
Mensagens de Vorcaro mostram advogado articulando aproximação de banqueiro com governo: ‘Estive com o presidente Lula longamente ontem. Vc vai gostar’
Em nota, Planalto diz que “o presidente não tem conhecimento da suposta articulação”
Tema está no pano de fundo de mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro envolvendo desembargador chamado de integrante da “Turma do KN”

O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal (STF), submeteu à Segunda Turma da Corte uma questão de ordem para levar ao plenário um processo que discute se a União deve indenizar uma usina do setor sucroalcooleiro por prejuízos decorrentes da política de preços adotada pelo extinto Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA).
A proposta de Gilmar é que seja transferido ao plenário o julgamento de um recurso no qual se discute a necessidade de realização de perícia individual para comprovar o prejuízo concreto sofrido por cada usina, mesmo quando os critérios para o pagamento da indenização já tiverem sido definidos em uma decisão judicial definitiva.
A discussão sobre indenizações a usinas do setor sucroalcooleiro ganhou novo foco no Supremo após aparecer no material extraído pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
O banco havia firmado contrato com o escritório de Camilla Ramos, esposa do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), para atuar em 12 processos relacionados a indenizações decorrentes do controle de preços exercido pelo antigo IAA. O contrato previa honorários de 5% sobre os valores recebidos pelo banco, que poderiam chegar a R$ 427 milhões.
Newton e Camilla são mencionados em mensagens encontradas no celular de Vorcaro como integrantes da chamada “Turma do KN”, expressão associada nas conversas ao ministro Kassio Nunes Marques. Os diálogos também mostram Camilla comemorando um voto de Nunes Marques na Segunda Turma sobre a tese jurídica envolvendo as indenizações do setor sucroalcooleiro. O ministro afirma que o julgamento citado não envolvia os mesmos processos defendidos pelo escritório e nega ter atuado em favor de Vorcaro ou do Banco Master.
É nesse contexto que Gilmar propõe agora que o plenário do STF uniformize o entendimento da Corte sobre a necessidade de períícia individual para comprovar os prejuízos. Segundo o relator, o caso envolve a aplicação de um tema da repercussão geral do STF e a situação específica em que os critérios para a indenização já foram estabelecidos por sentença transitada em julgado.
Antes de o processo chegar ao plenário, os ministros da Segunda Turma terão que decidir se concordam com a proposta de Gilmar. A questão de ordem será analisada em sessão virtual entre sexta-feira, dia 25, e 2 de outubro. No despacho, o decano determinou a inclusão imediata do tema para julgamento.
Na prática, a análise de uma questão de ordem envolve uma discussão de procedimento, sem adentrar no mérito da ação em si. De outro lado, interlocutores do decano consideram que o julgamento pode acabar levando a um constrangimento para os ministros que votaram a favor da liberação dos precatórios no caso que pode acabar discutido por todos os integrantes do STF. Isso porque Gilmar tem uma posição contrária a esses pagamentos, desde que era Advogado-Geral da União.
Em publicação recente no X, o ministro frisou que votou contra indenizações a usinas de açúcar e álcool por preços que o governo fixou “em todos os casos que julgou”. “Nos casos em que fiquei vencido, o pagamento foi calculado por um estudo genérico do setor. Continuarei sustentando a posição que sempre defendi: sem prova pericial que aponte o prejuízo concreto sofrido pela usina, esses créditos são indevidos”, afirmou.
BS20260922195347.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/09/22/gilmar-propoe-levar-caso-de-usinas-ao-plenario-apos-mensagens-de-vorcaro-mostrarem-interesse-em-voto-de-nunes-marques.ghtml

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