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o nível total de endividamento no DF permanece ligeiramente abaixo da média nacional, os indicadores de atraso e de capacidade de pagamento são significativamente mais desfavoráveis na capital

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), elaborada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostra que o endividamento das famílias voltou a avançar em julho de 2026, tanto no Distrito Federal quanto no Brasil. A leitura comparativa, porém, revela dinâmicas distintas: enquanto o nível total de endividamento no DF permanece ligeiramente abaixo da média nacional, os indicadores de atraso e de capacidade de pagamento são significativamente mais desfavoráveis na capital.
No Distrito Federal, 79,9% das famílias estavam endividadas em julho, ante 79,7% em junho e 72,8% em julho de 2025. Em termos absolutos, são 844.359 famílias. No Brasil, a taxa atingiu 82,0%, frente a 81,6% em junho e 78,5% um ano antes, alcançando 14,97 milhões de famílias. O resultado nacional de julho voltou a alcançar o maior patamar da série histórica destacado pela CNC.
A diferença entre DF e Brasil no endividamento total é de 2,1 pontos percentuais em julho. No entanto, a trajetória anual foi mais intensa no Distrito Federal: entre julho de 2025 e julho de 2026, a taxa local avançou 7,1 pontos percentuais, enquanto a média nacional cresceu 3,5 pontos percentuais.

O contraste central da PEIC de julho está na qualidade do endividamento. O DF apresenta menor proporção total de famílias com dívidas, mas registra uma incidência de contas em atraso 21,4 pontos percentuais superior à média brasileira. Isso sugere maior deterioração da capacidade de pagamento das famílias locais, com potenciais efeitos sobre o consumo corrente e sobre a disponibilidade de crédito.
A análise por faixa de renda reforça a necessidade de olhar além da média geral. Entre as famílias com renda de até 10 salários mínimos, o endividamento no DF alcançou 85,8%, acima dos 84,1% observados no Brasil. Já entre as famílias com renda superior a 10 salários mínimos, a taxa no Distrito Federal foi de 67,1%, inferior aos 72,0% da média nacional.
Essa composição indica que a pressão do endividamento no DF está relativamente mais concentrada nas famílias de menor renda, justamente o grupo mais sensível ao aumento do custo do crédito, às despesas essenciais e a oscilações na renda disponível.

A inadimplência é o indicador que mais diferencia o cenário do Distrito Federal. Em julho, 51,2% do total das famílias do DF possuíam contas em atraso, contra 50% registrados em junho. No cenário nacional, o índice era de 29,8%l. Em relação a julho de 2025, a taxa local avançou de 41,8% para 51,2%, alta de 9,4 pontos percentuais. No Brasil, o indicador permaneceu praticamente estável, passando de 30,0% para 29,8% no mesmo período.
A dificuldade de regularização também é mais elevada na capital: 20,8% das famílias do DF afirmam que não terão condições de pagar as contas atrasadas no mês seguinte, ante 12,3% no país. Em números absolutos, são 219.519 famílias no Distrito Federal nessa situação.
O tempo médio de atraso é de 65 dias tanto no DF quanto no Brasil. Contudo, 48,9% das famílias inadimplentes do DF estão com débitos vencidos há mais de 90 dias, percentual próximo ao nacional, de 48,5%. A combinação entre alta incidência de atraso e longa permanência na inadimplência reforça a necessidade de renegociação e reorganização financeira.
O cartão de crédito permanece como o principal tipo de dívida em ambos os recortes, alcançando 86,6% das famílias endividadas no DF e 85,3% no Brasil. No Distrito Federal, aparecem em seguida os carnês (14,6%), o financiamento de automóveis (13,2%), o crédito pessoal (12,4%) e o financiamento imobiliário (9,6%).
O peso do cartão de crédito merece atenção porque esse instrumento combina elevada disseminação com custos potencialmente altos quando o saldo não é integralmente pago. Ao mesmo tempo, o maior peso do financiamento de veículos no DF – 13,2%, ante 9,0% no Brasil – evidencia uma composição de dívida local com participação relevante de compromissos de prazo mais longo.
Apesar do quadro mais grave de inadimplência, o comprometimento médio da renda com dívidas é menor no Distrito Federal: 23,9%, frente a 29,5% no Brasil. No DF, 51,8% das famílias comprometem entre 11% e 50% da renda mensal com dívidas e apenas 8,2% destinam mais de metade da renda a esses compromissos, contra 19,0% na média nacional.
Por outro lado, as dívidas se estendem por mais tempo no Distrito Federal. O período médio de comprometimento é de 7,8 meses, ante 7,2 meses no Brasil, e 40,8% das famílias do DF permanecem comprometidas por mais de um ano, frente a 33,1% no país. Esse resultado ajuda a explicar por que um comprometimento médio menor da renda pode coexistir com maior inadimplência: a pressão financeira local parece estar associada não apenas ao peso mensal da dívida, mas também à sua persistência e à dificuldade de regularização.
O presidente do Sistema Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, avalia que, para o comércio, a principal consequência de um nível elevado de inadimplência é a redução da renda efetivamente disponível para consumo. Famílias com prestações atrasadas tendem a priorizar despesas essenciais e a renegociação de compromissos, reduzindo a capacidade de realizar novas compras, especialmente de bens duráveis e itens de maior valor.
O cenário não significa retração automática do consumo, mas exige cautela. A elevada proporção de famílias endividadas e, sobretudo, a expansão da inadimplência no DF tornam mais relevantes as estratégias de preço, parcelamento responsável, meios de pagamento diversificados e ações de fidelização. Para a economia local, a recomposição da capacidade de pagamento das famílias é condição importante para sustentar o crescimento do comércio e dos serviços nos próximos meses.
“Os dados de julho mostram que o principal desafio do Distrito Federal não está apenas no volume de famílias endividadas, que ainda é inferior à média nacional, mas principalmente na qualidade desse endividamento. Mais da metade das famílias do DF já possui contas em atraso e uma parcela relevante afirma que não conseguirá regularizar esses compromissos no próximo mês. Esse quadro reduz a renda disponível para o consumo e exige atenção tanto das famílias quanto do setor produtivo. A ampliação de mecanismos de renegociação, educação financeira e acesso responsável ao crédito é fundamental para recuperar a capacidade de compra do consumidor e preservar a sustentabilidade do comércio de bens, serviços e turismo no Distrito Federal”, avalia Aparecido.

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