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Imortal da Academia Brasileira de Letras, jornalista construiu uma trajetória dedicada à reportagem, à investigação e à compreensão das transformações sociais do país

Morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, o jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) Zuenir Ventura. A morte foi confirmada pela família. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, ele se tornou um dos principais nomes do jornalismo brasileiro, conhecido por transformar acontecimentos políticos, conflitos sociais e personagens marcantes do país em grandes reportagens e livros.
Uma de suas obras mais conhecidas é 1968 — O ano que não terminou, publicada em 1988. O livro revisita o Brasil e o mundo a partir dos acontecimentos daquele ano, marcado pela repressão da ditadura militar, pelas transformações culturais e pela mobilização política. A reportagem foi publicada duas décadas depois dos acontecimentos e tornou-se uma referência sobre o período, além de inspirar a minissérie Anos Rebeldes, da TV Globo.
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O próprio Zuenir dizia que 1968 havia deixado de ser apenas uma data histórica. — A sensação é de que 1968 não foi um ano, mas sim um personagem. Tanto que, 50 anos depois, continuamos falando, comentando, explicando o que aconteceu — afirmou ao GLOBO em 2018.
Outro trabalho de grande repercussão nasceu de uma investigação sobre o assassinato de Chico Mendes. Em 1989, Zuenir passou um mês apurando o crime para o Jornal do Brasil. A série de reportagens sobre o seringueiro e líder ambientalista, assassinado em dezembro de 1988, venceu os prêmios Esso e Vladimir Herzog de Jornalismo. Anos depois, o material foi ampliado e publicado em livro como Chico Mendes — Crime e castigo, em 2003.
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A desigualdade social e a violência urbana também estiveram no centro da produção de Zuenir. Em Cidade partida, publicado em 1994, o jornalista voltou sua atenção para Vigário Geral, na Zona Norte do Rio, onde uma chacina havia deixado 21 mortos no ano anterior.
Para escrever o livro, ele visitou diversas vezes a comunidade e acompanhou moradores e organizações da sociedade civil que atuavam contra a violência. A obra retratou as barreiras socioeconômicas que separavam diferentes partes da cidade e recebeu o Prêmio Jabuti no mesmo ano de sua publicação.
A relação de Zuenir com os acontecimentos que retratava também aparece em 1968: O que fizemos de nós, lançado em 2008. Vinte anos depois de seu primeiro livro sobre aquele período, ele voltou aos ideais e comportamentos que marcaram os chamados anos rebeldes e investigou o que havia permanecido daquela geração. A obra aborda temas como feminismo, movimento negro, movimento gay, ambientalismo, drogas e mudanças nos costumes.
A vocação para a apuração acompanhou Zuenir desde o início da carreira. Depois de começar no arquivo da Tribuna da Imprensa, ele passou por veículos como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Em 1999, tornou-se colunista de O GLOBO.
Para ele, o trabalho do repórter começava nas ruas. — Nada substitui o olho no olho. Muitas vezes, o silêncio em uma entrevista fala mais do que as palavras — afirmou em 2008 à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Em outro depoimento, ao Memória Globo, definiu a profissão como um trabalho de “garimpagem”, responsável por produzir a matéria-prima que posteriormente seria aprofundada pelos historiadores.
Em 2014, Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira deixada por Ariano Suassuna. Em 2022, recebeu o Prêmio Faz Diferença, de O GLOBO, na categoria livros, após lançar uma versão ampliada de Minhas histórias dos outros, obra em que recuperou personagens que atravessaram sua trajetória, entre eles Glauber Rocha, Nelson Rodrigues, Betinho e Carlos Drummond de Andrade.
Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura.
BS20260922131303.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/09/22/luto-no-jornalismo-zuenir-ventura-de-chico-mendes-a-1968-deixa-legado-sobre-o-brasil.ghtml

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