
Após crise sobre Vorcaro afastar até aliados, Flávio vê direita se reaproximar com medida dos EUA contra facções
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Presidente aposta em agendas voltadas a obras para tentar explorar brechas de Flávio Bolsonaro

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai acelerar neste mês a inauguração de obras nos maiores colégios eleitorais do país, em uma estratégia que, ao ser desenhada, buscava aproveitar o desgaste do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com a revelação das mensagens trocadas com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master. Desde a semana passada, porém, o movimento também é visto no governo como uma possibilidade de conter a ofensiva da campanha adversária no tema da segurança pública, após os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, dias depois de uma visita de Flávio ao presidente americano, Donald Trump.
O roteiro preparado pelo Palácio do Planalto vai até 4 de julho, prazo limite estabelecido para a participação de pré-candidatos nesse tipo de ato. Com inaugurações de rodovias, institutos federais e hospitais, a maratona de eventos mira sobretudo dois entre os principais colégios eleitorais do país: São Paulo e Rio, justamente os berços das facções alvo da medida de Trump. Já a falta da definição de um palanque em Minas Gerais, segundo estado em número de eleitores, virou um entrave.
Embora a própria campanha admita reservadamente que a chance de Lula ter mais votos que Flávio no Rio e em São Paulo é baixa, a expectativa no entorno do petista é que a combinação entre agendas oficiais e maior exposição pública ajude o governo a melhorar indicadores de popularidade, dando fôlego eleitoral. O planejamento em São Paulo, por exemplo, mira ao menos repetir a votação de Lula em 2022, quando ele teve 44,7% da preferência do eleitorado no segundo turno — a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) contava com uma margem maior no estado para amortecer a distância a favor do rival no Nordeste.
O chefe do Executivo esteve no Rio no último sábado e reforçou o discurso da soberania, principal aposta para neutralizar eventuais efeitos eleitorais do anúncio dos EUA sobre o CV e o PCC, ao afirmar que a esquerda precisa se apropriar do verde e amarelo na Copa do Mundo, sem deixar que as cores da bandeira sejam usadas apenas pelo que classificou como “fascistas”. Também participou do evento o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (PSD), pré-candidato a governador na aliança do petista e citado durante a fala de Lula. Em São Paulo, o candidato do presidente é o correligionário Fernando Haddad, ex-ministro da Educação.
São Paulo foi escolhido para o lançamento, há duas semanas, do Move Aplicativos, crédito especial para a compra de veículos. Lula terá pelo menos mais duas idas ao estado para a inauguração de institutos federais em Mauá e em São Bernardo do Campo, berço político de Lula. Outras agendas em território paulista seguem em fase de análise.
Já no Rio, estado de Flávio, Lula já tem intensificado entregas na área da saúde e conta com o apoio de Paes em busca de eleitores de centro. O objetivo da campanha será tentar colar o senador ao desgaste do ex-governador Cláudio Castro (PL), alvo de duas operações da Polícia Federal (PF) em duas semanas, e suas relações com o dono do banco Master. Outro eixo vai contemplar a comparação entre medidas tomadas por Lula e Flávio no estado.
Uma das agendas de Lula previstas para o Rio nas próximas semanas é a inauguração de um trecho de quatro quilômetros de duplicação na Serra das Araras (BR-116), obra que busca desafogar o trânsito no Sul fluminense.
— A tendência é ampliar (os votos), principalmente porque ajustamos a política no Rio, buscando ampliar a relação. Também estamos crescendo em conversas com prefeitos — afirma o o prefeito de Maricá (RJ), Washington Quaquá, integrante da Executiva Nacional do PT.
Maior colégio eleitoral do Nordeste, a Bahia também deverá ter agendas oficiais com Lula pelo menos mais duas vezes. O petista deve estar presente na inauguração do Hospital estadual do Litoral Norte, em Alagoinhas, cidade com cerca de 160 mil habitantes, e, mais para o fim do mês, no Instituto Federal Santo Estêvão.
Aliados também devem reforçar o pedido para o presidente ir ao estado em 2 de julho, data dos festejos da Independência da Bahia. Caso ele atenda ao apelo, o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), tem intenção de levá-lo na reinauguração do Teatro Castro Alves, em Salvador.
Lula é o principal cabo eleitoral de Jerônimo, que enfrentará o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) e vai precisar lidar com o desgaste de 20 anos de gestão petista no Palácio de Ondina. No estado, o PT pretende repetir e ampliar a votação de Lula em relação a 2022, quando ele alcançou 72% dos votos no segundo turno. Aliados, no entanto, admitem que há dificuldades:
— O sarrafo está alto. O fato é que as pessoas incorporam algumas entregas, mas outras elas não perceberam — avalia o deputado federal Jorge Solla (PT-BA).
Reservadamente, auxiliares do presidente admitem que a turbulência recente em torno de Flávio abriu espaço para que o Planalto retomasse a narrativa sobre investimentos federais e melhorias na vida da população. A avaliação dentro do governo é que a oposição tem sido obrigada a dividir atenção entre a defesa do senador e a organização da pré-campanha, enquanto Lula pode focar em apresentar as ações.
Por outro lado, a equipe do presidente tem segurado inaugurações em Minas Gerais enquanto persiste a indefinição do palanque de Lula. Com a desistência do senador Rodrigo Pacheco (PSB), o PT busca outros nomes, como Josué Gomes (PSB) e Alexandre Kalil (PDT). O presidente do PT, Edinho Silva, mantém diálogo com os dois, e o assunto deve ter uma definição nos próximos dias. Um nome próprio da legenda também não está descartado.
O estado é visto como fundamental para vitória de Lula em 2026, e a indefinição da candidatura preocupa o entorno do presidente. Ainda está em aberto, por exemplo, a presença do petista na cerimônia que vai marcar o início das atividades do Hospital Regional de Divinópolis, cidade com cerca de 240 mil habitantes.
O mesmo ocorre com a duplicação da BR-381, a “Rodovia da Morte”, e a inauguração de institutos federais no interior. A prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão (PT), também vem pedindo a presença de Lula em obras para impedir novas enchentes como a que ocorreu na cidade no início de março.
BS20260601063036.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/01/lula-acelera-inauguracoes-no-rio-e-em-sp-para-conter-pressao-na-area-da-seguranca-mas-indefinicao-em-mg-e-entrave.ghtml

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