Em uma das maiores crises do futebol gaúcho, Internacional e Grêmio se enfrentam pela Copa do Brasil
27 de agosto, 2026
| Por: Agência O Globo
Adversários nas quartas de final, dupla Gre-Nal soma quase R$ 2 bilhões de dívidas, lutam contra o rebaixamento no Brasileiro e convivem com transfer bans
Inter de Alan Patrick e Grêmio de Pavón não têm patrocínio máster no momento — Foto: Ricardo Duarte/Internacional e Lucas Uebel/Grêmio
Na história do clássico Gre-Nal, é comum imprensa e torcedores gaúchos falarem na “gangorra” entre os rivais. Quando um está bem, o outro está mal. E o confronto é o momento que pode “arrumar a casa” de um ou iniciar uma crise no outro. Mas, agora, a impressão é de que a “gangorra” quebrou. Em conjunto, Internacional e Grêmio protagonizam um dos piores momentos do futebol gaúcho. Em crise dentro e fora de campo, as equipes têm no confronto que começa hoje, às 20h, no Beira-Rio, pela ida das quartas de final da Copa do Brasil, uma chance de retomar o rumo na temporada e evitar um fim de ano desastroso.
Não é apenas a posição na tabela do Campeonato Brasileiro deste ano que simboliza esse momento ruim da dupla — o Grêmio é o 15º, e o Inter é o 16º, cada um com 25 pontos, um a mais que o Mirassol, primeiro time dentro da zona do rebaixamento. Os clubes vêm de anos de baixa, com algumas temporadas de exceção para cada. O último título de elite do futebol gaúcho para além das fronteiras do estado foi a Recopa Sul-Americana conquistada pelo Grêmio em 2018. Além disso, na última década, cada um acumulou um rebaixamento no Brasileirão (o Inter em 2016 e o Grêmio em 2021).
Mas a crise gaúcha fica ainda mais evidente nos balanços de cada clube. Somados, os dois fecharam 2025 com quase R$ 2 bilhões em dívidas — R$ 940 milhões do Internacional e R$ 935,6 milhões do Grêmio. Sem o mesmo poder de geração de receita de clubes como Flamengo e Palmeiras, os gaúchos viram um abismo se abrir nos últimos anos. Hoje, os dois estão sob transfer bans: o colorado, pela Fifa; e o tricolor, pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf) — o Grêmio ainda pode registrar novos jogadores, desde que siga algumas regras, como um balanço positivo entre vendas e contratações.
— É o pior momento, não recordo de outro assim. Os dois já tiveram fases ruins, mas era momentâneo. A partir de 2020, o futebol se transformou muito rápido, e eles ficaram para trás. Ambos ainda apostam em fórmulas ultrapassadas, como planos de sócios, que são receitas significativas, mas não há surgimento de novas ideias, novos negócios. Porto Alegre é um mercado secundário, tem limitações, mas tem também uma dificuldade de atualização — analisa Leonardo Oliveira, colunista da “GZH”.
Grêmio e Inter viram a situação se deteriorar nos últimos anos, entre apostas em “medalhões” com salários altos para competir com os outros mercados e suprir o chamado, nos bastidores, “custo Porto Alegre” (ter que pagar mais para convencer um jogador a ir para o Sul) e prejuízos causados pelas enchentes de 2024. O colorado, por exemplo, teve prejuízo de quase R$ 90 milhões e precisou praticamente reformar o CT, que fica na beira do Rio Guaíba. O tricolor não divulgou os prejuízos que teve no CT e com material que armazenava na Arena — o estádio era, na época, administrado pela Arena Porto-Alegrense, que arcou com os custos sobre a estrutura, mas o clube teve prejuízo com itens que ficavam no local. Por sua vez, precisou ficar 120 dias sem jogar em casa.
Sem espaço para SAF
A crise também é visível nas próprias camisas. Desde o fim de 2025, Grêmio e Inter não têm patrocínio máster. Recentemente, o colorado tem apostado em acordos pontuais, como para o clássico de hoje.
— Depois da onda das “bets”, o número de empresas diminuiu e as que ficaram estão fazendo contas. Os clubes subiram seus preços, inflaram contratos e montaram elencos na precificação dessa onda. Agora, não querem flexibilizar muito o seu valor, porque aumentaram seus custos. Mas as marcas não estão mais disponíveis para pagar esses valores — explica Bernardo Pontes, CEO da Alob Sports e especialista em marketing esportivo.
Enquanto clubes como Vasco, Botafogo e Bahia recorreram ao investimento estrangeiro por meio das SAFs, essa ideia ainda é rechaçada no futebol gaúcho.
— Aqui se discute SAF muito à distância. O gaúcho é muito tradicionalista. Quem tenta fazer algo disruptivo sofre. As cabeças que estão nos clubes são de grupos políticos que muitas vezes estão lá há muito tempo. Há uma desconfiança grande quando se tenta buscar uma solução fora — disse Leonardo Oliveira.