver passado por uma overdose de Botox. Na hora das fotos, eu tentava aliviar aquele semblante de zumbi. Enchia uma das mãos com pedrinhas e, com a outra, segurava a câmera. Em seguida, arremessava os pedriscos e documentava seus sorrisos nervosos e expressões assustadas. Apesar de nada sensual, ao menos parecia viva.

No início do relacionamento, quis fazer uma média com ela. Convidei-a para conhecer minha casa, ouvir música e jantar. Doido para ser gentil, assumi o fogão. Queria conquistá-la pelo estômago. Horas depois, minhas iguarias foram servidas. Pareciam deliciosas, porque ela comeu tudo. Aliás, ela comia tudo! Não me esqueço do dia em que comeu quase dois quilos num self service. Uma amiga garantia que era lombriga ou, como falava, tinha uma moreia na barriga.

O ano era 2004, e acreditava haver começado aquela história com o pé direito, fato confirmado ao longo do tempo, quando chegamos a cogitar casamento. Nem sei por que não aconteceu, mas Maria da Silva deixaria marcas inesquecíveis em minha vida, como veremos a seguir.

Quatro anos depois, lá estávamos de novo, dessa vez vivendo o Dia dos Namorados. Havíamos chegado da Chapada dos Veadeiros, lugar cercado por misticismo e a fama de receber viajantes de outros mundos. Estávamos, assim, carregados da energia das cachoeiras e dos cristais de Alto Paraíso, momento mágico para reafirmar meus sentimentos. Daí, pensei: foi na cozinha que ganhei seu coração, por isso vou proporcionar-lhe uma nova rodada dos meus manjares.

Levei-a para casa e, romântico, propus:
— Amor, gostaria de cozinhar para você novamente, como da primeira vez.
Ela me fitou com olhar penalizado, para, em seguida, falar:
— Como da primeira vez? Hum! Você ainda se lembra daquela comida que fez para mim?
— Claro, meu amor! Quer que eu repita?
— Bem, não propriamente. A gente estava começando, né? Então, nem comentei nada. Mas… deixa eu falar… AQUILO ESTAVA MUITO RUIM! Comi porque havia acabado de te conhecer. Vamos fazer assim: eu cozinho e, depois, você lava. Tudo bem?

Quanta humilhação! Eu, que me sentia um autêntico chef, rebaixado a lavador de pratos! O trauma foi tamanho, que nunca mais me aproximei das panelas, abdicando até mesmo de cozinhar um ovo. Nem quando a Covid se abateu sobre os meus fornecedores de marmita, fiz as pazes com o fogão.
Outro dia, encontrei-me com ela na rua. Falei sobre traumas e transtornos emocionais que carregava na alma, todos deixados por suas duras e insensíveis palavras. Impiedosa, quase morreu de rir. Esperei que cessasse o gargalhar zombeteiro, para responsabilizá-la de o mundo contar com um cozinheiro a menos. No dia em que condenou meus quitutes e acepipes, lembrei Nero: que grande cozinheiro morre comigo!

Com o cronista Luiz Cesár Fiuza
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