Distrito Federal opera com 100% de suas creches públicas em tempo integral
6 de abril, 2026
| Por: Agência Brasília
Rede atende mais de 33 mil crianças em diversas unidades, entre Cepis, instituições parceiras e vagas do Cartão Creche no Distrito Federal
À primeira vista, a entrada do Centro de Educação da Primeira Infância (Cepi) Flor de Magnólia, no Riacho Fundo II, pode parecer uma creche comum: colunas de ferro entrelaçadas por grades de alumínio. Mas para as 188 crianças e bebês matriculados no local, ela é muito mais do que isso: é por lá que os pequenos passam, de segunda a sexta-feira, às 7h30, para iniciar uma jornada diária de aprendizado e descobertas.
Ao chegar às salas, tiram os sapatos e seguem com as tias, como as professoras são chamadas pelas crianças, para o refeitório. Entre risadas e brincadeiras animadas, é ali que é servido o café da manhã. O cardápio, elaborado por uma nutricionista da rede, é passado semanalmente às famílias. Entre os alimentos oferecidos nessa primeira refeição estão mingau, cuscuz, frutas e bolo.
A rotina nas creches do DF combina alimentação balanceada, atividades pedagógicas e convivência com os colegas. Depois de fazerem a primeira refeição do dia, as crianças voltam às salas para dar início às atividades pedagógicas. Um dos momentos mais aguardados é a chamada “rodinha”. Sentados em círculo, os pequenos participam de cantigas, musicalização, conversas em grupo e contação de histórias. É ali que surgem as primeiras interações do dia e onde muitos começam a se soltar — e também onde se revela a forma como o aprendizado ocorre nas creches.
Hoje, as creches já não trabalham com a lógica de fazer a criança sair dali alfabetizada. A orientação pedagógica é outra: em vez do ensino formal de letras e números, o foco está nas vivências, nas interações e em atividades lúdicas que estimulem o desenvolvimento integral dos alunos. Isso não significa que temas como cores, números e letras fiquem de fora da rotina, mas eles aparecem de forma indireta, sempre adaptados à idade de cada turma e mediados por brincadeiras, objetos, tintas, papéis, músicas e histórias.
Na prática, um mesmo tema pode mobilizar toda a creche, que atende crianças de 4 meses a 4 anos, mas com propostas diferentes para cada faixa etária. O objetivo, segundo a equipe pedagógica, é fortalecer o desenvolvimento sensorial, cognitivo, motor e social. A ideia é que as experiências ajudem a formar repertório, memórias e bases mais sólidas para a etapa seguinte da vida escolar, quando começa a alfabetização propriamente dita.
Hoje, as creches já não trabalham com a lógica de fazer a criança sair dali alfabetizada. A orientação pedagógica é outra: em vez do ensino formal de letras e números, o foco está nas vivências, nas interações e em atividades lúdicas que estimulem o desenvolvimento integral dos alunos | Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília
Na sequência, logo após a “rodinha”, as atividades seguem com pintura, colagem, modelagem com massinha e jogos educativos. Ao longo da manhã, os pequenos ainda têm um intervalo para explorar o parquinho e os espaços externos da creche.
É justamente nesse convívio diário, entre brincadeiras e descobertas, que muitos pais começam a perceber mudanças no comportamento dos filhos. A servidora pública Sthephanie Ribeiro matriculou a filha de 11 meses na unidade há poucas semanas e diz que a adaptação já trouxe resultados. “Foi uma decisão difícil no início, porque a gente gostaria de ficar sempre com os filhos. Mas eu percebo que ela já está mais sociável, começou a dar beijinhos e está quase andando. A convivência com outras crianças ajuda muito”, diz.
Enquanto a manhã avança, “o dia letivo” segue movimentado. Depois das atividades e das brincadeiras no parquinho, chega a hora da segunda refeição: um lanche leve, geralmente uma fruta fresca. Em seguida, os pequenos voltam às atividades lúdicas, com brinquedos de montar, jogos coletivos e novas explorações pelo pátio da unidade.
Segundo os pais, essas experiências ajudam a desenvolver a coordenação motora e estimulam a curiosidade das crianças. Para o empresário Rodrigo Matos, foi esse cuidado que chamou sua atenção ao matricular o filho, diagnosticado com autismo.
“No começo, ficamos apreensivos. Mas logo percebemos que ele foi acolhido. Hoje ele pede para vir para a escola. A evolução é visível. Ele está mais tranquilo, mais sociável e a adaptação foi muito positiva”, relata o pai. “Até o remédio que ele toma está diminuindo por causa da convivência com a escola”, completa.
É no convívio diário, entre brincadeiras e descobertas, que muitos pais começam a perceber mudanças no comportamento dos filhos | Foto: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília
Chegou a hora do almoço
Por volta das 11h, o movimento no refeitório recomeça. É hora do almoço. O cardápio, também planejado por nutricionista da rede, inclui pratos balanceados, como arroz, feijão, carnes ou frango, além de legumes e verduras.
Os bebês mais novos fazem a refeição nas próprias salas, acomodados em cadeirinhas apropriadas. Já as crianças maiores seguem para o refeitório, onde mesas e cadeiras foram pensadas para o tamanho de cada faixa etária.
Depois de uma manhã cheia de atividades, chega o momento de desacelerar. É a hora do descanso. O período de sono costuma se estender até 13h30. Ao acordarem, as crianças passam por uma nova rotina de cuidados. Penteiam o cabelo, tomam banho e se preparam para as atividades da tarde.
Em seguida, é servida a quarta refeição, com frutas, biscoitos ou lanches leves. O restante da tarde costuma ser marcado por atividades mais livres e recreativas, muitas vezes ao ar livre. Rodas de música, jogos coletivos e brincadeiras com bola ajudam a manter o ritmo até o fim do dia.
Por volta das 16h acontece a última refeição: o jantar. Depois da alimentação, as equipes organizam a higienização das crianças, trocam roupas quando necessário e registram na agenda escolar as atividades do dia para compartilhar com as famílias.
A partir das 17h, os portões começam a abrir novamente. Pais e responsáveis chegam para buscar os filhos, que aos poucos deixam a creche depois de mais um dia de aprendizado, brincadeiras e convivência.
Dez horas nas creches do DF
A cena se repete em todas as creches públicas do Distrito Federal. Atualmente, a rede pública e as parcerias com instituições privadas atendem 33.352 crianças em regime integral, sendo a capital federal a única UF que tem 100% das creches com essa carga horária.
Ao todo, são 73 Centros de Educação da Primeira Infância (Cepis), estruturas construídas ou administradas pelo Governo do Distrito Federal (GDF), além de 72 instituições parceiras, 133 unidades particulares atendidas pelo Cartão Creche e duas escolas da rede pública distrital.
Segundo a ex-secretária de Educação do Distrito Federal, Hélvia Paranaguá, o atendimento nas creches faz parte do processo educacional das crianças desde os primeiros anos de vida.
“Durante muito tempo a creche foi vista apenas como assistencialismo, mas desde a Constituição de 1988 e a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional] ela passou a ser educação. É ali que a criança começa a ser estimulada, conviver com outras crianças e aprender a socializar”, afirma.
De acordo com a ex-secretária, o investimento na ampliação da rede permitiu expandir o acesso das famílias ao atendimento em tempo integral. Desde 2019, o Governo do Distrito Federal construiu 27 Cepis, dos quais 22 já foram oficialmente inaugurados.
“Esse estímulo e esse cuidado são fundamentais nessa fase da vida. A criança fica bem assistida, aprende, evolui e a família pode trabalhar com tranquilidade”, acrescenta Hélvia Paranaguá.
Todas as creches vinculadas ao órgão funcionam em período integral de 10 horas diárias e dispõem de cinco refeições por dia: café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde e jantar. Para a ex-secretária, o modelo também tem impacto social.
“Na creche em tempo integral, a criança tem cinco refeições. Ela aprende mais, está mais protegida e vai para casa bem alimentada”, afirma.
A diretora do Cepi Flor de Magnólia, Tatiane Maria de Jesus, conta ainda que as equipes acompanham diariamente a evolução de cada aluno. “Existe uma observação contínua. Temos um diário de bordo onde são registradas as atividades e o desenvolvimento das crianças. Assim conseguimos acompanhar o progresso e compartilhar essas informações com os pais.”
Expansão da rede
A ampliação da rede de creches tem sido uma das estratégias para ampliar o acesso ao atendimento na primeira infância no Distrito Federal. Em 2019, a fila de espera por uma vaga em creche era de 24 mil crianças. Nesses sete anos, o GDF construiu 27 Cepis distribuídos pelas regiões administrativas — além de ampliar a lista de creches conveniadas. Com isso, hoje, há mais vagas abertas do que crianças aguardando.