O advogado José Mauro de Farias Junior, sócio de uma empresa que aparece formalmente como dona da cobertura onde mora o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL), esteve à frente de uma secretaria com orçamento de R$ 216 milhões na gestão estadual no mesmo ano em que adquiriu o imóvel. Mauro já foi próximo ao ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj) Rodrigo Bacellar, hoje preso sob acusação de envolvimento com facções criminosas. Seu irmão, Rafael Thompson de Farias, foi braço-direito de Bacellar no governo do Rio, após um histórico de relações com a família do ex-governador Sérgio Cabral, e atualmente ocupa cargo na prefeitura do Rio.
Como revelado pelo GLOBO, a cobertura foi comprada em junho de 2023 pela J3 Real Estate, empresa de Mauro. O valor da aquisição, de R$ 3,5 milhões, foi quitado à vista. Pouco depois, em setembro de 2023, uma firma de arquitetura apresentou o primeiro projeto da reforma da cobertura, que só foi totalmente entregue em setembro de 2025. A defesa de Castro alega que o governador se mudou para o imóvel este ano, e que paga aluguel de cerca de R$ 10 mil.
Mauro se aproximou de Castro após chefiar, entre julho de 2022 e dezembro de 2024, a secretaria estadual de Transformação Digital. A pasta foi criada por Castro em 2022, às vésperas da campanha eleitoral, período em que, segundo o Ministério Público Eleitoral, sua candidatura destinou R$ 2,6 milhões a um fornecedor que repassou os recursos a outra empresa ligada a Mauro Farias, a P5 Soluções. O MP alegou que a transação expõe “malversação de recursos públicos” sem comprovação de serviços prestados, mas a Justiça Eleitoral arquivou a denúncia.
No primeiro ano completo de existência, em 2023, a secretaria de Transformação Digital empenhou — isto é, reservou para uso —R$ 216 milhões, dos quais R$ 80 milhões foram usados para compras e contratações de serviços. O valor supera o desembolsado em outras secretarias robustas, como as de Educação e de Polícia Civil, nessa finalidade.
À época, Mauro foi homenageado na Alerj com a medalha Tiradentes, a principal honraria do estado. A comenda foi entregue por Bacellar, que elogiou Mauro por seu “trabalho incansável em todas as funções que já desempenhou no estado”.
Bacellar, naquele momento todo-poderoso presidente da Alerj, também empregava o irmão de Mauro, Rafael Thompson, como seu chefe de gabinete. Thompson tem um histórico mais antigo no governo do Rio: de 2009 a 2014, ele foi coordenador de eventos na Casa Civil do governo Cabral, e depois foi subsecretário de Esportes na pasta chefiada por Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador.
Thompson chegou a ser ouvido como testemunha pela Justiça Federal do Rio em uma denúncia da Lava-Jato, que apontou suspeitas de que recursos desviados do governo do Rio teriam abastecido a candidatura de Marco Antônio a deputado federal em 2014. Na ocasião, o chefe de Thompson na área de eventos da Casa Civil declarou ter recebido R$ 7,7 milhões em espécie para a campanha, mas alegou desconhecer se os recursos tinham origem ilícita.
Após a prisão de Cabral e a derrota de Marco Antônio quando tentou se reeleger em 2018, Thompson retornou ao governo do Rio pelas mãos de Bacellar, em 2021, quando se tornou o número 2 da Secretaria de Governo. Quando Bacellar se afastou do cargo para a campanha de 2022, Thompson assumiu o posto de secretário. Na ocasião, Bacellar mantinha relação próxima com Cabral, e nomeou Marco Antônio para um cargo na Alerj no início de 2023, logo após se eleger presidente da Casa.
Segundo interlocutores de ambas as partes, a relação entre Bacellar e os irmãos Mauro e Thompson desandou ao longo de 2023. Thompson foi demitido da chefia do gabinete de Bacellar em outubro daquele ano, e Mauro virou alvo de deputados aliados do presidente da Alerj na chamada “CPI da Transparência”, que se debruçou sobre contratos da área de transformação digital do estado.
Até pouco antes de ser preso, no fim de 2025, Bacellar seguiu mostrando insatisfação com os irmãos Farias. Em setembro daquele ano, após um fim de semana de arrastões na Zona Sul do Rio, o então presidente da Alerj frisou que o orçamento da Polícia Militar vinha sendo inferior ao do Proderj, órgão de tecnologia da informação vinculado à secretaria de Mauro Farias.
Na ocasião, Bacellar disse que o Proderj somava, desde o início de 2024, R$ 1,6 bilhão “só de adesão de ata (de registro de preços)”, modalidade em que o poder público sinaliza interesse de fazer uma contratação, embora sem se comprometer de imediato a desembolsar os valores.
— Com todo respeito àqueles que entendem muito de internet, se a preocupação de estado é essa porcaria de digital, é melhor eu pendurar meu pijama e ir embora daqui. A preocupação do governo é com transformação digital quando todo santo dia você vê na rua assalto, a porrada comendo na rua, barricada para tudo que é lado – discursou Bacellar na ocasião.
À época, o irmão de Mauro, Rafael Thompson, já havia sido abrigado na capital fluminense pelo então prefeito Eduardo Paes, desafeto de Bacellar. Thompson preside até hoje a Rioluz, órgão responsável pela iluminação pública e que costuma ser usado por Paes para composições políticas.
Procurado, Thompson disse que “cada uma das nomeações se deveu ao seu perfil técnico e qualificações em gestão pública”, e que “nunca esteve presente em nenhuma obra de imóvel” de seu irmão.
BS20260531063037.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/05/31/de-bacellar-a-cabral-a-teia-de-conexoes-do-dono-da-cobertura-de-luxo-em-que-claudio-castro-foi-morar.ghtml