ESPORTES

Entre técnica e risco, surfe de ondas gigantes eleva seu nível de preparo e segurança

12 de janeiro, 2026 | Por: Agência O Globo

Vitória recente de Lucas Chumbo em Nazaré revela o grau de profissionalização de uma modalidade que exige técnica, pulmão, cabeça e uma rede de confiança onde o erro pode custar a vida

Carlos Burle durante onda gigante em Nazaré
Carlos Burle durante onda gigante em Nazaré — Foto: Reprodução/WSL

Quando Lucas “Chumbo” Chianca despencou da crista de uma onda gigante em Nazaré, em meados de dezembro, o que se viu foi apenas o desfecho de um processo muito mais complexo do que um erro ou um impulso. Multicampeão na meca portuguesa do surfe de ondas grandes e vencedor de mais uma edição do Nazaré Big Wave Challenge, o brasileiro sabia, ainda no topo da onda, que aquela descida não terminaria em pé.

O resultado da bateria pouco revela sobre o que realmente importa nesses instantes: os segundos que antecedem a queda e, sobretudo, o tempo em que o corpo permanece submerso, em silêncio absoluto, sob toneladas de água em movimento.

— Naquele exato momento, corpo e mente entram na mesma sintonia. Tudo vira instinto e técnica. A única coisa que pensei foi: relaxa, você está preparado para isso — resumiu Chumbo ao GLOBO.

No surfe de ondas gigantes, a linha que separa performance e sobrevivência é tênue. E, diferentemente de outras modalidades, ela não se cruza apenas com talento. Exige uma engrenagem complexa, que envolve treinamento físico extremo, apneia, leitura do mar, tecnologia de ponta, protocolos rígidos de segurança e, sobretudo, controle psicológico.

A queda de Chumbo naquela bateria foi uma das mais violentas de sua carreira. Foram cerca de 30 a 40 segundos debaixo d’água, com visibilidade quase nula e a proximidade perigosa das pedras:

— Foi o pior caldo da minha vida. Mas eu sabia que ainda não tinha chegado ao meu limite. Subi no jet, dei uma “resetada”, respirei. Dois minutos depois, já estava de volta à corda, pronto para outra onda.

Essa capacidade de “resetar” após um trauma não nasce no mar. É construída em meses de preparação. O treinamento combina apneia dinâmica, exercícios de força e resistência, simulações de estresse e um trabalho mental constante para evitar o pânico.

Lucas Chumbo ganha campeonato de ondas gigantes em Nazaré — Foto: Reprodução
Lucas Chumbo ganha campeonato de ondas gigantes em Nazaré — Foto: Reprodução

— No Big Surf, você precisa estar pronto para o pior o tempo todo — definiu o brasileiro.

A mesma leitura é compartilhada por Carlos Burle, precursor da modalidade no país e bicampeão mundial de ondas grandes. Aos 58 anos, ele protagonizou no início de dezembro um dos resgates mais impressionantes da temporada em Nazaré, após uma queda múltipla em sequência de ondas.

— Naquele momento, a mente não divaga. Ela não pensa em nada além de sobreviver. É um estado de flow absoluto, de presença total. O pensamento comum do dia a dia simplesmente desaparece — explicou.

Pulmão, técnica e o ‘computador’ da cabeça

Burle relata que, após sucessivas ondas na cabeça, chegou a perder noção de espaço e reflexos, mas nunca o controle.

— Até perder a consciência, você não pode perder o controle. Isso não é uma opção — afirma. — A cabeça é o computador. Se ela não estiver treinada, nada funciona. Mas, na minha fase, pulmão e força são essenciais para sustentar tudo isso.

Se o risco permanece extremo, a forma de enfrentá-lo mudou radicalmente nos últimos anos. A tecnologia redefiniu os limites da modalidade. Hoje, os surfistas utilizam coletes infláveis com cartuchos de CO₂, que podem ser acionados debaixo d’água e oferecem múltiplas chances de flutuação. Os jet skis ganharam potência, e a comunicação por rádio envolve equipes espalhadas pelo mar, falésias e areia.

Burle, no entanto, faz um alerta importante: tecnologia não substitui julgamento.

— Eu estava muito confiante naquele dia. Confiante demais. Decidi surfar segurando uma GoPro. Aprendi muito com isso. Segurança também é mitigar risco, especialmente quando o mar está daquele tamanho.

Elo fundamental

Se há um consenso absoluto, ele diz respeito ao papel do piloto de resgate. A relação entre surfista e piloto é descrita como um elo de vida ou morte.

— Você entrega a sua vida nas mãos de outra pessoa. E depois troca de lugar com ela — conta Burle. — A maior coragem não é surfar a onda, é se colocar numa posição de vulnerabilidade total.

Chumbo define essa relação como “pura”:

— São irmãos de vida. Eu posso dar o meu máximo porque sei que eles estarão ali para me resgatar.

Momento do resgate de Carlos Burle — Foto: Reprodução/Instagram
Momento do resgate de Carlos Burle — Foto: Reprodução/Instagram

Em mares como Nazaré, a operação envolve até três pilotos focados em um único surfista, além de spotters (“olheiros”) posicionados no alto das falésias, paramédicos e equipes de filmagem que também auxiliam na leitura do mar.

E, assim, o esporte segue avançando sobre uma linha invisível, onde preparo e fé caminham lado a lado.

— Quando eu caio, eu sobrevivo — diz Chumbo. — Muita gente não me vê cair. Mas quando eu caio, eu volto.

Lucas Fink na onda gigante de Nazaré — Foto: Reprodução/Redes Sociais
Lucas Fink na onda gigante de Nazaré — Foto: Reprodução/Redes Sociais

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