Jaques Wagner defendeu emenda sobre crédito consignado que beneficiaria Master, aponta PF
18 de junho, 2026
| Por: Agência O Globo
Investigações apontam que texto foi apresentado em ‘contexto temporal próximo ao início das relações contratuais’ entre banco e empresa
Senador Jaques Wagner. – Foto Lula Marques/ Agência Brasil
A Polícia Federal (PF) indicou que o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), apresentou e defendeu a aprovação de uma emenda a uma Medida Provisória que trata da ampliação da margem de empréstimos consignados. De acordo com o relatório da PF, citado na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que deu aval para uma operação mirando o senador, a proposta legislativa beneficiaria o Banco Master.
Nesta quinta-feira, Wagner foi alvo de um mandado de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero.
A emenda apresentada por Jaques Wagner tentou estabelecer um teto para a aplicação de juros sobre os empréstimos consignados. A sugestão visava proibir uma cobrança maior que “300% da taxa média de juros dos Certificados de Depósito Interbancário (CDI)”.
Na prática, o teto dos juros aumentaria expressivamente, do patamar de 14% ao ano para 21%.
“A atuação parlamentar de JAQUES WAGNER também é indicada como elemento de correlação. A representação aponta sua participação na pauta do crédito consignado, especialmente na Emenda nº 30 à MPV nº 1.106/2022, convertida na Lei nº 14.431/2022, em contexto temporal próximo ao início das relações contratuais entre o Banco Master e a BN FINANCEIRA LTDA., empresa de seu núcleo familiar”, consta na decisão do STF com base nas informações da PF.
A emenda de Wagner foi feita em março de 2022, mesmo ano em que uma empresa de Bonnie Bonilha, nora do senador petista, começou a receber recursos do Master.
De acordo com as investigações, a empresa da nora de Wagner recebeu R$ 11 milhões do Master de 2022 a 2025 para prospectar negócios ligados justamente ao crédito consignado, serviço oferecido pelo banco que está no centro do escândalo de fraude financeira.
O pedido do senador petista não foi incluído na versão final do texto da MP que foi chancelado pelo Congresso, aprovado em julho de 2022. O relator da Medida Provisória era o senador Davi Alcolumbre (União-AP), hoje presidente do Senado.
Apesar disso, a PF realçou o interesse de Jaques Wagner no tema e ressaltou que ele pediu aos parlamentares para o trecho ser aprovado ao apresentar a emenda.
“Em que pese a referida emenda parlamentar tenha sido rejeitada pela Comissão Mista criada para apreciação da Medida Provisória nº 1.106, de 2022, a autoridade policial realça a justificação apresentada, por meio da qual o Senador ‘conclama expressamente os demais parlamentares à conversão da medida provisória em lei”, citou Mendonça em seu relatório com base nas informações da PF.
Como mostrou a coluna da Malu Gaspar, do GLOBO, em outros sinais de atuação a favor do Master, a PF citou que o senador do PT também teria feito lobby no governo pela aprovação da compra do Master pelo Bando de Brasília (BRB) e no Senado pela aprovação de outra emenda, conhecida como “emenda Master”, que foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PI-PP) e propunha aumentar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito para investimentos em CDBs.
A emenda, também não aprovada, era direcionada a uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que mudava regras do Banco Central, e interessava diretamente ao Master porque seus negócios eram largamente lastreados em CDBs que rendiam acima das taxas médias do mercado.
A PF também apontou que Jaques Wagner foi o “beneficiário central” de “vantagens econômicas” pagas por integrantes do Banco Master. Entre esses benefícios estão pagamentos de um apartamento de R$ 2,45 milhões em Salvador, o uso de aeronaves ligadas ao Master e o ingresso para o camarote de um show internacional em Los Angeles que teria custado R$ 63,3 mil.
Líder do governo no Senado, Wagner sempre negou ter qualquer relação com as “falcatruas” do Banco Master – como ele mesmo chamou o esquema de fraudes financeiras envolvendo a instituição financeira em fevereiro deste ano.