VARIEDADES

Pintura gótica vendida por R$ 188 há 70 anos é reencontrada nos EUA com ajuda de inteligência artificial

14 de janeiro, 2026 | Por: Agência O Globo

Obra de Nicolás Francés, desaparecida desde 1957 após ser vendida por uma paróquia de Zamora, foi localizada em museu de Massachusetts por meio do Google Lens

Pintura de Nicolas Francés, 'Procissão ao Monte Gargano'
Pintura de Nicolas Francés, ‘Procissão ao Monte Gargano’ — Foto: Reprodução/Museu de Springfield, em Massachusetts

Uma pintura gótica de Nicolás Francés, produzida em meados do século XV e dada como desaparecida há quase 70 anos, foi localizada, neste início de ano, em um museu dos Estados Unidos graças ao uso de inteligência artificial. A obra Procissão ao Monte Gargano, que permaneceu por cerca de cinco séculos na igreja de San Miguel, em Villalpando, na província espanhola de Zamora, havia sido vendida em 1957 por pouco mais de 5.000 pesetas — o equivalente hoje a cerca de 30 euros, cerca de 188 reais.

O painel fazia parte de um conjunto dedicado a São Miguel Arcanjo que integrava o retábulo da igreja local. À época, diante da escassez de recursos para manutenção dos templos, o pároco decidiu vender parte do acervo para financiar reformas na casa paroquial. No total, uma dúzia de painéis góticos foi negociada por um valor entre 50 mil e 60 mil pesetas, segundo documentação da época.

A redescoberta é fruto de uma investigação conduzida pelo historiador Jaime Gallego, da Fundação Zamorarte. A apuração teve início no verão europeu de 2025 e ganhou impulso a partir da digitalização de um negativo fotográfico em preto e branco feito pelo marchand e historiador catalão José Gudiol Ricart. A imagem foi submetida a uma busca no Google Lens, ferramenta de reconhecimento visual do Google, que levou ao Museu de Springfield, em Massachusetts.

Detalhe superior de “Procissão ao Monte Gargano”, de Nicolás Francés, onde a borda da obra se funde com os ornamentos dourados da moldura — Foto: Reprodução/Museu de Springfield, em Massachusetts
Detalhe superior de “Procissão ao Monte Gargano”, de Nicolás Francés, onde a borda da obra se funde com os ornamentos dourados da moldura — Foto: Reprodução/Museu de Springfield, em Massachusetts

No museu americano, a obra estava exposta com a identificação de origem desconhecida, ao lado de um retábulo proveniente da desaparecida igreja de Fuentes de Duero, em Valladolid. Após ser contatada, a instituição colaborou com o pesquisador na reconstrução do percurso da pintura desde sua saída da Espanha.

Documentos anteriores já indicavam o destino de outros painéis do mesmo conjunto. Um artigo publicado em 2013 por Josep Laplana, então diretor do Museu de Montserrat, revelou que três das quatro obras dedicadas a São Miguel estavam no próprio museu catalão, no Museu Nacional de Arte da Catalunha e no Museu de Cincinnati, nos Estados Unidos. Procissão ao Monte Gargano permanecia como a peça desaparecida.

Uma análise completa de “Procissão ao Monte Gargano”, de Nicolas Francés — Foto: Reprodução/Museu de Springfield, em Massachusetts
Uma análise completa de “Procissão ao Monte Gargano”, de Nicolas Francés — Foto: Reprodução/Museu de Springfield, em Massachusetts

Gallego reconhece que a distância entre as obras e seu local de origem provoca desconforto, mas afirma que não há base legal para reivindicar a devolução. Segundo ele, resta lamentar a subvalorização do patrimônio no passado. O historiador manifesta ainda o desejo de que os quatro painéis possam um dia ser reunidos temporariamente em Villalpando, onde o legado artístico hoje se encontra disperso entre a Catedral de León e o Museu do Prado.

Apesar da conclusão da investigação sobre os painéis dedicados a São Miguel, permanece em aberto o destino das outras seis obras góticas vendidas no mesmo lote, cujo valor total, corrigido para os padrões atuais, não ultrapassaria o equivalente a 360 euros.


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