Oncoclínicas: processo de recuperação extrajudicial não afeta atendimento aos pacientes de câncer, diz empresa
15 de julho, 2026
| Por: Agência O Globo
Rede de clínicas oncológicas vive crise financeira há meses. Cenário já fez tratamentos de pacientes de planos de saúde ser adiado, mas companhia descarta novos problemas
Oncoclínicas encerrou 2025 com prejuízo de R$ 3,67 bilhões — Foto: Reprodução
O plano de recuperação extrajudicial da Oncoclínicas, que tenta reestruturar um passivo de R$ 5,1 bilhões, é mais um capítulo na crise financeira e de governança que vive a rede de clínicas oncológicas.
No auge dos problemas, pacientes de câncer chegaram a ter atendimentos e sessões de quimioterapia, radioterapia e imunoterapia suspensos por falta de medicamentos. Agora, porém, a empresa descarta impactos aos usuários em meio ao processo de reestruturação financeira.
Ao todo, o plano inclui 795 credores. A lista de dívidas da rede de clínicas oncológicas inclui principalmente operações de financiamento via bancos e mercado de capitais, faturas em aberto com fornecedores de medicamentos e também valores relativos a fusões e aquisições, um dos caminhos que a empresa seguiu nos últimos anos para crescer.
A recuperação não abrange custos operacionais atuais da rede de clínicas, ou seja, apenas débitos já vencidos com fornecedores de medicamentos e insumos foram incluídos no plano. Valores relativos a médicos, enfermeiros e outros funcionários também ficaram de fora. Desse modo, segundo a empresa, os atendimentos aos pacientes continuam normalmente durante o processo.
— A empresa ganha fôlego com a recuperação, que cobre só a dívida financeira, sem a operação do dia a dia. A empresa sinaliza ao mercado que continua funcionando, e que não quer repetir o que aconteceu em março — ressalta Caroline Sanchez, analista Caroline Sanchez, da Levante Inside Corp, lembrando quando, no auge da crise, os atendimentos aos pacientes que foram suspensos por falta de medicamentos.
A companhia formalizou o processo de reestruturação na segunda-feira. Em fato relevante enviado ao mercado ontem, a empresa destacou que credores donos de 37% da dívida abrangida aderiram ao plano.
O patamar é suficiente para a abertura do processo. Nos próximos 90 dias a empresa terá que alcançar a aprovação de 50% dos credores para que o plano de reestruturação seja homologado pela Justiça.
Juntos, a securitizadora Opea, a corretora Pentágono DTVM e a administradora de fundos Oliveira Trust concentram mais de R$ 3 bilhões em créditos. Já entre os fornecedores, a distribuidora de medicamentos OncoProd tem o maior montante a receber, R$ 1,02 bilhão, enquanto Santander, Itaú e Banco Votorantim se destacam entre as instituições financeiras.
A fatia de 37% das dívidas cujos credores já concordaram com o plano de recuperação é devida a três credores financeiros que operacionalizaram operações de financiamento à Oncoclínicas. A securitizadora Opea lidera a lista, com R$ 1,68 bilhão pela emissão de debêntures.
O Santander aparece em seguida, com R$ 114 milhões de um empréstimo concedido à rede oncológica. Há ainda um fundo de investimentos, representado pela Pentágono S.A DTVM, que é dono de R$ 64,8 milhões em debêntures da Oncoclínicas. Já com o Banco Votorantim, os débitos somam R$ 44, 3 milhões em títulos de dívida emitidos pela instituição financeira.
‘Fatores internos e externos’
A recuperação extrajudicial foi a solução adotada pela empresa “antes que medidas individuais e descoordenadas por parte de credores pudesse agravar a situação econômico-financeira” da companhia, argumentou a Oncoclínicas no processo levado ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), ao qual O GLOBO teve acesso.
Entre as causas para a crise de caixa, a empresa elenca “fatores internos e externos”, como a expansão acelerada das atividades e a “deteriorização do ambiente macroeconômico”, como taxas de juros em patamar elevado.
O plano de recuperação, segundo a companhia, poderá envolver medidas como a injeção de recursos pelos acionistas, a conversão de parte das dívidas em ações da empresa, a renegociação de alguns dos débitos por novos empréstimos e a ampliação do prazo para pagamento aos credores.
— O que foi proposto, na realidade, não são medidas específicas, mas um plano ainda a ser negociado com os credores e que deverá ser apresentado detalhadamente nos próximos 45 dias — explica Felipe Corrêa, sócio do escritório Basilio Advogados.
O grupo também informou que, como parte da reestruturação, rescindiu contratos que previam a abertura de uma clínica em São Paulo e a construção de um hospital em Goiânia.
Proteção contra credores
Em meados de junho, terminou o período de 60 dias de proteção contra credores que a companhia conseguiu na Justiça em abril, após divulgar que encerrou 2025 com um prejuízo de R$ 3,67 bilhões e com a dívida fora das condições previstas em contrato com os credores.
O tolerado era uma alavancagem de até 3,5 vezes o Ebitda (lucro antes de juros, imposto, depreciação e amortização). O indicador mostra o quanto uma empresa depende de dívida para financiar suas operações: quanto mais elevado, maior o risco financeiro. Na Oncoclínicas, a alavancagem ficou em 4,3 vezes.
Na época, direção da Oncoclínicas falou em “incerteza quanto à continuidade operacional”. Uma das causas citadas para o agravamento do quadro foi a inadimplência da Unimed Ferj, que somou R$ 861 milhões. Segundo a operadora, esse valor já foi negociado. Outro fator apontado foi a liquidação extrajudicial do Banco Master. Isso porque a empresa investiu cerca de R$ 478,2 milhões em Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) do banco de Daniel Vorcaro.
— Houve eventos extraordinários como esses, mas também problemas de gestão, uma série de decisões ruins, um crescimento agressivo muito alavancado e uma dependência grande de poucas operadoras (de planos de saúde) — pondera Caroline, da Levante.
Briga por oferta pública de ações
Paralelamente, acionistas minoritários pressionam por uma oferta pública de aquisição (OPA) de cerca de R$ 6 bilhões. O pedido é para obrigar a gestora americana Centaurus a pagar aos acionistas um valor superior a R$ 16 por ação, que hoje vale R$ 0,77 na Bolsa.
A origem do caso foi a reorganização da fatia do Goldman Sachs na Oncoclínicas, concluída em novembro de 2024. O fundo da Centaurus passou a deter mais de 15% da companhia, um dos gatilhos para a realização da OPA, segundo o estatuto da empresa.
Como mostrou a coluna Capital, os técnicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) são contra a OPA, mas a decisão caberá ao colegiado do órgão.
— Se a CVM entender que a OPA precisa ser feita, isso não interfere na recuperação extrajudicial, e vice-versa, mas obviamente há um impacto financeiro, porque a empresa terá que encontrar recursos para pagar os minoritários — analisa o advogado João Basilio.