POLÍTICA

Mauro Mendes, ex-governador do Mato Grosso, e deputado são alvos da PF em investigação sobre desvio e lavagem de dinheiro

6 de agosto, 2026 | Por: Agência O Globo

Mendes (União) é atual candidato ao senado, e deputado federal Fábio Garcia (União) é vice na chapa da situação no estado; Esquema de corrupção teria acontecido na renegociação da dívida de R$690 milhões com a Oi, e desembargador e procurador também são investigados

Então governador do Mato Grosso, Mauro Mendes (União Brasil), discursa no Senado Federal durante evento de chefes de Executivos estaduais em prol da alfabetização infantil — Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

O ex-governador do Mato Grosso e atual candidato ao Senado Mauro Mendes (União), o deputado federal Fábio Garcia (União), vice na chapa da situação nas eleições desse ano, e o desembargador Ricardo Almeida foram alvos de uma operação da Polícia Federal, nesta quinta (6), que apura um suposto esquema de desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro. A investigação mira a renegociação da dívida do estado com a Oi. O valor original de R$ 690 milhões foi reduzido para R$ 308 milhões e há suspeita de que houve repasses indevidos, beneficiando pessoas ligadas a Mendes.

Em nota à imprensa, Mauro Mendes, que deixou o governo em março, mirando a candidatura ao Senado, informou que “confia nas investigações da Polícia Federal e irá contribuir com tudo que for requerido”, e que “aguarda com naturalidade o desdobramento da investigação, pois acredita que o caso será totalmente esclarecido”.

A Operação Heritage, como foi batizada, apura a suposta prática de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, peculato, lavagem de dinheiro e uso indevido de informação privilegiada, informou a PF.

Nesta quinta, foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), nos estados de Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará. O deputado federal Fábio Garcia (União), ex-secretário estadual da Casa Civil e indicado a vice na chapa para reeleição do governador Otaviano Pivetta, que era o vice de Mendes anteriormente, também é um alvo da operação. Outro investigado é o desembargador do TJMT Ricardo Almeida, nomeado em novembro de 2025. 

Há ainda secretários, e ao menos um procurador do estado entre os investigados. Seus nomes não foram revelados. Além da busca e apreensão, a PF pediu quebra dos sigilos bancário e fiscal, bloqueio e indisponibilidade de bens até o limite aproximado de R$ 316 milhões, proibição de saída do país com o recolhimento de passaportes, proibição de contato entre investigados, entre outras medidas cautelares.

Entenda o esquema investigado

As investigações da PF tiveram origem na análise de um acordo celebrado entre a Procuradoria-Geral do Estado (PGE-MT) e a Oi sobre uma dívida criada pelo próprio estado. Em 2024 foi assinado um acordo, depois homologado em agosto do ano passado pela Justiça de Mato Grosso, no valor de R$ 308 milhões relacionados a uma cobrança indevida de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

A disputa judicial acontecia desde 2009. Na época, a dívida era avaliada em R$ 690 milhões, mas houve a redução, após renegociação, para R$ 308 milhões. O Ministério Público estadual já havia investigado essa operação, para apurar suspeitas de pagamentos a pessoas ligadas a Mauro Mendes. O governo se defendeu dizendo que o acordo reduziu substancialmente o passivo e evitou um prejuízo ainda maior ao Tesouro estadual.

Segundo investigações iniciais, em 2024 o escritório de advocacia de Ricardo Almeida comprou os direitos creditórios da dívida com a Oi. Em seguida, apresentou ao estado uma proposta para encerrar a disputa por R$ 308 milhões. Com a formalização do acordo, os recursos foram pagos aos titulares do crédito. Esse é o foco da investigação do suposto esquema fraudulento.

Posteriormente, Ricardo Almeida foi nomeado desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, em novembro de 2025. Em outras ocasiões, ele afirmou que a aquisição dos créditos ocorreu dentro da legalidade e antes dele virar desembargador. Ele também reforçou que o acordo foi homologado e passou pelos órgãos de controle do Mato Grosso.

O rastreamento do dinheiro identificou uma sucessão de fundos de direitos creditório. A PF suspeita que esses fundos teriam sido usados para ocultar e dificultar a investigação sobre o repasse do dinheiro público.

Os pontos centrais da investigação da PF são a regularidade da cessão de crédito frente às normas da recuperação judicial e a apuração das graves denúncias de irregularidades na destinação de recursos públicos.

Há indícios de que a operação financeira tenha sido utilizada para viabilizar o desvio de recursos públicos superiores a R$ 308 milhões, mediante a utilização de estrutura financeira composta por fundos de investimento em cascata e pessoas jurídicas interpostas, com o objetivo de ocultar e de dissimular a origem, a movimentação e a destinação dos recursos.

As suspeitas podem, segundo a PF, confirmar crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada, sem prejuízo de outras infrações penais que venham a ser identificadas ao longo da investigação.

Pano de fundo político

Em Mato Grosso, essas denúncias não chegam a ser uma novidade. Em janeiro, o ex-governador Pedro Taques (PSB), também candidato a Senado e adversário do grupo político de Mauro Mendes, apresentou uma denúncia ao procurador-geral da República. Antes, ele já havia apresentado uma representação ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), questionando possíveis irregularidades na renegociação da dívida.

Em uma ação popular na justiça, Taques tentou anular o acordo, alegando, como possíveis ilegalidades, a falta de autorização legislativa para a renúncia fiscal prevista na negociação. Mas a ação foi arquivada, pois a justiça estadual decidiu que esse tipo de ação não seria o instrumento adequado para contestar um acordo homologado. 

(Com informações do G1)


BS20260806135102.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/08/06/mauro-mendes-ex-governador-do-mato-grosso-e-deputado-sao-alvos-da-pf-em-investigacao-sobre-desvio-e-lavagem-de-dinheiro.ghtml

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