VARIEDADES

‘Minha mãe me bateu várias vezes’: assim como Lorena, de ‘Três Graças’, veja histórias reais de pessoas rejeitadas pela família

26 de janeiro, 2026 | Por: Agência O Globo

Representantes da comunidade LGBTQIA+ contam experiências quando foram expulsos de casa e como deram a volta por cima

Assim como Lorena (Alanis Guillen) em 'Três Graças', pessoas LGBTQIA+ são expulsas de casa
Assim como Lorena (Alanis Guillen) em ‘Três Graças’, pessoas LGBTQIA+ são expulsas de casa — Foto: Arquivo pessoal e Rede Globo/ Divulgação

Antes fosse só uma história de ficção… Nos capítulos recentes da trama das nove da Globo, “Três Graças’’, Ferette (Murilo Benício) deu um show de preconceito ao descobrir que Viviane (Gabriela Loran), namorada de seu filho Leonardo (Pedro Novaes), é uma mulher trans. Antes disso, o poderoso empresário ainda foi capaz de expulsar a filha Lorena (Alanis Guillen) de casa, tudo porque ela revelou viver uma relação homoafetiva com Juquinha (Gabriela Medvedovski). Nem a dedicada mãe da jovem, Zenilda (Andréia Horta), foi capaz de evitar a tragédia familiar.

Cenas tão ou mais duras quanto essas, infelizmente, não são raridade na vida real. Gente da comunidade LGBTQIA+ enfrenta situações semelhantes ao drama vivido por Lorena.

O EXTRA ouviu quatro histórias de pessoas que, simplesmente pelo desejo de viverem e serem quem são, foram rejeitadas por suas famílias. Elas se viram sem apoio no momento que tanto precisavam, depararam-se com o preconceito em vez de receberem um abraço acolhedor.

Dankielle Paiva, Júlia Cabral, Jonathan Reis e Laylla Salless são de diferentes realidades e classes sociais. Mas ainda que cada um tenha sua vivência, um aspecto os torna semelhantes: a busca pelo respeito e a expectativa de serem amados.

Dois desses entrevistados que compartilham conosco suas histórias foram recebidos pela Casa Nem, centro de acolhimento para pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade. E outras duas retomaram a convivência familiar após brigas e desentendimentos.

Mesmo que seja impossível apagar a dor que essas pessoas já experimentaram no caminho, a gente espera que todos possam viver um final feliz.

Confira as histórias:

“Até os meus 16 anos, tentei ficar com rapazes, mas sabia que eu era diferente. Me apaixonava por meninas, achava que era errado por causa da minha família. A minha avó, muito religiosa, me levava às missas. A primeira vez que beijei uma mulher foi com 14 anos, mas fiquei muito mal e imaginava a reação dos meus parentes ao saber. Até que um namorado contou para minha mãe que eu havia terminado com ele para ficar com uma garota. Ela pegou as minhas coisas, jogou pela janela e começou a gritar: ‘Sapatão, vai chupar perereca pelo resto da vida’. Alguns saíram ao portão e me viram ser expulsa de casa. Minha mãe me bateu várias vezes na cara, dizendo que eu era ‘Maria Sapata’. Uma vizinha me acolheu por dois meses, depois fui para a casa da minha avó, até eu arrumar um emprego numa editora. Consegui alugar um lugarzinho para mim. Desde então, eu que me sustento. Oito meses depois de minha mãe me expulsar, ela, que é muito espiritualizada, entendeu minha situação, me pediu perdão e disse que me aceitava do jeito que eu sou. Hoje, nos damos superbem, e ela fala: ‘Graças a Deus você é sapatão’. Frequento a casa da família com minha namorada”, Dankielle Paiva, sushi chef, 36 anos, de Belo Horizonte.

Dankielle Paiva — Foto: Arquivo pessoal
Dankielle Paiva — Foto: Arquivo pessoal

“Sempre fui muito próxima da minha mãe. Nunca foi um problema falar para ela sobre a minha sexualidade, já que, além de pansexual, também sou uma pessoa não monogâmica. Mas sempre escolhi não expor situações, porque eu sabia que poderia gerar um espanto nela, que ainda tem uma cabeça muito fechada e é bem conservadora. Em outubro, chamei meus amigos, inclusive uma pessoa não-binária, para pintar nossa casa. No dia seguinte, minha mãe me ligou falando coisas sem cabimento em relação às mudanças que fizemos em casa. Vieram muitos xingamentos, como ‘idiota’ e ‘imbecil’. Ela disse que me relaciono com pessoas erradas, e disparou: ‘não sei mais o que tenho que engolir para você sair de casa’. Peguei minhas coisas e saí de casa, chateada. Meses depois, ela me pediu desculpas e pontuou que disse aquilo por causa da minha orientação sexual. Eu a perdoei. Como já sou uma pessoa que me sustento, consegui me reerguer e me impus. Afirmei: ‘Nossa relação só vai existir se você me respeitar’. A gente tem voltado a se relacionar, mas ela sempre pisando muito em ovos”, Júlia Cabral, musicoterapeuta, 23 anos, de São Gonçalo.

Júlia Cabral — Foto: Arquivo pessoal
Júlia Cabral — Foto: Arquivo pessoal

“Quando eu tinha 10 anos, fui morar com minha avó depois que minha mãe morreu. Anos depois, me assumi como mulher trans para a família, mas como eles eram crentes, falavam que não podiam me chamar pelo nome Laylla, porque eu nasci homem. Diziam que isso não é de Deus, que eu iria para o inferno. Fui rejeitada e expulsa de casa. Tive que entrar pra escola da rua e já fiz programa. Não queria, mas minha fome falava mais alto, então eu não tinha outra escolha. Atualmente, só falo com uma tia e duas irmãs, que também são da igreja, mas me aceitam e me respeitam. Do resto, não quero nem saber se estão vivos. É doloroso demais ser sozinha, prefiro me afastar da família. Nós, mulheres trans, passamos por transfobia todos os dias. Somos vistas como marginais, mas também somos resistência, por mais que tentem nos derrubar. Após ser acolhida pela Casa Nem, posso organizar minha vida e planejar um futuro feliz, porque eu mereço. Sonho ser modelo e atriz. Minha inspiração é a Regina Casé, gosto muito dela”, Laylla Salless, desempregada, 18 anos, Jardim América.

Laylla Salless — Foto: Arquivo pessoal
Laylla Salless — Foto: Arquivo pessoal

“Fui criado por uma mãe preta que escolheu trabalhar mais e conviver menos comigo. Ela não conversava, me agredia. Virei um jovem revoltado. Com 10 anos, beijei uma menina pela primeira vez. Minha mãe ficou sem reação e, depois de dois anos, resolvi dizer que era bissexual, para o clima ficar mais leve. Mas ela disse que ia orar por mim, enquanto meu pai dizia que ia me espancar. A minha avó não aceitava e falava que ‘era coisa do inferno’, já que é evangélica. Com o tempo, percebi que gostava de ser chamado de ele. Fui ameaçado de todas as formas. Meu padrasto me botou na rua, e como ele praticamente bancava a medicação da minha mãe, ela aceitou que me pusesse pra fora. Não me aceitavam por eu ser um homem trans. Fiquei perturbado. Me agredia e me cortava. Eu só queria ser feliz e ser amado. Pedia socorro e não tinha ninguém para me ajudar. Depois de também ser expulso da casa do meu pai, fui acolhido na Casa Nem e consegui me reerguer. Hoje, me tornei palestrante e um homem trabalhador. Depois de tudo, voltei a falar com meus pais. Minha mãe disse que não queria saber de mim, e meu pai, que é problema meu. Eles continuam me chamando de filha”, Jonathan Reis, palestrante, 18 anos, do Complexo do Chapadão.


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