POLÍTICA

Da festa desmontada à fuga de Flávio: as últimas 48 horas após a derrota para Lula

28 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

Após acompanhar apuração com churrasco em Brasília, candidato derrotado visitou o pai, reuniu-se com aliados e advogados e deixou de responder mensagens

Flávio Bolsonaro – Foto Lula Marques/ Agência Brasil

Entre a derrota para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na noite de domingo, e os relatos da fuga para os Estados Unidos, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou por uma sequência de reuniões políticas, conversas com advogados e foi intimado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Em menos de 48 horas, o senador deixou de lado os planos de liderar a oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva, interrompeu o contato com parte de seus aliados e descumpriu uma determinação do ministro Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes à Polícia Federal.

A sucessão de acontecimentos surpreendeu até pessoas próximas ao senador, que estiveram com ele nas horas anteriores à possível viagem. Na segunda-feira, Flávio visitou o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e foi intimado pela PF ao deixar o condomínio onde ele cumpre prisão domiciliar. Depois, encontrou-se com aliados e integrantes de sua defesa, que esperavam receber os passaportes na manhã seguinte para cumprir a ordem judicial.

Na terça-feira, porém, o senador deixou de responder às mensagens e não compareceu ao encontro previsto com os advogados. O prazo estabelecido por Moraes terminou às 11h sem que os documentos fossem entregues. Ao longo do dia, aliados relataram ao GLOBO ter recebido informações de que Flávio estaria a caminho de Miami, nos Estados Unidos, com previsão de chegada por volta das 16h30. A notícia levou a cúpula do PL a discutir os possíveis desdobramentos políticos e jurídicos do episódio.

Veja a linha do tempo das últimas 48 horas de Flávio Bolsonaro:

Domingo, 25 de outubro

Durante a apuração — Flávio acompanha a contagem dos votos em uma casa no Lago Sul, em Brasília, ao lado de familiares, amigos e integrantes da campanha. O ambiente é inicialmente de festa, com churrasco, música e gritos de comemoração quando o senador ultrapassa Lula na apuração.

22h40 — Após a confirmação da derrota para Lula, Flávio faz seu primeiro pronunciamento. Sem reconhecer expressamente a vitória do adversário, anuncia a intenção de contestar o resultado da eleição, em meio a questionamentos sobre uma decisão do ministro Cristiano Zanin, do STF, relacionada à votação. A campanha acabou optando por pedir a cassação da chapa de Lula e Geraldo Alckmin, em vez de tentar anular o pleito.

Após o pronunciamento — Flávio retornou para casa, em Brasília, com a intenção de descansar e permanecer recluso após o desgaste da campanha.

Perto da meia-noite — A estrutura montada na Esplanada dos Ministérios para celebrar uma eventual vitória do senador já havia sido praticamente desmontada. Restavam apenas banheiros químicos nas proximidades do Museu Nacional.

Ainda no domingo — Segundo interlocutores, a possibilidade de Flávio deixar o Brasil chegou a ser discutida, mas foi inicialmente rejeitada pelo senador. Naquele momento, a ideia seria que apenas sua mulher, Fernanda Bolsonaro, e as filhas do casal viajassem por razões de segurança.

Segunda-feira, 26 de outubro

11h — Flávio visitou o pai, Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília.

Na saída da visita o senador foi abordado por agentes da Polícia Federal e intimado a cumprir uma determinação de Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes. A medida foi tomada no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de irregularidades financeiras envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz.

Durante a tarde, até as 16h — Flávio participa de reuniões com aliados, entre eles o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o marqueteiro Duda Lima, o coordenador da campanha, Rogério Marinho, e o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP). Também conversa com integrantes de sua defesa, que orientam a entrega dos passaportes na manhã seguinte, dentro do prazo estabelecido pelo STF.

16h40 – Flávio grava vídeo em que ele agradeceu seus eleitores, disse que nunca havia pensado em sair do Brasil, que iria entregar seus passaportes e assumiria a liderança da oposição no Brasil. Nada disso ocorreu.

17h20 — O advogado Frederick Wassef, próximo à família Bolsonaro, chega à residência do senador, em Brasília.

18h — Wassef deixa o imóvel após permanecer cerca de 40 minutos no local.

19h57 — Fernanda Bolsonaro deixa o condomínio onde mora com o senador, acompanhada por um comboio de veículos. Flávio não é visto nos automóveis naquele momento.

Terça-feira, 27 de outubro

8h — Flávio conversou com Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha presidencial, mas não teria mencionado qualquer plano de deixar o país. Pouco antes, um aliado próximo da família havia conversado com Fernanda Bolsonaro. Ela afirmou estar ao lado do marido e deu a entender que ambos permaneciam em casa, em Brasília.

Até aproximadamente 8h50 — Mensagens enviadas ao WhatsApp de Flávio ainda aparecem como entregues, identificadas pelos dois sinais de confirmação do aplicativo.

Após as 8h50 — Novas mensagens deixam de apresentar confirmação de entrega. Aliados tentam telefonar para o senador, mas não conseguem contato. A ausência de respostas aumenta a preocupação sobre seu paradeiro.

Os policiais legislativos responsáveis pela escolta do senador também não conseguiram contato com ele. A equipe havia deixado Flávio em casa no fim da tarde de segunda-feira, mas não recebeu a agenda do dia seguinte, como costuma ocorrer. Os agentes permanecem em Brasília e não acompanham a possível viagem.

11h — Terminou o prazo estabelecido por Alexandre de Moraes para a entrega dos passaportes à Polícia Federal. Flávio não apresenta os documentos. Posteriormente, a PF cancelou os passaportes e decidiu comunicar o descumprimento ao STF.

Ao longo do dia — Começam a circular entre integrantes do PL e pessoas próximas à família Bolsonaro informações de que Flávio teria embarcado para os Estados Unidos. Parte dos aliados afirma ter sido surpreendida e relata dificuldades para falar com o senador.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, reuniu parlamentares na sede do partido, em Brasília, para discutir a crise. Rogério Marinho, o senador Efraim Filho e o deputado Hélio Lopes (PL-RJ) participam do encontro, que também aborda as articulações para a presidência do Senado em 2027. A direção da legenda demonstrou preocupação com os efeitos do episódio sobre a imagem do partido.

Depois do encontro, Marinho disse que esperava papel de “liderança” de Flávio e lamentou possível saída do país.

— Até compreendo caso Flávio tenha saído do Brasil. Não digo que concordo porque não fui consultado (…) Fiquei surpreso porque ontem conversamos sobre a necessidade de que Flávio assumisse esse papel de liderança da oposição. Temos um governo que fez mal ao país e precisamos ficar vigilantes — afirmou.

BS20261028030000.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/10/28/da-festa-desmontada-a-fuga-de-flavio-as-ultimas-48-horas-apos-a-derrota-para-lula.ghtml

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