Indústria recua 0,6% em agosto, com queda na produção de minério de ferro
2 de outubro, 2026
| Por: Agência O Globo
Retração foi puxada principalmente pela indústria extrativa, de peso relevante, mas recuo foi generalizado entre os ramos pesquisados. Juros altos são entrave ao setor, diz analista
Produção de alumínio – Foto: magnific
A produção industrial brasileira recuou 0,6% em agosto ante julho, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE. Foi a queda mais intensa para um mês de agosto desde 2022, quando havia recuado 1,4%.
Todas as quatro categorias econômicas investigadas tiveram queda. Em termos de variação, o segmento de bens de consumo semiduráveis e não duráveis – que inclui desde roupas a medicamentos e cigarros – teve maior recuo (1,7%), enquanto o setor de bens duráveis retraiu 1%, influenciada pela menor fabricação de eletrodomésticos das linhas branca e marrom, incluindo televisores.
Já a produção de bens intermediários recuou 0,2%, puxada pela menor atividade da indústria extrativa, que tem peso relevante no setor, e foi afetada pela baixa na produção de minério de ferro. Bens de capital tiveram retração de 0,6%.
Setor perde fôlego em meio aos juros altos
A indústria ainda cresce 0,8% no acumulado do ano, mas há em curso uma perda de fôlego, conforme apontam os números divulgados pelo IBGE. Nos quatro primeiros meses do ano, a indústria cresceu 4,3%. Já nos quatro seguintes, recuou 3,1%.
O movimento ocorre em meio à política monetária restritiva, que mantém os juros em patamar elevado e encarece o crédito para famílias e empresas, segundo André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE.
— A política monetária restritiva – embora tenha sido observado cortes na taxa de juros – tem impacto direto nos níveis de inadimplência de empresas e famílias. Há um comprometimento grande da renda disponível das famílias, e isso faz com que empresas adiem decisões de investimentos — diz André Macedo, do IBGE.
Segundo Macedo, a perda de intensidade da produção industrial tem sido acompanhada por uma disseminação do movimento de queda.
— Embora o mercado de trabalho esteja resiliente, com número recorde de pessoas ocupadas e crescimento da massa de rendimentos, o comprometimento da rendas das famílias e adiamento das decisões de investimentos de empresas ajudam a entender as perdas do setor industrial.
Minério de ferro pesa entre as principais quedas
Dos 25 ramos industriais pesquisados, 16 tiveram queda na produção em agosto. Entre as atividades, a produção de produtos do fumo teve a maior queda percentual, de 23,4%, após quatro meses seguidos de alta. Nesse período, o segmento havia acumulado crescimento de 32,5%. A atividade tem, porém, peso relativamente pequeno no resultado geral.
A produção de produtos farmoquímicos e farmacêuticos caiu 5,5%, enquanto a indústria extrativa recuou 0,7%, no quarto mês consecutivo de retração. O setor acumula queda de 4,7% nesse período.
A indústria extrativa tem peso de cerca de 14% na produção industrial, segundo Macedo, o que ajuda a explicar a relevância da queda do segmento para o resultado de agosto. Dentro dele, a menor produção de minério de ferro teve impacto importante.
— Vemos empresas produtoras reduzindo o volume de produção. Isso tem como pano de fundo a desvalorização dessa commodity e o aumento do frete marítimo. Em contraponto, o setor de petróleo e gás tem mostrado crescimento e ameniza a queda do minério no setor extrativo — analisa.
Vestuário e eletrônicos também recuam
Outros impactos negativos vieram de produtos de borracha e material plástico (-1,8%), confecção de artigos do vestuário e acessórios (-3,3%) e equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (-4%).
Neste último grupo, a queda foi influenciada pela menor produção de televisores e de eletrodomésticos das linhas branca e marrom. Segundo o IBGE, a produção de motocicletas também recuou, enquanto a de automóveis avançou na passagem de julho para agosto, embora sobre uma base de comparação mais elevada.
Na direção contrária, nove atividades registraram aumento da produção. O principal impacto positivo veio de produtos alimentícios, com alta de 1%, puxado por carnes, sucos de laranja, produtos derivados da soja.
Também ajudaram a indústria em agosto os segmentos de produtos diversos, que avançaram 8,4%, produtos químicos, com alta de 0,9%, e metalurgia, que cresceu 0,8%.
Embora o setor de produtos químicos tenha avançado em agosto, a menor produção de adubos, fertilizantes e inseticidas destinados ao setor agrícola ao longo do ano revela perda de intensidade da atividade. Segundo Macedo, a guerra no Oriente Médio tem afetado a fabricação de fertilizantes no país.