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Exibição abre hoje ao público no Museu da Imagem e do Som (MIS) com uma grande seleção de itens e réplica do quarto da cantora

“Às vezes pareço uma menina de 10 anos e talvez tenha me tornado uma mesmo depois que te conheci”: esta frase é um dos muitos escritos à mão que compõem a exposição “Marília Mendonça — Sentimento louco”, que o Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) abre hoje, em homenagem à cantora que morreu há quase cinco anos, num acidente aéreo.
O trecho é retirado de um texto que parece ser uma carta e ocupa duas páginas (decoradas com desenhos dos Minions) de um caderno — e repete o tom íntimo e confessional que fez de Marília uma artista regravada mais de 500 vezes, segundo dados do Ecad de 2025. Esse tipo de texto se repete em diversos cadernos e agendas deixados pela cantora, conta o produtor Nelson Foerster. Por vezes, eram trechos de músicas; em outros, pensamentos e desabafos. Tudo registrado à mão, conforme o sentimento — e a criatividade — mandasse.
A letra de Marília aparece ainda em diversos outros documentos em dois andares do museu paulistano, como exercícios em inglês. Na lição, ela exercitava sua habilidade por meio de frases como “estou aqui para pegar minha medicação”, e outras expressões corriqueiras para se comunicar no dia a dia. O caderno, desta vez, tem motivos da personagem Moranguinho. Mais adiante, está o rascunho do que viria a ser “Todo mundo menos você”, canção do projeto “Patroas 35%”, com as amigas de longa data e também estrelas do sertanejo Maiara & Maraisa. Lançada, a faixa acumulou 283 milhões de views apenas no YouTube.
O rascunho foi destacado da última agenda, ou diário, de Marília, que estava com ela no momento do acidente aéreo em Piedade de Caratinga (MG) que a vitimou aos 26 anos. O mesmo caderno trazia apontamentos sobre planos de negócio de uma marca de chope da qual foi sócia. “Lembrando que o problema da venda em São Paulo não é responsabilidade de mídia”, anotou.
Com a curadoria de Isa Pessoa, junto de Foerster, a mostra propõe uma experiência imersiva, com trilha sonora, que permite um passeio pela história e trajetória de sucesso da cantora que ficou conhecida como a Rainha da Sofrência. A exposição marca uma quebra de paradigma para a própria instituição: Marília é a cantora mais jovem a ganhar uma mostra dessa magnitude no endereço, contou anteriormente ao GLOBO André Sturm, diretor do museu. É também a primeira cantora de sertanejo a alçar tal feito. Antes dela, Renato Russo (1960-1996), Rita Lee (1947-2023) e Janis Joplin (1943-1970) já tinham ganhado suas homenagens por lá.
O chamado “Skyline Marília” é uma instalação que dá início à experiência, com fotos e vídeos que mostram o tamanho do impacto de Marília na música e no streaming. O ponto tem, por exemplo, o gramofone original do Grammy Latino recebido pela cantora em 2019, na categoria de melhor álbum de música sertaneja, com “Todos os cantos”.
Mais à frente, o ambiente “Infiel — Closet” tem dezenas de roupas, sapatos e figurinos marcantes de sua carreira. Está lá, por exemplo, o look usado por Marília no Prêmio Multishow de 2019, em que performou “Some que ele vem atrás”, com Anitta. Marcante, outro item é o vestido em tons de amarelo que foi usado por ela na gravação do clipe “Tentativas”. À época, ela estava com 8 meses de gestação de seu filho Léo.
O vestido preto de flores vermelhas que aparece nos vídeos do projeto “Decretos reais” também está por lá. E há ainda seu último figurino de palco, um conjunto de paetês, usado num show na cidade de Sorocaba, no interior paulista. Ao todo, são 18 figurinos completos. Além disso, há uma seleção de bolsas, muitas de grife, que eram parte da coleção da cantora.
— É um passeio pela história dela por meio dos objetos. A maior parte dos itens estava no quarto dela e mais no sítio a que ela gostava de ir — diz Nelson. — Nas páginas que temos, é até difícil saber o que era música e o que era pensamento. A exposição ainda mostra a simplicidade, tem registros das primeiras canções dela, vídeos dela. Essa história é o puro suco do Brasil. E digo que queria ter convivido com ela, porque sua percepção dos locais, das pessoas, tudo virava música.
A criação de cenários do MIS-SP para a exposição conta com uma recriação do quarto de Marília em sua casa, em Goiânia. Com detalhes que remontam a seus gostos pessoais: dos perfumes à coleção de tiaras de cabelo. Um pouco antes, uma grande árvore cenográfica lembra a casa de Marília, ainda muito jovem, na cidade de Cristianópolis (GO), quando chegava a passar necessidades financeiras, principalmente após a morte do pai.
Na tradicional “sala oval” do MIS-SP foi montado um espaço de exibição da nova série documental em homenagem à cantora, que tem o mesmo nome da mostra e entra no Prime Video dia 16.
Há, entre os tantos registros da exposição, a dualidade de Marília. Desde a artista premiada (há diversos troféus na exposição) à jovem sensível que escrevia com canetas coloridas em cadernos com temática de desenhos. O contraste, diz o empresário Wander Oliveira, que ofereceu seu primeiro contrato de trabalho na Workshow, sua empresa, reflete sua vida real.
— Ela teve de amadurecer muito cedo. Mas isso não tirou seu lado criança, seu lado menina. Ela foi empurrada a isso, pois com 13 anos assinou seu primeiro contrato comigo. E se tornou arrimo de família, amadureceu rápido por conta de suas responsabilidades — diz Wander, que conta que a verve criativa da cantora ainda tem frutos a serem conhecidos pelo público. — Há muitas composições dela com pré-produções públicas que serão lançadas no futuro. Muitas coisas têm a cara dela e serão conhecidas com o tempo. A perda dela nos impactou muito, esperamos um pouco para aprender a conviver com a sua falta.
* Estagiária, sob supervisão de Mariana Rosário
BS20261009030100.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/10/09/roupas-originais-agenda-com-ultimas-anotacoes-e-rascunhos-de-composicoes-como-e-a-exposicao-inedita-sobre-marilia-mendonca-em-sp.ghtml

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