Daniel Vorcaro nega que tenha ordenado atos de violência em depoimento à PF sobre atuação da ‘Turma’
1 de outubro, 2026
| Por: Agência O Globo
Com o interrogatório dos principais alvos, inquérito chega à fase final; pai do banqueiro também falou aos investigadores hoje
Daniel Vorcaro, do Banco Master – Reprodução
O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, negou nesta quarta-feira que tenha ordenado atos de violência em depoimento à Polícia Federal no âmbito do inquérito sobre “A Turma”, grupo que, segundo os investigadores, agia como uma milícia privada a serviço do banqueiro. No interrogatório, Vorcaro afirmou que não houve nenhuma vítima do grupo e classificou como “desabafo” as conversas nas quais falou sobre “ir para cima” de desafetos.
“O investigado jamais praticou, determinou ou se envolveu em qualquer ato de violência, intimidação, perseguição ou ameaça contra quem quer que seja, fato que é reconhecido nos autos pelos próprios investigadores e pelas testemunhas já ouvidas”, diz nota divulgada pela defesa de Vorcaro, representada pelos advogados Sergio Leonardo, Daniel Bialski e Engels Muniz.
“Ressalta-se que, após 8 meses de investigações, não há nenhuma vítima dos supostos fatos citados na portaria inaugural do Inquérito Policial”, acrescentou o texto.
Além de Vorcaro, também prestou depoimento hoje o empresário Henrique Vorcaro, pai do banqueiro – ambos estão presos e depuseram à PF por videoconferência. Vorcaro falou do 19º Batalhão da Polícia Militar, conhecido como “Papudinha”, em Brasília; e Henrique do complexo prisional Nelson Hungria, em Contagem (MG).
Segundo as investigações, o pai de Vorcaro seria o operador financeiro do grupo A” Turma”, que era coordenado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, apelidado de “Sicário”. Ele também foi preso por ordem do Supremo Tribunal Federal e tentou se matar na carceragem da PF, em Minas Gerais. Dias depois, ele morreu no hospital em decorrência do ato.
Com o depoimento dos principais alvos, o inquérito sobre “A Turma” chega na reta final. Há uma expectativa de que a PF conclua as investigações em outubro e entregue ao STF a lista de indiciados, que deve incluir Daniel e Henrique Vorcaro.
A investigação da Polícia Federal também identificou um núcleo chamado “Os Meninos”, que seria o braço tecnológico do grupo, suspeito de praticar condutas de coerção, obtenção de informações sigilosas e invasões a dispositivos informáticos.
Na nota, os advogados afirmaram que Vorcaro tem um “perfil pacífico” e classificaram os supostos atos de intimidação como “eventuais desabafos, oriundos de recortes maliciosos de mensagens privadas, proferidos em momento de indignação a terceiros”.
Os advogados também fizeram um apelo para que o Supremo decida pela “imediata soltura” de Vorcaro e destacou que a manutenção da prisão preventiva “não pode decorrer de razões políticas”.
“Diante do conjunto de esclarecimentos prestados, a Defesa ratifica a possibilidade, nos termos da legislação vigente e do entendimento pacífico do STF, que Daniel Vorcaro possa, mediante condições, aguardar o desfecho das investigações em liberdade, sobretudo porque está preso sem qualquer acusação formal ou denúncia em seu desfavor, após quase um ano do início da Operação Compliance Zero. Não resta dúvida de que os motivos que ensejaram a prisão não mais persistem”, concluiu o texto.
Henrique Vorcaro
Em depoimento à PF, Henrique Vorcaro afirmou que nunca deu nenhuma ordem ou fez pedido de ameaça ao grupo. E explicou que manteve “relações comerciais” com três pessoas que a PF aponta como integrantes da “Turma”. Os serviços, segunda a defesa, estavam “devidamente registrado e documentado”.
“Depois de mais de 110 dias preso, sem ser ouvido, Henrique, finalmente, prestou depoimento sobre os fatos alegados para a sua prisão. Sobre ele, dizia-se estar à frente desse pessoal, depois da prisão dos envolvidos. Mas jamais declinaram um único fato que partisse dele, uma ordem, um comando, um pedido ou ameaça. Estupefaciente!”, disse o advogado Eugênio Pacelli
“Documentos e testemunhos provam que Henrique manteve relações comerciais com três dessas pessoas. Tudo devidamente registrado e documentado. E desde 2021, antes de se saber da existência das ilicitudes apontadas para Daniel”, acrescentou o defensor.
O excesso e a desnecessidade dessa prisão são evidentes!
E estamos sem Relator no STF que decida sobre esse verdadeiro absurdo! Ao Min. Mendonça, já pedimos e continuamos sem resposta.
O advogado Eugênio Pacelli, que defende o pai de Vorcaro, afirmou
Os episódios que envolvem “A Turma”
Segundo as investigações, a “Turma” era mobilizada por Vorcaro para fazer a vigilância, coleta de informações e ações de intimidação de pessoas que contrariavam os interesses do Master. Um relatório da PF trouxe à tona supostas missões dadas ao grupo com base em mensagens extraídas do celular de Vorcaro.
Em um dos casos, de agosto de 2024, Mourão afirmou que iria se reunir com “A Turma” e disse que seria preciso tomar uma “medida mais drástica” contra o fundador e gestor da Esh Capital, Vladimir Joelsas Timerman, que fez diversas denúncias públicas contra o banqueiro. Vorcaro respondeu: “E contra o advogado tb”.
No dia seguinte, Mourão perguntou se Vorcaro poderia conversar com integrantes do grupo para ajustar a forma como deveriam agir. O banqueiro respondeu que teria de mandar “A Turma” para São Paulo para “matar esses negócios”. O relatório não informa se alguma ação foi realizada depois da conversa.
Meses antes, Vorcaro já havia acionado o grupo após receber uma decisão judicial referente a um pedido de busca e apreensão e quebra de sigilos que incluía o Banco Master.
— Esse depravado do Vladimir pede busca e apreensão e a Justiça deu ouvidos — escreveu Vorcaro.
Mourão respondeu que já havia conversado com “A Turma” e que os integrantes aguardavam apenas o aval do banqueiro.
Outro diálogo citado pela PF ocorreu após postagens relacionadas a um pedido de falência do Master. Mourão informou a Vorcaro que o telefone ligado às publicações estava registrado em nome de Daniel Marinelli Meira e perguntou se queria que “A Turma” “fosse pra cima” dele. Vorcaro concordou.
Na sequência, Mourão perguntou o que deveria ser feito com Marinelli e se era para dar “apenas um susto ou outra ação”.
As mensagens também mostram Vorcaro recorrendo ao grupo por causa de notícias sobre o Banco Master. Em outubro de 2024, ele encaminhou uma reportagem e escreveu:
— Esse tem que derrubar.
Logo depois, acrescentou:
— E mandar turma PF atrás.
Mourão respondeu que já havia acionado “Os Meninos”, grupo que a investigação associa a hackers e tinha um ponto de ligação com “A Turma”.
Um episódios de intimidação já havia sido revelado pelo GLOBO em março. Ao discutir uma abordagem a dois ex-funcionários em Angra dos Reis, Vorcaro avaliou com Mourão se deveria enviar policiais ou “bicheiros”.
— Polícia às vezes não vai intimidar tanto — disse o banqueiro.
Mourão afirmou que iria com Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, e levaria policiais federais, mas disse que também poderia chamar “o pessoal do Rio”. Vorcaro respondeu que deveriam levar os dois e afirmou que seria bom dar um “sacode” primeiro.
Em outra mensagem reproduzida pela PF, um integrante do grupo de policiais do Rio afirmou que estava de prontidão:
— Sabe que com a gente não tem moleza.
Além das ações contra desafetos, o relatório aponta que “A Turma” era acionada por Vorcaro para obter informações sobre investigações e procedimentos envolvendo ele, seus familiares ou seus negócios. Os diálogos citam casos em tramitação na PF, no Ministério Público Federal e na Polícia Civil de São Paulo.