POLÍTICA

Mensagens de Vorcaro a Moraes elevam tensão no STF e colocam à prova alianças entre ministros

2 de setembro, 2026 | Por: Agência O Globo

Decisão de Mendonça de levar relatório da PF ao colegiado deve provocar intensa articulação e opor na Corte alas que discordam sobre condução da investigação feita pelos agentes

O ministro André Mendonça, durante sessão do STF — Foto: Antonio Augusto/STF/05-09-2024

A série de mensagens enviadas por Daniel Vorcaro ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes instaurou um clima de tensão inédito na Corte, com direito a discussão pesada entre ministros, movimentos e pressões às vésperas da derrubada de sigilo pelo ministro André Mendonça.

Uma ala mais próxima a Moraes avalia que o STF terá de decidir sobre a validade do relatório da Polícia Federal, uma vez que a investigação de ministros tem de ser autorizada pelo colegiado previamente; do outro lado, interlocutores do relator, ministro André Mendonça, sustentam que não houve nenhum ato de investigação acerca de Moraes e que não se sabia quem era o destinatário das mensagens de Vorcaro até então. A expectativa é que esse deverá ser o principal debate entre ministros, se o presidente do tribunal, ministro Edson Fachin, levar o caso ao plenário.

Na tarde de segunda-feira, antes de Mendonça encaminhar o relatório à PGR, ele e Moraes tiveram uma conversa tensa no gabinete do relator. O encontro é visto como mais um sinal da temperatura que a discussão pode atingir quando chegar aos dez ministros.

Conforme informou a colunista do GLOBO Bela Megale, apenas os dois ministros participaram da discussão, que foi marcada por forte cobrança de Moraes sobre a forma como Mendonça, relator das investigações do Master, vinha conduzindo o caso. Moraes criticou Mendonça por “investigar ministros do STF”, conforme apurou a coluna.

Mendonça explicou o procedimento e questionou o colega de Corte sobre como ele soube do relatório, já que o documento estava sob sigilo, sem acesso nem mesmo para a PGR. Após o bate-boca, Mendonça encaminhou para a PGR o relatório.

Nas mãos de Fachin

Mendonça deve liberar o relatório para Fachin na próxima semana; depois dependerá do presidente da Corte a decisão de marcar a sessão no plenário. Mendonça defendeu que o debate no colegiado deve ser realizado de forma presencial, pública e transparente.

O principal argumento da ala ligada a Moraes é que, como não houve consulta prévia por parte da PF sobre a investigação em torno do ministro, as informações coletadas no celular de Vorcaro podem ser declaradas nulas, ou seja, sem valor para embasar eventuais atos processuais. As ponderações não têm relação com o conteúdo das mensagens, mas com a forma em que elas podem agora ser usadas. Aliados de Mendonça dizem que os investigadores apenas identificaram o interlocutor das mensagens e isso não consistiria numa apuração, mas magistrados reforçam que o nível de detalhes do relatório de 218 página da PF indicaria uma investigação profunda.

Nos bastidores, a avaliação é que ainda não existe uma maioria consolidada para definir qual destino será dado aos elementos apresentados pela PF quando o tema começar a ser debatido no plenário. Mendonça tem demonstrado a interlocutores confiança de que contará com apoio suficiente no colegiado, mas ministros e auxiliares ponderam que o cenário pode mudar diante da dimensão do caso e, sobretudo, se a discussão envolver a abertura de uma investigação que alcance Moraes.

A expectativa é de uma intensa articulação até que o processo seja efetivamente levado a julgamento. A movimentação ocorre em um momento de acirramento das relações internas.

Equilíbrio de forças

Hoje, a leitura feita por interlocutores do tribunal é de que Moraes parte de uma posição relevante dentro do colegiado. Ministros como Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes são vistos como integrantes de uma ala mais próxima dele nesse embate. A avaliação nos bastidores é que Dias Toffoli também tende a permanecer ao lado desse grupo.

Do outro lado, Luiz Fux é considerado atualmente o voto mais seguro ao lado de Mendonça. Interlocutores do relator, porém, trabalham com uma conta mais favorável e consideram que ele pode obter o apoio de outros integrantes da Corte.

É nesse ponto que entram dois votos considerados importantes para o desfecho, como Cármen Lúcia e Fachin. Ambos mantêm boa interlocução com Mendonça e, em diferentes discussões internas, são vistos como ministros que podem acompanhar posições defendidas pelo relator. A avaliação, contudo, é que esse alinhamento não pode ser automaticamente transportado para um caso de tamanho impacto sobre o próprio Supremo.

No caso de Fachin, há ainda o peso adicional da presidência. Interlocutores avaliam que sua posição poderá ser influenciada pela preocupação com a preservação da Corte e pela tentativa de impedir que a crise se aprofunde.

Nunes Marques é outro voto observado com atenção. Apesar da proximidade com Mendonça — os dois também comandam juntos o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) —, não há entre integrantes do Supremo a percepção de que seu voto esteja assegurado ao relator nesse caso. A depender dos elementos apresentados e da articulação interna, Marques também poderá se aproximar de Moraes.

A percepção é de que haverá uma disputa intensa por Cármen, Fachin e Nunes Marques, justamente os ministros capazes de alterar a correlação de forças entre os dois grupos.

Mesmo entre interlocutores que consideram possível a formação de uma maioria para impedir a abertura de uma investigação contra Moraes, existe a avaliação de que o dano provocado pelo episódio dificilmente será revertido apenas com decisão colegiada.

Pauta eleitoral

Como mostrou a colunista Bela Megale, o maior temor entre os magistrados são as consequências que as conversas trarão para o tribunal, ainda mais a cerca de um mês das eleições, quando a pauta de muitos candidatos é atacar o STF. A avaliação é que as mensagens serão usadas para implodir a imagem da Corte e que não há, pelo menos até agora, uma linha de defesa para Moraes que não seja pelo modus operandi do processo. Outro ponto de extrema preocupação é que o impeachment de ministros do STF ganhe mais na pauta de candidatos à Presidência da República.

Antes de encaminhar para a PGR o relatório da PF, Mendonça alertou Fachin sobre o teor das mensagens. Segundo a colunista Malu Gaspar, Fachin ficou preocupado com o episódio, que arrasta o Supremo para o epicentro da crise em plena campanha eleitoral.

Fachin e Mendonça se encontraram pessoalmente no último domingo em Brasília para discutir o caso. O relatório reforça um dos maiores temores de Fachin sobre o efeito das investigações do caso Master: transformar o Supremo em pauta central das eleições.

O receio de Fachin é o de que o caso contamine a eleição ao Senado, e impulsione a eleição de uma forte e influente bancada de direita.

BS20260902114212.1 – https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/09/02/mensagens-de-vorcaro-a-moraes-elevam-tensao-no-stf-e-colocam-a-prova-aliancas-entre-ministros.ghtml

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