Escala 6×1: oposição avalia esvaziar votação em primeiro turno, enquanto governo articula calendário especial; veja estratégias
9 de outubro, 2026
| Por: Agência O Globo
Senadores discutem ausência na sessão prevista para quinta-feira; base de Lula tenta acelerar tramitação para concluir análise antes do segundo turno presidencial
Plenário do Senado Federal discute o fim da escala 6×1 — Foto Marcos OliveiraAgência Senado
Senadores da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avaliam não comparecer à sessão prevista para a votação em primeiro turno da proposta de emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1, na próxima quinta-feira. A medida busca dificultar a obtenção dos 49 votos necessários para aprovar a proposta e adiar a decisão para depois do segundo turno da eleição presidencial. Em sentido contrário, a base governista articula um calendário especial para acelerar a tramitação e tentar concluir a análise antes de 25 de outubro.
A possibilidade de esvaziamento do plenário se soma à orientação da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para que parlamentares da oposição se abstenham em uma eventual votação e evitem manifestações públicas contrárias à redução da jornada Nos bastidores, aliados do presidenciável avaliam que a aprovação da proposta às vésperas da eleição pode favorecer Lula e provocar desgaste para Flávio, que tem evitado declarar como votaria a PEC.
A ausência dos oposicionistas não impediria automaticamente a votação, mas poderia dificultar a aprovação do texto. Por se tratar de uma proposta de emenda à Constituição, são necessários pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores, em cada um dos dois turnos. A aposta é que a mobilização dos parlamentares durante a campanha, somada à ausência de parte das bancadas, torne mais difícil reunir essa maioria.
Integrantes da oposição defendem que o Senado não acelere a tramitação. O senador Wellington Fagundes (PL-MT) afirmou que uma mudança dessa dimensão exige uma discussão mais aprofundada sobre os impactos econômicos.
— Nós queremos responsabilidade com o país. É uma matéria com implicações muito grandes e essa discussão precisa ser madura, sem atropelo — afirmou Wellington.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição e coordenador da campanha de Flávio, também defendeu o cumprimento integral do rito regimental. O parlamentar critica a iniciativa do governo de acelerar a análise durante o segundo turno presidencial e sustenta que a redução da jornada precisa ser acompanhada de medidas que deem maior flexibilidade às relações de trabalho. Marinho apresentou uma proposta alternativa que permite a negociação da carga horária e da remuneração por hora trabalhada.
Do lado governista, a líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), começou a recolher assinaturas para apresentar um requerimento de calendário especial. A intenção é reduzir os intervalos regimentais entre as votações e permitir que a PEC seja aprovada em dois turnos antes da eleição presidencial. Sem essa mudança, a base de Lula avalia que o calendário ordinário não oferece tempo suficiente para concluir a análise.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou que pretende cumprir as cinco sessões de discussão exigidas antes da primeira votação. Três delas foram previstas para esta semana, com as duas restantes na próxima, abrindo caminho para a deliberação em primeiro turno na quinta-feira. Alcolumbre afirmou que eventuais pedidos de aceleração ou adiamento deverão ser apresentados formalmente e submetidos à decisão do plenário.
Caso seja aprovada em primeiro turno, a PEC ainda precisará passar por outras três sessões de discussão antes da votação definitiva. É justamente esse intervalo que os governistas pretendem encurtar com o calendário especial. A oposição, por sua vez, aposta na dificuldade de reunir os votos necessários em meio à reta final da campanha presidencial.
A movimentação ocorre em um momento de divergências entre aliados de Flávio. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou que votará a favor do fim da escala 6×1, embora considere que o momento escolhido para a votação beneficia Lula. Hamilton Mourão (Republicanos-RS) disse que votará contra. Já o governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), também defendeu a aprovação da proposta e cobrou que o Senado conclua a análise, apesar da resistência de parte da oposição ao calendário.
— Já tinha que ter votado. Espero ainda estar como senador para ter o prazer de poder votar.
Flávio tem classificado a iniciativa como oportunista e defendido um modelo de jornada mais flexível, mas evita antecipar seu voto. O presidenciável argumenta que a ampliação do descanso deve ser acompanhada de medidas que preservem empregos e reduzam os custos para as empresas.
A PEC estabelece a redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado e sem diminuição salarial. O texto prevê uma transição gradual, com uma etapa intermediária de 42 horas, e já foi aprovado pela Câmara e pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado.