Motta e Alcolumbre intensificam articulação para reeleição no Congresso e contam com apoio de Lula
27 de outubro, 2026
| Por: Agência O Globo
Presidente da Câmara constrói bloco, e PT se reúne nesta terça para definir posição; chefe do Senado enfrenta mais pressão diante do crescimento do PL
Hugo Motta, Lula e Davi Alcolumbre – Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), vão aumentar a ofensiva política junto aos parlamentares buscando a recondução no comando do Congresso a partir de agora, passada a eleição presidencial. Com o resultado de domingo, uma virada que deu a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um quarto mandato, a expectativa é que os dois políticos consigam amarrar o apoio do governo nos próximos dias.
Motta e Alcolumbre se reuniram com Lula já na tarde desta segunda-feira, no Palácio da Alvorada, em Brasília. Os dois estavam na capital federal desde domingo, onde acompanharam a apuração dos votos na residência oficial da Câmara com outros parlamentares. Após o resultado ter sido proclamado, os dois políticos fizeram um pronunciamento à imprensa reconhecendo a vitória do petista. No entorno do petista, os parlamentares são considerados aliados. Esses interlocutores reconhecem que a participação deles para destravar votações de interesse do Palácio do Planalto às vésperas da eleição foi importante e deverá ser reconhecida.
Diante da composição do Congresso a partir do próximo ano, com aumento da direita bolsonarista nas duas Casas, a avaliação de aliados do presidente é que é preciso buscar a recondução dos dois para garantir uma interlocução com a cúpula do Congresso neste quarto mandato. Os dois não aderiram à posição de seus respectivos partidos, União Brasil e Republicanos, de declarar apoio a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno. Com isso, deverão ter influência na indicação de aliados para a Esplanada petista.
Os dois presidentes estão fazendo articulações com partidos ao mesmo tempo em que buscam individualmente os parlamentares. Na mesa aparecem propostas como gabinetes no Congresso e apartamentos funcionais; relatorias de projetos importantes; espaço em comissões; lugar na Mesa Diretora e, até mesmo, a repartição das emendas parlamentares. A expectativa de aliados dos dois congressistas é que a Presidência sob Lula poderá ajudá-los na tarefa de se reelegerem.
Motta conseguiu apoio de 13 partidos até o momento, isolando o PL. Além de amarrar o bloco partidário que lhe dá sustentação interna na Casa —formado por União Brasil, PP, PSD, MDB, Republicanos, PSDB, Cidadania, Podemos, Solidariedade e PRD—, o deputado viu PDT, PSB e PV anunciarem que caminharão com ele na eleição do próximo ano. Nesta terça, a bancada do PT promove encontro com os deputados e os novatos, que terão mandatos a partir do próximo ano, para discutir questões internas e também o provável apoio a Motta.
—A bancada vai definir sobre como se posicionará na eleição da Mesa Diretora. Eu, pessoalmente, vou defender o apoio ao presidente Hugo Motta. Essa é uma disputa que vale a lógica interna da Câmara— afirma o deputado Rubens Pereira Júnior (PT-MA), um dos vice-presidentes do partido.
Além das costuras partidárias, o presidente da Câmara deverá intensificar, a partir de agora, o contato individual com os deputados, focando nos novatos que terão seu primeiro mandato a partir de fevereiro. Ele já destacou aliados para cuidarem dessa aproximação e, inclusive, recebeu alguns deles para conversas na residência oficial da Presidência da Câmara.
Apesar dessa ofensiva de Motta, essa formação desse arco partidário não garante a adesão total desses deputados ao nome do deputado. A eleição é secreta, ou seja, não é possível conferir como votou cada parlamentar. O líder do PL, Sóstenes Cavalcante (RJ), apontado como possível candidato do partido para enfrentar Motta, divulgou em lista de transmissão no WhatsApp uma publicação de um parlamentar recém-eleito pelo Podemos declarando que não aceita o acordo e não votará no atual presidente.
PL prioriza Senado
O PL, no entanto, deixou claro que a prioridade é conseguir o comando do Senado. Nesse sentido, parlamentares do partido admitem que podem negociar apoiar o centrão na Câmara para conseguir apoio do grupo numa candidatura ao Senado —cenário que fica mais difícil diante da vitória de Lula.
A situação de Alcolumbre é considerada mais delicada por aliados do parlamentar. O senador viu seu grupo político no Amapá ser derrotado e passou a ser pressionado pela direita por não avançar com pautas que miram o Judiciário, principalmente, os pedidos de impeachment contra ministros da Corte. Durante a campanha eleitoral, o PL exigiu que seus candidatos ao Senado já declarassem que, caso eleitos, não votariam em Alcolumbre para presidente da Casa.
Nos bastidores, aliados de Alcolumbre dizem que o parlamentar buscava sua “sobrevivência” na vitória de Lula. Um senador próximo do presidente do Senado afirma que pesa a favor do aliado sua habilidade política e carisma, podendo atrair até mesmo oposicionistas. Diz ainda que ao longo dos anos, o senador conseguiu manter uma base de sustentação própria, com parlamentares de todos os partidos, e, dessa forma, é possível conseguir votos dentro do PL.
A articulação feita por Alcolumbre para garantir a aprovação de pautas do pacote eleitoral de Lula reforçaram a aliança dele com senadores da base governista e sinalizaram que, mesmo diante do cenário de ter sua influência enfraquecida com a eleição de 28 senadores do PL, que articulam Rogério Marinho (PL-RN), como candidato a presidente do Senado, o atual chefe da Casa Legislativa ainda tenta mostrar que tem influência sobre o plenário da Casa.
Alcolumbre aposta em uma aliança com senadores de partidos do Centrão que são próximos dele, do PT e outras siglas da base de Lula, como PSB e PDT, para seguir no cargo, o que daria a ele uma base de 33 parlamentares.
O número é um pouco maior que os 31 senadores que o PL e o Novo, que rejeitam qualquer acordo com Alcolumbre, terão a partir do ano que vem. O cenário é desafiador para o presidente do Senado porque estarão também em disputa os votos das bancadas do PP, Republicanos, Podemos e PSDB, que somam 16 parlamentares.
Soma-se ao cenário de dificuldade o fato de o voto ser secreto e a possibilidade de senadores votarem contra o parlamentar do União Brasil mesmo se ele fechar acordo com os partidos deles.