Ministério da Saúde retoma 2º reforço da vacina contra a pólio com dose injetável; entenda a mudança
23 de junho, 2026
| Por: Agência O Globo
Aplicação será indicada aos 4 anos após estudos evidenciarem a importância de um reforço na fase pré-escolar
Primeiro dia da campanha de vacinação infantil contra a poliomelite. — Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
O Ministério da Saúde vai retomar, a partir de 3 de agosto, a aplicação de uma segunda dose de reforço da vacina contra a poliomielite entre crianças com 4 anos. A imunização será feita usando a a vacina injetável, assim como no esquema inicial de três doses, aos 2, 4 e 6 meses, e no primeiro reforço, aos 15 meses.
Até 2024, o esquema vacinal contra a poliomielite, doença infecciosa também conhecida como pólio ou paralisia infantil, era composto pelas três doses iniciais da vacina injetável seguidas por dois reforços com a vacina oral, a famosa “gotinha”, feitos também aos 15 meses e aos 4 anos.
No entanto, naquele ano, a pasta deu início a um processo para tornar a imunização contra a pólio exclusivamente injetável, seguindo recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Com isso, substituiu os dois reforços com a “gotinha” por um reforço único injetável aos 15 meses.
Agora, porém, o ministério decidiu reintroduzir o segundo reforço após discussões na Câmara Técnica Assessora em Imunizações (CTAI), grupo independente que orienta a pasta da Saúde, que contou com representantes de sociedades científicas, dos conselhos nacionais de secretários estaduais e das secretarias municipais de Saúde (Conass e Conasems) e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
— Nós revisamos a literatura e os dados de duração de proteção e vimos que a última dose na idade pré-escolar é importante para a manutenção da proteção por um período maior. Então essa dose aos 4 anos se mostrou necessária. Discutimos diferentes opções de esquemas, tem países que a fazem aos 7 anos, por exemplo, mas optou-se por voltar com o segundo reforço aos 4 anos — explica Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
Em nota técnica, o Ministério da Saúde diz que a retomada do segundo reforço “reafirma o compromisso assumido de envidar esforços para manter o território nacional livre da doença mediante a superação de desafios, adoção de novas tecnologias e estratégias para melhoria da cobertura vacinal”.
Diferença entre os imunizantes
A antiga vacina oral, também chamada de Sabin por ter sido desenvolvida pelo microbiologista Albert Sabin, na década de 1950, foi extremamente eficaz e simples de aplicar, tendo sido responsável pelas altas coberturas pelo mundo e por eliminar o vírus da pólio em diversos países.
Ela é feita com o vírus enfraquecido, que é seguro e eficaz para proteger o indivíduo, mas que pode ser eliminado nas fezes das crianças. Ao circular por longos períodos de tempo, especialmente em áreas de saneamento precário, esse vírus pode adquirir mutações que o permitam causar novamente a paralisia, um risco em comunidades que não tenham elevadas coberturas vacinais.
Por isso, os países têm feito a substituição da versão oral pela vacina injetável, desenvolvida pelo cientista Jonas Salk, que é feita com uma versão do vírus inativado, ou seja, morto. Com isso, não há o risco de o patógeno sofrer mutações e se disseminar.
Ainda assim, a vacina oral foi e ainda é de extrema importância. Antes da imunização em larga escala, a pólio matava ou paralisava mais de meio milhão de pessoas pelo mundo a cada ano. Desde o final da década de 1980, porém, os casos caíram 99,9%, segundo a OMS, graças à imunização.
No Brasil, entre 1968 e 1989, ocorreram 26,8 mil casos da doença. Mas, com a ampliação das campanhas de vacinação contra a pólio, que tiveram início em 1980, a última infecção foi confirmada no dia 19 de março de 1989, no município de Souza, na Paraíba, há quase quatro décadas.
Em 1994, o Brasil também recebeu a certificação de área livre de circulação do poliovírus selvagem, ou seja, a doença foi eliminada oficialmente no país. No mundo, no entanto, o vírus da pólio permanece endêmico em dois países: Paquistão e Afeganistão.
— Enquanto a doença não for erradicada, ou seja, eliminada no mundo todo, existe o risco de o vírus ser reintroduzido em qualquer país. Por isso, precisamos manter a alta cobertura vacinal. Como temos muito deslocamento hoje entre os países, essa possibilidade de reintrodução sempre existe e, se o vírus encontra pessoas suscetíveis, que não foram vacinadas, ele pode voltar a circular — explica Mônica.
No Brasil, a meta do Ministério da Saúde, de alcançar 95% de cobertura vacinal, não é alcançada desde 2016. Segundo dados do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o percentual chegou a apenas 76,8% das crianças com as três primeiras doses em 2020. No ano passado, porém, o cenário havia melhorado: 88,2% receberam o esquema básico, e 85,8% foram protegidas com o reforço.