SAÚDE

Morrer de tristeza: é possível que emoções intensas causem doenças e possam levar à morte?

22 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

EntendaComo o corpo reage a perdas significativas e por que emoções intensas mobilizam diferentes sistemas do organismo

Da síndrome do coração partido às alterações hormonais, entenda como o organismo responde ao sofrimento emocional – Foto: Nik Shuliahin – Unsplash

A ideia de “morrer de tristeza” atravessa séculos de histórias, poemas e espetáculos. Embora frequentemente associada ao universo da ficção, a expressão voltou a ganhar destaque após a morte da escritora iraniana Marjane Satrapi (56), neste mês, levando especialistas a discutir os efeitos que perdas profundas podem ter sobre o organismo.

Embora a expressão “morrer de tristeza” tenha origem popular, ela encontra respaldo na ciência moderna. A cardiologista Priscilla Hallack, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), explica que o sofrimento emocional intenso pode desencadear respostas biológicas capazes de afetar diretamente o sistema cardiovascular.

– Hoje sabemos que emoções intensas, como luto, perda, rejeição ou sofrimento psicológico profundo, podem desencadear alterações biológicas capazes de afetar diretamente o sistema cardiovascular. Em indivíduos mais vulneráveis, essas respostas podem precipitar eventos graves, como infarto, arritmias e até insuficiência cardíaca aguda – afirma.

Segundo Hallack, diante de uma experiência emocional extrema, o organismo entra em estado de alerta. O cérebro ativa mecanismos de sobrevivência que levam à liberação de grandes quantidades de adrenalina e outros hormônios relacionados ao estresse, como o cortisol, a adrenalina e a noradrenalina.

Como consequência, há aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, maior consumo de oxigênio pelo coração e alterações inflamatórias e vasculares.

– Em determinadas circunstâncias, essa reação pode ser tão intensa que provoca uma disfunção transitória do músculo cardíaco, demonstrando que emoções e coração estão profundamente conectados – explica.

Entre as condições mais associadas ao estresse emocional intenso está a cardiomiopatia de Takotsubo, conhecida popularmente como síndrome do coração partido. A médica explica que o quadro é caracterizado por um enfraquecimento súbito e temporário do músculo cardíaco após um evento emocional ou físico marcante.

– Os sintomas costumam ser idênticos aos de um infarto: dor no peito, falta de ar e sensação de mal-estar intenso. A diferença é que, na maioria dos casos, não existe uma obstrução significativa das artérias coronárias – afirma.

De acordo com a cardiologista, a síndrome do coração partido ocorre predominantemente em mulheres após a menopausa. Apesar de ser mais frequente nesse grupo, quando acontece em homens costuma estar associada a maior gravidade clínica.

– Acredita-se que a redução dos níveis de estrogênio diminua parte da proteção cardiovascular feminina contra os efeitos das catecolaminas (hormônios e neurotransmissores produzidos pelo cérebro e pelas glândulas suprarrenais) liberadas durante situações de estresse extremo – explica.

Causa indireta

A tristeza, por si só, não aparece como causa direta de morte. Mas, indiretamente, sim. De acordo com o psiquiatra Ciro Jorge do Nascimento, que atua em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), uma pessoa em quadro de tristeza constante passa a ter, a longo prazo, alterações cerebrais e físicas, com mudanças nos neurotransmissores, aumento do cortisol, alterações gastrintestinais e perda ou ganho de peso.

Essas alterações no sistema nervoso central refletem também em todo o corpo, com sintomas como taquicardia, hipertensão, aumento da glicemia, gastrite, úlceras gástricas, diarreia e até mesmo alguns tipos de câncer.

Quando ouvimos que alguém “morreu de tristeza”, estamos diante de uma frase que mistura poesia e ciência. A ciência não confirma a expressão literalmente, mas reconhece que emoções profundas podem exercer efeitos reais, mensuráveis e, em alguns casos, graves sobre o coração.

A relação entre sofrimento emocional e morte também aparece na arte. No balé Giselle, apresentado pela primeira vez em 1841, a protagonista morre após descobrir que foi enganada pelo homem por quem se apaixonou. A obra é uma das representações mais conhecidas da associação entre desilusão amorosa e morte.

Mais vulneráveis

Para Rodrigo Leite, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da FMUSP, existe um conjunto de fatores de vulnerabilidade, mas não um “perfil” rígido para desenvolver problemas físicos após uma perda. Pessoas idosas, viúvas ou viúvos com poucos vínculos, pacientes com doenças cardiovasculares, indivíduos com depressão prévia, isolamento social, pobreza, insônia crônica, histórico de trauma ou uso de substâncias podem apresentar maior risco. Cuidadores que passaram meses ou anos acompanhando uma doença grave também podem adoecer após a morte: durante o cuidado, funcionavam em modo de urgência; depois, quando tudo silencia, o corpo cobra a conta.

Outro grupo vulnerável é o das pessoas cujo sentido de vida estava muito concentrado em uma única relação. Quando o vínculo perdido sustentava a rotina, a identidade e a sensação de futuro, o luto pode produzir uma espécie de colapso existencial. Muitas relações amorosas profundas têm essa dimensão de mundo compartilhado. A questão clínica é quando a pessoa perde a capacidade de continuar existindo para além da perda.

Luto e rejeição

O luto é um processo natural que envolve cinco fases. O enlutado pode passar por uma, duas ou por todas elas; não há regras. O esperado é que esse processo perdure por, no mínimo, seis meses e, no máximo, 12 meses, sem causar prejuízos funcionais severos. Uma vez que a evolução não esteja dentro desse esperado, é indicado buscar acompanhamento profissional.

Assim como a perda de um ente querido, a rejeição amorosa, como o término de um relacionamento, também representa uma forma de luto. Em ambos os casos, o indivíduo pode passar pelas cinco fases do luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.

O cérebro humano é profundamente social. Os vínculos afetivos participam da regulação do medo, do prazer, da segurança e até da percepção corporal. Por isso, a separação afetiva pode ser vivida como dor real.

– Não se trata de “drama” ou fraqueza. Ao mesmo tempo, é impreciso dizer que rejeição e dor física são simplesmente a mesma coisa no cérebro. Elas compartilham alguns circuitos e linguagens corporais, mas têm mecanismos próprios. O luto envolve ausência definitiva, memória autobiográfica, reorganização da identidade e adaptação a um mundo sem aquela pessoa. A rejeição amorosa pode envolver abandono, humilhação, esperança de retorno e ameaça à autoestima. Ambas doem; não doem sempre do mesmo modo – afirma Leite.

Não há estatísticas precisas sobre a morte decorrente de tristeza. Mas alguns números ajudam a pintar o cenário. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), a taxa de mortalidade durante a internação por síndrome de Takotsubo varia entre 2,4% e 4,1%. Após a alta hospitalar, a mortalidade anual é de 3,5%, segundo dados do registro nacional da entidade.

Os números mostram ainda uma diferença importante entre homens e mulheres. Embora a síndrome seja mais frequente entre elas, os homens apresentam maior risco de morte. A taxa de mortalidade chega a 11,2% entre pacientes do sexo masculino, enquanto entre as mulheres é de 5,5%, o que representa aproximadamente o dobro do risco.

– A mortalidade raramente tem uma única causa. Emoções intensas podem participar de uma cadeia causal, junto com genética, doenças prévias, acesso a cuidados, sono, comportamento, uso de substâncias, suporte social e acaso biológico. O desafio é reconhecer a força real da dor emocional sem reduzi-la a uma explicação romântica ou fatalista – ressalta o psiquiatra.

Como ajudar

A primeira recomendação para quem está próximo de pessoas que enfrentam tristezas agudas é não tentar consertar a dor. Frases como “você precisa ser forte”, “ele não gostaria de te ver assim”, “já passou”, “você precisa seguir em frente” costumam aumentar a solidão. Melhor dizer: “eu estou aqui”, “não sei exatamente o que dizer, mas quero ficar perto”, “posso te ajudar com algo prático hoje?”, “quer que eu vá com você ao médico?”, “você conseguiu comer?”.

– A ajuda mais efetiva combina presença emocional e suporte concreto. É útil organizar uma rede, porque no início todos aparecem e depois a pessoa pode ficar abandonada. Também devem observar sinais de risco e, quando necessário, ajudar a buscar atendimento profissional, sem tratar isso como fraqueza – conclui Rodrigo.

* estagiária sob supervisão de Adriana Dias Lopes



BS20260622073033.1 – https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2026/06/22/morrer-de-tristeza-e-possivel-que-emocoes-intensas-causem-doencas-e-possam-levar-a-morte-entenda.ghtml

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