De Credcesta a apartamento: veja a relação de Jaques Wagner com o Banco Master ao longo dos anos
19 de junho, 2026
| Por: Agência O Globo
Ponto de conexão do senador petista com a instituição financeira se dava por meio do ex-sócio do banco, o empresário baiano Augusto Lima
Senador Jaques Wagner. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Em mais um desdobramento do caso Master, a Polícia Federal (PF) mirou o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), alvo de buscas ontem por ter atuado no Congresso em favor do banco, segundo investigadores. Depois de criar embaraço a políticos do Centrão, a corporação levou pela primeira vez o escândalo ao entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cujo partido ainda tenta explorar a relação do banqueiro Daniel Vorcaro com Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Segundo a PF, Wagner teria recebido um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, além de regalias como o uso de aeronaves particulares e o ingresso para o camarote de um show em Los Angeles, ao custo de R$ 63,3 mil.
O ponto de conexão de Wagner com a instituição financeira se dava por meio do ex-sócio do banco, o empresário baiano Augusto Lima, que também foi alvo da PF ontem e tem boa relação com petistas na Bahia. Além das benesses, uma empresa do núcleo familiar do senador recebeu transferência de R$ 3 milhões de uma financeira vinculada a Lima.
Ex-governador da Bahia por dois mandatos, Wagner é petista histórico e homem de confiança de Lula, um dos poucos auxiliares com intimidade para conversar livremente no gabinete do presidencial. Segundo Wagner, o presidente fez ontem ligação para prestar “solidariedade” logo após as primeiras notícias sobre o assunto virarem públicas.
‘O preço é 2,45 milhões’
Investigadores identificaram uma mensagem em que Wagner envia a Lima detalhes sobre um apartamento que ele estaria interessado em adquirir em Salvador. “A unidade é a 1702 e o preço é 2,45 milhões”, escreveu ele. A mensagem é datada de novembro de 2024.
Em entrevista à BandNews, ontem, Wagner disse que não recebeu dinheiro ou atuou pelo Master no Legislativo. Ele, porém, admitiu as tratativas sobre o imóvel.
— É um apartamento que está em construção. Eu tinha interesse em dar um apartamento, ajudar minha filha a comprar um apartamento desse. Como o Guga, o Augusto Lima, é um investidor, disse a ele: “Pode comprar? Depois eu vou recomprar”.
De acordo com o relatório da PF, citado na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, Wagner foi autor de uma emenda a uma Medida Provisória, em março de 2022, que beneficiaria o Banco Master se fosse aprovada.
O texto apresentado tentou estabelecer um teto para a aplicação de juros sobre os empréstimos consignados. A sugestão visava proibir uma cobrança maior que “300% da taxa média de juros dos Certificados de Depósito Interbancário (CDI)”. Na prática, contudo, o teto dos juros aumentaria expressivamente, do patamar de 14% ao ano para 21%.
A emenda de Wagner foi redigida no mesmo ano em que uma empresa de Bonnie Bonilha, nora do senador petista, começou a receber recursos do Master.
O pedido do senador petista não foi incluído na versão final do texto da MP que foi chancelado pelo Congresso, aprovado em julho de 2022. O relator da Medida Provisória era o senador Davi Alcolumbre (União-AP), hoje presidente do Senado.
Apesar disso, a PF realçou o interesse de Wagner no tema e ressaltou que ele pediu aos parlamentares para o trecho ser aprovado.
Como mostrou a coluna da Malu Gaspar, do GLOBO, em outros sinais de atuação a favor do Master, a PF citou que o senador do PT também teria feito lobby no governo pela aprovação da compra do Master pelo Bando de Brasília (BRB) e no Senado pela aprovação de outra emenda, conhecida como “emenda Master”, que foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PI-PP) e propunha aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito.
A emenda apresentada em agosto de 2024, também não aprovada, era direcionada a uma PEC que mudava regras do Banco Central, e interessava diretamente ao Master porque seus negócios eram largamente lastreados em CDBs que rendiam acima das taxas médias do mercado.
Já em março de 2025, à época da tentativa de venda do Master ao BRB, Lima mandou para o senador a mensagem “Você mais do que ninguém sabe da minha história e faz parte disso”. Para a PF, a frase indica que Wagner era “interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado”.
Dinheiro apreendido
Durante a operação de ontem, a PF apreendeu US$ 49 mil (R$ 253 mil na cotação atual) em espécie em um quarto do hotel Brasília Palace, onde Jaques Wagner costuma ficar quando está em Brasília. Além disso, foram apreendidos 33,5 mil euros e US$ 6,175 mil em seu endereço em Salvador. Em nota, o parlamentar disse que o dinheiro encontrado tem origem em montantes recebidos de forma legal, em “diárias” para viagens oficiais, mas que acabaram não sendo utilizados.
O relacionamento entre Wagner e Lima começou em 2017, quando o petista ainda era secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Na época, ele estava tentando privatizar a Empresa Baiana de Alimentos (Ebal), que era dona de uma rede de supermercados. Augusto Lima arrematou em leilão a Ebal por R$ 15 milhões depois que o governo baiano previu no edital a operação de um cartão de crédito consignado, o Credcesta, que seria utilizado por mais de 400 mil servidores, pensionistas e aposentados da Bahia.
Em declarações anteriores, o próprio Wagner já admitiu que teve encontros com Lima naquela época para tentar destravar o negócio. Ele era secretário do então governador da Bahia, Rui Costa (PT), que foi ministro da Casa Civil de Lula neste mandato.
Depois do leilão, a gestão petista ainda concedeu uma exclusividade de mercado ao Credcesta por 15 anos, o que tornou o ativo ainda mais lucrativo. Lima procurou o Master para administrar o cartão, banco do qual viraria sócio, e expandiu a operação de consignados para outros estados.
A defesa de Augusto Lima, que já foi preso em fases anteriores, negou irregularidades e disse que ele sempre atuou dentro da lei.