
Falta de alianças reforça movimento no PL para que Michelle Bolsonaro participe da escolha de vice
Com a tendência de que as duas articulações fracassem, cresce no PL o entendimento de que Flávio terá de recorrer aos próprios quadros

Na pesquisa de ontem, considerando o cenário com maior número de postulantes, Cleitinho é seguido pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), com 12%

Tido como estado-chave para a eleição nacional, Minas Gerais vive um cenário repleto de incertezas a duas semanas do início oficial da campanha. Após meses de indefinição, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), líder nas pesquisas, indicou ontem que aceitará a “missão” de disputar o governo estadual. Ele é a principal aposta de palanque do também senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que enfrentará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida pelo Planalto — antes, o petista também enfrentou uma série de turbulências até fechar um nome para o cenário mineiro. O atípico pleito local inclui ainda um governador desconhecido de mais da metade da população em busca da reeleição, sob risco de traição no campo da direita.
Depois de permanecer em silêncio desde a morte há dez dias do irmão caçula, vítima de leucemia, Cleitinho divulgou na noite de ontem um vídeo feito com inteligência artificial no qual surge conversando com o pai e afirma estar “inseguro, em dúvida e com medo”. A publicação veio horas após a divulgação da pesquisa Genial/Quaest que o coloca com 35% das intenções de voto, ampliando a vantagem já registrada anteriormente sobre os adversários. Foi justamente a aceitação do senador junto ao eleitorado a principal razão para que a campanha de Flávio, antes refratária a uma candidatura de Cleitinho, passasse a mirar uma composição junto ao Republicanos.
O próprio partido de Cleitinho, no entanto, chegou a sinalizar um dia antes que ele teria desistido de concorrer ao governo mineiro. Embora, caso a inflexão realmente se confirme, a presença de Flávio no palanque do parlamentar seja vista como natural entre aliados de ambos os lados, até a postagem de ontem ampliou os sinais difusos. O vídeo gerado por IA traz o irmão falecido de Cleitinho, Mateus Azevedo, dizendo ao parente que “não olhe nem para a direita, nem para a esquerda, siga em frente”.
— Ele deu uma recuada por conta da morte do meu irmão, que abalou muito a nossa família, mas chegou um momento em que ou recuávamos de vez ou registrávamos a candidatura. Optamos por ir para frente. Acho que o resultado da pesquisa de hoje (ontem) também motivou ele a anunciar — afirmou ao GLOBO o deputado estadual Eduardo Azevedo (PL-MG), também irmão de Cleitinho. — Ele deve anunciar ainda mais claramente, mas postou para dar uma satisfação. E vai dar palanque ao Flávio, sim.
Na pesquisa de ontem, considerando o cenário com maior número de postulantes, Cleitinho é seguido pelo ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), com 12%; o deputado federal Patrus Ananias (PT), com 10%, testado pela primeira vez desde que foi escolhido por Lula; e o governador Mateus Simões (PSD), que soma 6% após assumir o cargo com a renúncia de Romeu Zema (Novo) para concorrer à Presidência. O senador também lidera com vantagem de pelo menos 15 pontos percentuais em todas as simulações de segundo turno.
Eleito em 2018 com os votos do bolsonarismo, Cleitinho chegou a ter embates públicos com a família do ex-presidente, o que gerava resistências sobre seu nome. No ano passado, por exemplo, o senador foi criticado pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) após defender que uma candidatura presidencial do parlamentar cassado seria inviável por ele estar morando nos Estados Unidos. “Imprudente foi darmos a vaga do Senado para você, mas muitos dos nossos erros iremos corrigir”, disparou Eduardo. Divergindo de outros parlamentares de direita, Cleitinho também já externou falas positivas sobre o presidente Lula e declarou apoio ao fim da escala 6×1, pauta defendida pelo governo federal.
O plano original do entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro era lançar o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao governo mineiro. Parlamentar mais votado do país em 2022, ele também chegou a aparecer liderando pesquisas até o início desse ano, mas jamais demonstrou inclinação a aceitar a empreitada, o que tornou a entrada de Cleitinho no páreo ainda mais estratégica para Flávio. Antes, o PL também considerou apostar em um “outsider” e passou a ventilar os nomes do empresário Flávio Roscoe e de Vittorio Medioli, ex-prefeito de Betim (MG). Testado pela Genial/Quaest ontem, Roscoe teve de 2% a 4% das intenções de voto, enquanto Medioli não pontuou.
A indefinição por parte de Cleitinho afetou diretamente a candidatura de Mateus Simões. Aposta de Zema, cuja gestão era aprovada por mais da metade dos mineiros, o atual governador enfrenta dificuldades na tentativa de manter-se no posto e é desconhecido por 58% da população. A falta de um nome mais competitivo à direita levou aliados de Flávio Bolsonaro a buscarem uma composição com Marcelo Aro (PP), ex-secretário da Casa Civil de Zema e até então postulante ao Senado na chapa de Simões. A costura tiraria a federação União-PP da coligação do titular do Executivo.
— Ele (Marcelo Aro) é um dos meus candidatos ao Senado e não acredito que a federação romperia um acordo político feito comigo e com o ex-governador Zema por mera conveniência eleitoral de momento. A minha palavra não faz curva, como dizia meu avô. Prefiro sempre acreditar que quem trata comigo também age assim — disse o governador ao GLOBO ainda antes da reviravolta envolvendo Cleitinho.
Em busca de aglutinar a direita no estado, Mateus Simões também tentou atrair o PL para a composição. No entanto, ele chegou a ser descrito por Flávio como um nome que o “puxaria para baixo” na corrida à Presidência em anotações vazadas no período de definição das pré-candidaturas que seriam apoiadas pelo bolsonarismo.
Historicamente, o candidato ao Planalto que vence em Minas Gerais conquista a corrida principal. Do lado petista, Lula também ouviu uma série de negativas de palanques mais fortes no estado até convencer Patrus Ananias a topar a candidatura. A prioridade do presidente era o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT) também foi sondada. Ambos declinaram — o primeiro optou por se aposentar da vida política, enquanto a segunda sairá ao Senado.
O PT mineiro também cogitou compor com Alexandre Kalil ou Gabriel Azevedo (MDB), ex-presidente da Câmara de Vereadores da capital, que na pesquisa de ontem aparece em empate técnico com Mateus Simões. As tratativas, entretanto, não foram à frente diante de resistências dos candidatos.
Na disputa presidencial em Minas, Lula aparece em empate técnico com Flávio. No primeiro turno, os índices são de 30% e 29%, respectivamente, contra 12% de Zema. Em eventual segundo turno, o petista soma 38%, ante 35% do filho de Jair Bolsonaro.
A Genial/Quaest também testou a disputa pelo Senado. Marília Campos (18%) e o ex-governador Aécio Neves (PSDB), com 16%, estão tecnicamente empatados na liderança. Eles são seguidos Carlos Viana (PSD), com 11%; Marcelo Aro, com 10%; e Domingos Sávio (PL), com 9%.
BS20260729063009.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/07/29/em-estado-chave-favorito-relutante-agora-diz-aceitar-missao-e-traz-nova-reviravolta-para-a-corrida-maluca-mineira.ghtml

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