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Em ‘Balada da Louca’, que chega ao Rio, atriz interpreta a Rainha do Rock Brasileiro em seus últimos anos e aborda temas como envelhecimento, espiritualidade e morte

Lilia Cabral esteve com Rita Lee uma única vez, durante participação no “Altas horas” que foi ao ar no dia 21 de julho de 2012, na TV Globo.
— Eu me lembro que fiquei muito emocionada por, finalmente, encontrá-la pessoalmente. Sempre fui fã, ia aos shows dela, ouvia as músicas desde os meus tempos de universitária. Eu já tinha tido a oportunidade de estar com Caetano, Gil, Bethânia e Gal até em restaurantes, mas com Rita, nunca — conta a atriz.
Na ocasião dessa gravação, durante um intervalo, Rita se ajoelhou ao lado de Lilia, e as duas se puseram a conversar.
— Aí, alguém veio tirar fotos da gente. Como eu poderia imaginar que esses registros dariam fruto futuramente? — reflete.
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O futuro é agora, quando a paulistana revive sua saudosa conterrânea em “Rita Lee: Balada da Louca”. Depois de três meses em São Paulo com ingressos esgotados, a peça estreia no Rio nesta sexta-feira (9) e segue em temporada até 15 de novembro, no Teatro Prio. O convite para Lilia interpretar a Rainha do Rock Brasileiro em seus últimos anos de vida veio do idealizador do espetáculo, Guilherme Samora, amigo de Rita e editor de seus livros — incluindo “Rita Lee: outra biografia” (Editora Globo, 2023), em que o espetáculo se baseia.
— Guilherme também estava lá (no “Altas horas”), presenciou o meu encontro com ela, e disse que logo pensou em mim para o papel. Eu nunca me imaginei nesse lugar… Às vezes, aquilo que você menos espera é o que vai realizar — observa a veterana, de 69 anos.
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No palco, Lilia aborda temas como envelhecimento, espiritualidade e morte, já que o texto repassa os momentos derradeiros de Rita, reclusa em seu sítio em Cotia (SP), na companhia de seus bichinhos e do marido, Roberto de Carvalho. O vermelhão característico de seu cabelo já havia dado lugar aos fios brancos quando ela foi diagnosticada com um tumor no pulmão esquerdo, em maio de 2021, ao qual apelidou de “Jair”, com sua ironia peculiar. Após sessões de imuno e radioterapia, a família de Rita anunciou que ela estava em remissão da doença, em abril de 2022. Mas a artista acabou morrendo em maio de 2023, aos 75 anos, em decorrência de complicações relacionadas ao câncer.
— Eu tive o prazer de ir até o sítio da família e ver de perto a cadeira onde ela ficava sentava, a escrivaninha onde escrevia, o açucareiro onde narrou ter visto uma formiguinha (passagem poética e marcante de sua segunda autobiografia). O lavabo da casa dela é muito parecido com o da minha família, fiquei impressionada! E conheci filhos, um dos netos… Todos foram muito generosos comigo — detalha Lilia, que fez as fotos de divulgação da peça usando um adereço de cabeça estrelado e um colar de terço (dado de presentepor Hebe Camargo) que pertenceram à própria homenageada.
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São de Roberto de Carvalho, a propósito, os arranjos em piano das músicas tocadas no monólogo. Lilia conta que solta o gogó pra valer em cena, nada de playback:
— É ao vivo mesmo. Canto “Nem luxo, nem lixo”, “Coisas da vida” e mais três músicas. A última, à capela. Roberto se sentou ao piano, dizendo que há muito tempo não tocava, e passou as canções comigo de uma só vez. Fui entendendo as notas, a respiração… Gente do céu, é tudo muito emocinante!
No camarim do espetáculo, dirigido por Beatriz Barros e produzido por Brancalyone, Lilia mantém à vista o livro que o inspirou.
— Na capa, Rita está de turbante e com os olhos bem abertos. Eles me acompanham em qualquer direção. Tenho o livro como uma proteção. Olho pra ela ali, agradeço e peço licença para contar essa história tão necessária de se ouvir. Há várias formas de se passar por uma situação difícil. Rita o fez com delicadeza, irreverência, compromisso e coragem — observa.
Católica, a atriz conta que nunca tinha tido uma imagem de Santa Rita de Cássia em casa. Apresentando a peça, ganhou várias de presente dos espectadores, admiradores dela e da eterna roqueira.
— Eu também fiquei muito fã de Santa Rita. Tenho algumas em São Paulo e aqui no Rio. Tem grande, tem pequena, tem de crochê… De vários tipos e tamanhos. Elas estão na companhia das minhas imagens de Nossa Senhora da Coneição, Nossa Senhora de Nazaré, Nossa Senhora de Fátima, Santo Antônio e São José — conta.
Discreta e reservada, Lilia diz que não se aproxima de Rita Lee na transgressão, e sim na coragem. “Nunca fui rebelde. Acho que em outra encarnação eu até queria ser (risos)… Mas tenho personalidade forte, meus lados italiano e português não negam. Onde eu puder e precisar me posicionar, eu vou fazer. Minha sinceridade já me fez perder uns amigos e recuperar alguns. E acho que sou transgressora nas minhas personagens, não deixo elas caírem na mesmice”, analisa.
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Sobre envelhecimento e morte, temas tratados na peça, a atriz afirma: “Eu me olho no espelho e penso que estou bem para a idade que tenho. Ainda não penso em deixar o meu cabelo branquinho, como Rita deixou o dela. Talvez mais adiante. O meu é pintado, mas natural. Tenho lidado mais com as dores aqui e ali. Dia desses, cheguei em casa após horas de gravação, peguei uma simples caixa e me deu um mal jeito no ombro. Como pode? Já sobre morte, não tenho medo, mas não gosto muito de pensar. Agora estou fazendo um trabalho que fala sobre isso. Então, como atriz, vou defender. Não vou ficar pensando nem analisando”.
Teatro Prio: Av. Bartolomeu Mitre 1110, Lagoa. Sex e sáb, às 20h; dom, às 18h. Ingressos a partir de R$ 75 (meia-entrada). 70 minutos. 12 anos. Até 15 de novembro.
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