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Para voltar às competições, Rebeca Andrade recomeça ‘do zero’; ginasta estará no Pan-americano e sonha com Mundial

15 de junho, 2026 | Por: Agência O Globo

Foi dela a decisão de passar por todo o processo, muitas vezes doloroso, para chegar novamente ao alto rendimento

A ginasta brasileira Rebeca Andrade conquistou a medalha de ouro nas Olímpiadas de Paris 2024. Foto: Alexandre Loureiro / COB.

Após “recomeçar do zero”, a ginasta Rebeca Andrade, de 27 anos, está de volta às competições. A maior medalhista olímpica do Brasil disputará o Campeonato Pan-americano, a partir desta segunda-feira, quando acontecerá o Treino de Pódio, no Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, mesmo local onde fez sua estreia olímpica na Rio-2016.

Com o auxílio de uma equipe multidisciplinar, Rebeca, que não compete desde os Jogos Olímpicos de Paris-2024, teve de pegar pesado na fisioterapia e na recuperação muscular para voltar ao batente. A atleta teve Álvaro Margutti, fisioterapeuta das seleções de ginástica artística, no seu congote desde 5 de janeiro.

— Fiquei no cangote mesmo, intensivamente — comenta Álvaro, que além de trabalhar com ela no Centro de Treinamento da ginástica, também a atendeu na casa da atleta. — Mesmo sendo uma esportista com memória muscular, após um ano e meio parada, teve de recomeçar do zero. Perdeu força, mobilidade, agilidade, estabilidade articular… É normal. E o maior desafio era fazer essa volta sem sofrimento. Por isso fizemos de forma leve, mas com cobranças.

Segundo Álvaro, por conta das lesões e patologias crônicas, Rebeca é uma atleta que sente dores mesmo sem esforço físico. E no auge da capacidade muscular, quando conquistou quatro medalhas olímpicas, incluindo o ouro no solo, em Paris-2024, ela também controlava as dores.

Contou que ela tinha dúvidas se conseguiria voltar à boa forma se sentia dores mesmo parada, durante o período sabático. E que foi ela que manifestou o interesse em voltar às competições de olho no Campeonato Mundial deste ano e, lá na frente, na Olimpíada de Los Angeles-2028.

Assim, o planejamento para ela voltar foi especial. Foram mais de três meses exclusivos à fisioterapia, com controle de carga individualizado, quantidade de elementos a fazer por dia ou semana e exercícios vetados em um primeiro momento (como por exemplo os elementos técnicos da ginástica). Em paralelo, também teve a preparação física.

E desde então ela não parou. São dois treinos diários, de segunda a segunda (com poucas folgas). Nem mesmo durante a Olimpíada de Milão-Cortina, em fevereiro, quando foi convidada a participar da Cerimônia de Abertura, ela teve descanso. O fisioterapeuta viajou para a Itália junto com a atleta para continuar o tratamento.

Álvaro explicou que os primeiros meses foram os mais difíceis, quando ela sentiria mais dores, desconforto. Mas com o tempo, passou.

Segundo ele, o “novo despertar” para o alto rendimento no caso de Rebeca foi “facilitado” por causa da memória muscular da atleta, mesmo com limitações fisiológicas e biomecânicas. Ela tem três cirurgias de ligamento cruzado anterior no joelho esquerdo.

— Não preparamos esses atletas apenas para acertarem. Preparamos para o erro também. A estrutura precisa estar adequada para minimizar riscos de lesão — comenta Álvaro, que conta algumas curiosidades: — Ela detesta corrida. Mas a corrida para o salto tem de ser perfeita. E curte as mobilidades ativas, de quadril, tornozelo e lombar. Ela gosta de terapia manual e de treino na areia, na natureza.

Há um mês, Rebeca foi liberada para os treinamentos da parte técnica. Aos poucos foi introduzindo elementos da ginástica. Nesta fase de transição, treinava salto um dia, com até cinco execuções, incluindo os dois saltos de aquecimento, e no dia seguinte descansava. Agora já treina saltos mais dias seguidos.

— Esse Pan é só o começo, faz parte de um processo para ela chegar ao Mundial — afirma Álvaro, que agora avançou à fase da fisioterapia para recuperação. — Ela não vai se livrar de mim (risos).

Um ou dois saltos?

Segundo Francisco Porath, o Chico, técnico da seleção brasileira feminina de ginástica artística, Rebeca competirá apenas no salto e está apta a fazer dois. Mas, a definição e a estratégia de equipe serão fechadas a partir desta segunda-feira, após o Treino de Pódio, que é quando as ginastas experimentam os aparelhos oficiais da competição.

O fato do Pan-americano ser disputado no Brasil ajudou a criar essa “condição ótima de competição internacional”.

— A gente conseguiu resgatar a vontade da Rebeca de estar no ginásio. Ela está feliz, motivada, quer competir, quer mais uma Olimpíada. Ela ainda tem restrições? Tem, mas ela não precisa estar bem em tudo agora. Calma. É muito desafiador e gratificante. Ela é uma atleta que já tem tudo. Para a gente é até estranho. Depois de tudo o que passou, é um exemplo. Tem vezes que eu olho para ela no camping e penso: “O que ela está fazendo aqui?” — fala Chico, sobre o retorno da atleta. — Se vai ou não ganhar mais uma medalha olímpica, não sabemos. Mas ela tem uma função. O que está ensinando e deixando para as outras atletas é muito bom.

O treinador comenta que não sabe se ela de fato competirá agora. Explica que após o Treino de Pódio finalizará o estudo sobre a contribuição de Rebeca para a equipe. E se Rebeca fará os dois saltos, apenas um ou ficará na reserva.

Isso porque esta competição marca a largada para a corrida à Los Angeles-2028. O Pan é uma competição por equipes e classifica cinco times femininos e quatro masculinos para o Mundial de Roterdã, primeiro classificatório para a Olimpíada. As equipes medalhistas na Holanda estarão garantidas nos Jogos de 2028.

E como Rebeca fará apenas um aparelho, outras ginastas terão de compor o quadro do Brasil visando as melhores oportunidades de notas.

Sem Flavia Saraiva e Lorrane Oliveira, o Brasil terá ainda Gabriela Barbosa, Gabriela Bouças, Julia Soares e Thais Fidelis.

— Temos de lembrar que a Rebeca é hoje uma ferramenta dentro da equipe, especialmente quando falamos de competições por equipe. Depende também de como as meninas estarão, é quase um xadrez — afirma Chico, que explica a ideia inicial: — Rebeca fará um salto para a equipe, para compor a nota do Brasil, e se fizer o segundo será para ter a chance de avançar à final do aparelho. Numa conversa muito sincera e profissional, falamos a respeito. É bom que ela sinta de novo a sensação de uma final, fazer dois saltos.

Perguntado se existe a possibilidade de Rebeca ficar na reserva e não competir, Chico disse que hoje ela está apta para competir mas que o martelo final será batido nesta segunda-feira.

— Pode ser frustrante se a Rebeca não competir, mas não será por uma questão física ou mental. E sim por estratégia de equipe, por opção de melhor somatório de notas. A gente precisa fazer a melhor matemática — explica o treinador, lembrando que Rebeca pode fazer a diferença com apenas um salto. — Será preciso checar primeiro como todas as ginastas se adaptarão aos aparelhos e se será preciso fazer mudanças no nível de dificuldade das apresentações.

Ele explica que serão cinco ginastas em ação, com quatro meninas se apresentando em cada aparelho. As três melhores notas em cada são validadas.

Chico explica ainda que Rebeca não fará os saltos apresentados em Paris-2024, mas são saltos que podem colocá-la na final.

O salto, segundo Chico, é um aparelho que demanda menos esforço físico para a Rebeca. Além de menos tempo para executá-lo, este é um aparelho que ela domina.

Sobre o futuro, Chico diz que a ideia é que ela vá ao Mundial e que esteja apta a competir em mais de um aparelho. Ela deve voltar à trave antes das paralelas, aparelho que a atleta tem o sonho de avançar à uma final olímpica.

— Pensando muito lá na frente, ela tem vontade de ser finalista (olímpica) em paralela. E temos de mudar sua série antiga. Para qualquer outro novo aparelho, haverá novo planejamento. E seguimos assim — explica Chico. — O que mais me deixa satisfeito nisso tudo é a motivação dela no processo.


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