CULTURA

Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker celebram em disco os 60 anos dos ‘Afro-sambas’, de Baden Powell e Vinicius de Moraes

24 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

Dupla convidou para o registro de clássicos como ‘Berimbau’, ‘Consolação’ e ‘Canto de Ossanha’ nomes como Ney Matogrosso, Roberta Sá, Juliane Gamboa, Fabiana Cozza e Yamandu Costa

Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker — Foto: Divulgação/Guilherme Ligiero

Foi em 2013, no centenário de Vinicius de Moraes, que Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker interpretaram pela primeira vez os afro-sambas, termo que o poeta usou para definir um grupo de composições feitas com Baden Powell. Nestes 13 anos, o cantor e o violonista apresentaram várias vezes o repertório sem que o impacto no público deixasse de ser forte.

— Está no inconsciente coletivo. É impressionante como algumas músicas despertam emoções profundas — diz Sacramento.

Os dois, agora, lançam o álbum “Afro-sambas 60 anos — Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker” (Biscoito Fino), marcando as seis décadas do disco que Baden e Vinicius gravaram, pelo selo Forma, com arranjos de Guerra Peixe e participação do Quarteto em Cy.

O então LP, depois lançado em CD, tem oito faixas. O conjunto de afro-sambas conta com três outras músicas criadas anos antes: “Berimbau”, “Consolação” e “Labareda”. Sacramento e Zé Paulo ainda incluíram “Tem dó”, também de Baden e Vinicius, mas sem acento afro. O acréscimo foi porque gostam de interpretá-la.

— Vamos considerar que seja o bônus track — brinca Sacramento.

Os afro-sambas têm melodias que Baden criou sob influência do que conhecia das tradições negras da Bahia, como a capoeira. Vinicius tinha ficado fascinado com um disco que o amigo Carlos Coqueijo lhe enviara de Salvador: “Sambas de roda e candomblés da Bahia”. Segundo escreveu na contracapa do LP de 1966, Baden passou a ouvir muito também.

— O samba sofreu mudanças revolucionárias. Desde Ismael Silva e o pessoal do Estácio, a bossa nova, e acho que os afro-sambas são um desses marcos — acredita Sacramento.

Violonista reconhecido como um dos melhores do país, Zé Paulo sempre teve Baden como uma de suas referências. Quando tocava com regularidade na antiga casa de samba Semente, na Lapa, no Rio, costumava apresentar “Berimbau”, “Consolação” e “Canto de Ossanha”.

— Eram carros-chefes. Na hora de trazer para um formato violão e voz, parti da maneira que eu tocava esse repertório. É bem influenciada pelo Baden, com mão direita forte e a sexta corda afinada em ré, em vez de mi, o que dá uma sonoridade mais aberta — explica ele.

Homenagem ao violão

O formato-base é violão e voz, mas também há percussão (de Netinho Albuquerque e Leonardo Dias) em cinco faixas. E há outras vozes e outros violões, entre estes o de Yamandu Costa em “Tempo de amor”.

— Yamandu é meu irmão, é natural que participe. E, num disco em homenagem ao Baden, ter a presença dele também é uma homenagem ao violão brasileiro — ressalta Zé Paulo.

Entre os cantores, Ney Matogrosso está em “Canto de Ossanha”, o que Sacramento diz ser autoexplicativo, por causa da força da voz de Ney. Já o motivo para Roberta Sá fazer um duo em “Canto de Iemanjá” é quase o inverso.

— A doçura da voz da Roberta foi feita para essa canção — justifica Sacramento.

A jovem Juliane Gamboa participa de “Bocoché”. E duas cantoras negras de vozes potentes também estão no álbum: Fabiana Cozza em “Tristeza e solidão” e Ilessi em “Canto de Xangô”.

Fabiana, conhecedora da cultura afro-brasileira, faz ressalvas que estudiosos também têm feito ao longo das últimas décadas.

— As melodias criadas pelo Baden carregavam um banzo, uma tristeza, uma saudade, uma rítmica que a gente não pode dizer que seja encontrada no candomblé e na umbanda com fidedignidade, mas que traduzem esse território com uma poética ímpar. Da mesma maneira, Vinicius fez uma liturgia a partir de uma ideia de alguns orixás que eles abordam — comenta a cantora. — Acho que é uma obra que precisa ser sempre revisitada, celebrada e ouvida com a atenção que a cultura do sagrado negro exige.

Ilessi já havia dividido o “Canto de Xangô” com Sacramento no Samba do Sacramento, roda que ele comanda no Centro do Rio. Ela se diz consciente das ressalvas feitas às letras de Vinicius, mas destaca o que chama de “luta política”.

— A força desses artistas fez com que determinada linguagem poética e mitológica da cultura religiosa afro-brasileira fosse, de certa forma, popularizada e circulasse num país onde há tanto racismo e intolerância em relação a essas religiões que vêm da matriz africana — aponta ela. — Essa parceria Baden-Vinicius coloca o Brasil num lugar de excelência que a gente não tem como descer o sarrafo. É uma questão de responsabilidade com o legado que esses artistas deixaram.

Sacramento tem proximidade com o universo religioso afro-brasileiro. Na infância, frequentava, além de uma igreja católica, um centro de umbanda. Filho de Logun Edé, segundo lhe disseram, diz ainda ir a terreiros.

— Minha avó contava histórias do candomblé. Para mim, esse assunto é fascinante. Embora não tenha sido iniciado, fico à vontade com esse repertório — afirma.

Do álbum, que tem produção musical de Diego do Valle e direção artística de Phil Baptiste, também participam o Trio Madeira Brasil (em “Consolação”), do qual Zé Paulo Becker é integrante, e, em “Labareda”, o trompetista Silvério Pontes e a formação que acompanha Sacramento no Samba do Sacramento.

A roda, aliás, terá edição no sábado, no Centro do Rio, ao lado do Centro Cultural Banco do Brasil. Quanto ao show dos afro-sambas, passará em outubro por Portugal, Espanha, Alemanha e França.

Para conhecer mais a história do disco de 1966, há um documentário dedicado a ele, dirigido por Emílio Domingos, disponível no Amazon Prime. Também há um álbum de Mônica Salmaso e Paulo Bellinati, de 1995, com o repertório.


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