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Com quase quatro décadas de profissão, repórter passou por grandes jornais, tornou-se referência na cobertura dos bastidores da CBF e conquistou colegas pela generosidade

Nas entrevistas coletivas da seleção brasileira, havia um momento em que os jornalistas deixavam de prestar atenção apenas nas respostas para acompanhar o caminho do microfone. Bastava perceber que ele estava chegando às mãos de Sílvio Barsetti para surgir um discreto burburinho entre os colegas. Todos sabiam que vinha uma pergunta incômoda, provavelmente a mais difícil e divertida daquela entrevista, e quase sempre uma das mais interessantes. Do outro lado, técnicos como Dunga, pouco afeitos ao contraditório, e dirigentes da CBF também já conheciam o estilo do repórter. Barsetti tinha o talento de transformar em perguntas aquilo que muitos preferiam deixar nas conversas de bastidores. Era incisivo com as fontes, rigoroso com a informação e, ao mesmo tempo, um dos companheiros mais afetuosos que se poderia encontrar numa redação ou numa viagem de trabalho. O jornalista morreu, aos 61 anos, na madrugada desta terça-feira (13), após o agravamento de um câncer.
Formado pela Faculdade Hélio Alonso em 1988, Barsetti começou a carreira no Jornal dos Sports, quando ainda se discutia quem assumiria a presidência da Confederação Brasileira de Futebol após Giulite Coutinho. Acompanhou, como jovem repórter, os movimentos que levariam Ricardo Teixeira ao comando da entidade, em 1989, e continuaria cobrindo seus bastidores durante boa parte das décadas seguintes. Trabalhou também no Jornal do Brasil e em O Dia, antes de construir uma longa trajetória no Estado de S. Paulo, onde permaneceu por cerca de 20 anos, como repórter e editor de Esportes. Mais tarde, escreveu para o portal Terra. Cobriu Copas do Mundo, Jogos Olímpicos, eleições de dirigentes, crises institucionais e alguns dos capítulos mais importantes da história recente do futebol brasileiro.
Uma de suas reportagens mais marcantes foi publicada em abril de 2010, quando antecipou que o Morumbi seria excluído da Copa do Mundo de 2014. A informação contrariava os planos de dirigentes do São Paulo e de autoridades públicas, que se apressaram em desmenti-la. Até a Fifa negou inicialmente a notícia. Sílvio sustentou a apuração, construída a partir de conversas com Ricardo Teixeira, e a confirmação oficial veio dois meses depois. O trabalho lhe rendeu o Prêmio Estado de Jornalismo daquele ano, na categoria reportagem. Anos mais tarde, ainda recordaria, entre o humor e o sofrimento, a sucessão de desmentidos que precisou enfrentar. Era uma história que sintetizava seu método de trabalho, feito de insistência, conhecimento dos bastidores e disposição para sustentar uma informação mesmo quando quase todos pareciam dispostos a desacreditá-la.
Nas coletivas da seleção, essa mesma disposição se traduzia em perguntas que raramente ofereciam uma saída confortável ao entrevistado. Sílvio conhecia como poucos as contradições do discurso oficial e pertencia a um tempo em que o microfone ainda percorria a sala com alguma liberdade, inclusive para chegar aos profissionais de quem se esperavam os questionamentos mais difíceis. Mais tarde, ele próprio relataria situações em que passou a ser evitado nas entrevistas da CBF. Em 2018, numa conversa com o podcast Vida de Jornalista, explicou sua maneira de encarar o ofício ao lembrar a derrota do Brasil por 7 a 1 para a Alemanha, em 2014. Para ele, diante de um desastre esportivo daquela dimensão, não havia espaço para suavizações. “A pergunta tem que ser um pouco amarga, com gosto de jiló cru”, resumiu.
A firmeza com as fontes, contudo, contrastava com a maneira como tratava as pessoas ao redor. Nas redações, nos aeroportos e nas intermináveis esperas que fazem parte da rotina de quem acompanha o futebol, Barsetti era um colega de ótimo convívio, generoso com os mais jovens e sempre disposto a compartilhar histórias de uma profissão que conhecia profundamente. Tinha experiência e prestígio suficientes para impor distância, mas preferia a proximidade, aproximando-se de quem estava começando com a mesma curiosidade e disposição para conversar que levava às reportagens.
Foi assim que o conheci, em 2011, num avião voltando de Goiânia, na primeira viagem que fiz para cobrir um jogo da seleção brasileira. Por acaso, nossas poltronas eram lado a lado. Eu estava no meu primeiro ano de profissão, enquanto Sílvio já atravessava a terceira década de uma carreira respeitada, com histórias suficientes para ocupar muito mais do que as poucas horas daquele voo. Conversamos sobre jornalismo e redações até que, a certa altura, resolveu brincar com o futuro do jovem colega: “Daqui a pouco você tá mandando em todo mundo, até em mim”. A frase poderia ter ficado naquele avião, mas Sílvio fez questão de relembrá-la nos nossos encontros ao longo dos 15 anos seguintes. Era uma de suas maneiras carinhosas de cultivar amizades.
O interesse de Barsetti pelo poder também o levou a explorar outros territórios do jornalismo. Em 2018, lançou A Farra dos Guardanapos: O último baile da era Cabral, livro-reportagem sobre a célebre festa realizada em Paris, em 2009, que se tornaria um dos símbolos dos excessos do governo Sérgio Cabral no Rio de Janeiro. Quatro anos depois, publicou O outro lado do phoder, no qual investigou episódios da política brasileira a partir das relações entre prostituição e personagens do poder. Eram incursões por assuntos aparentemente distantes do futebol, mas ligados pelo interesse em compreender o funcionamento das estruturas de poder e aquilo que acontece longe dos olhos do público.
Nos últimos anos, depois de tanto tempo questionando a CBF, Sílvio passou também a trabalhar na comunicação da entidade. Em 2024, integrou a delegação da seleção brasileira feminina nos Jogos Olímpicos de Paris, como coordenador de comunicação, acompanhando a campanha que terminou com a medalha de prata. Conhecia aquele ambiente como poucos profissionais, tanto pela experiência jornalística quanto pelas relações construídas ao longo dos anos. Fora dele, alimentava outra paixão esportiva, de fidelidade pouco comum num futebol cada vez mais dominado pelos clubes de grandes torcidas. Era americaníssimo, torcedor apaixonado do América do Rio, clube que fazia questão de defender.
A morte de Sílvio Barsetti tira do jornalismo esportivo brasileiro um profissional que atravessou transformações profundas na cobertura da seleção, na relação entre imprensa e dirigentes e nas próprias redações. Deixa reportagens importantes, livros e uma coleção de histórias que continuarão circulando entre os amigos. Para os colegas que conviveram com ele, permanecerão também as lembranças das conversas sem pressa, do humor e dos gestos de generosidade de quem sabia que o jornalismo é feito tanto das perguntas que se fazem às fontes quanto das relações que se cultivam ao longo da vida. Sílvio era especialmente bom nas duas coisas.
BS20261013140919.1 – https://extra.globo.com/esporte/noticia/2026/10/obituario-morre-silvio-barsetti-jornalista-que-fez-das-perguntas-incomodas-uma-marca-de-sua-carreira.ghtml

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