VARIEDADES

Pitty diz que primeiro álbum de inéditas desde 2019 é narrativa de ‘três anos de coisas que estavam entaladas’

16 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

Cantora, que passou por cirurgia de emergência e separação de casamento de 19 anos, lança ‘Pitty’ nesta sexta-feira (16)

Em sua volta a um álbum de inéditas, sete anos depois de “Matriz”, Pitty resolve agir mais como entrevistadora do que entrevistada. De cara, quer saber o que o repórter achou do disco novo, intitulado simplesmente “Pitty” (Deck), que chega nesta sexta-feira (16) ao streaming. E pergunta por que ele acha que a sua foto sofreu uma manipulação digital.

‘Quis voltar para o básico, eu estava sozinha no estúdio, abri meu software, peguei meu violão e falei: ‘Gente, eu preciso de três acordes, no máximo!”, diz Pitty — Foto: Divulgação/Jorge Daux

— Estou com um salto bem grande. Eu sou uma mulher pequena, você sabe. E ali é uma questão de ângulo e proporção. Sou simplesmente eu, olhando de frente, com uma roupa mais bruxona, abraçando a minha era gótica. Eu falo que esse é o meu “Black album” — descontrai Pitty, contando que pessoas chamaram sua atenção para o fato de que a imagem lembrava a da contracapa de “Admirável chip novo”, seu álbum de estreia, de 2003. — Não tinha pensado nisso, foi inconsciente. Só que aquela menina não é essa mulher de hoje, eu mostro a passagem do tempo.

Mas há, inegavelmente, alguma coisa em comum entre esse “Pitty”, que a artista de 49 anos está lançando agora, e aquele CD de 23 anos atrás que transformou a jovem roqueira baiana, vinda do grupo Inkoma, numa estrela do rock brasileiro.

— São dois anos de terapia em um disco, me interessa muito saber o que as pessoas sentem quando escutam ele. E não tinha como esse álbum ter outro nome, porque eu estou muito ali. E de um jeito que acho que eu nunca tive antes. Talvez, por isso, eu fale que é este meu primeiro disco — diz a cantora, que, assim como no “Admirável chip novo”, criou as canções sozinha, no isolamento.

Pitty admite que a ordem das músicas do disco — que começa com a pesada “Sobremesa” e termina com “Nó” — não tem nada de aleatório. É uma narrativa de “três anos de coisas que estavam entaladas e que eu precisava botar para fora”. Um tempo durante o qual ela passou por problemas de saúde (uma cirurgia de emergência, não especificada, em 2024), o fim de um casamento de 19 anos (com o baterista Daniel Weksler) e a decisão de fazer uma pausa na carreira.

— Gosto é de contar histórias, acho que toda a arte, todo livro, todo filme, tem um começo, meio e fim. E ali, no começo, é um “ufa, agora eu renasci, sou outra pessoa, passei por um monte de coisas para chegar até aqui”, como diz a (segunda faixa) “Armadura”. É o entendimento de quem é essa mulher hoje — explica. — O Rafa (Rafael Ramos, produtor que trabalha com ela desde a estreia) me chamou a atenção: “Percebeu que desta vez você não revisitou nada?” Porque, como eu escrevo compulsivamente, tenho muita coisa guardada. Eu costumava ir nos guardados e falava: “Ah, isso ainda faz sentido!” Desta vez, não, é tudo fresquinho.

Diss track

E vários são os recados das músicas em “Pitty”: “melhor nem me chamar se não for pra pegar fogo” (em “Sobremesa”), “é mais difícil abrir o coração do que as pernas” (“Armadura”) e “só sei que estar sozinho com alguém junto é o pior tipo de solidão” (“Não à deriva”). A questão da sororidade aparece em duas canções “opostas e complementares”: a emocionante e melancólica “Caminhada” (“a gente se reconhece pelo rastro e pela voz/ o que tentaram quebrar em ti dói em todas nós”) e o debochado quase tecnobrega “Amiga” (“nesse caso, percebi/ que o ninguém-solta-a-mão-de-ninguém só presta/ quando lhe convém”).

— Não gosto de ficar explicando música, porque quebra a magia e a possibilidade de a pessoa interpretar do jeito que ela quiser dentro do universo dela — diz. — Sou novinha em diss track (canções, geralmente do rap, que os artistas fazem para atacar ou provocar outros artistas ou pessoas públicas), mas cheguei a elas na hora em que tinha que chegar!

A faixa mais forte (e pessoal) nesse sentido, porém, é o blues “Álbum de casamento”, de versos diretos como “a minha autoestima, não precisa devolver/ eu já tomei de volta a posse do que é meu/ minha arte, meu corpo, minha maternidade/ a minha insanidade, quem resolve sou eu”.

Em “Álbum de casamento” e em “Cuidada”, Pitty faz referências diretas à filha, Madalena, de 10 anos.

— Tenho muita sorte de ser mãe dessa menina — derrama-se. — Com todos os perrengues que existem dentro da maternidade, eu me sinto muito sortuda e abençoada com a nossa troca, que é cada vez melhor.

Capa de 'Pitty' — Foto: Divulgação
Capa de ‘Pitty’ — Foto: Divulgação

Pitty diz ter aprendido, nos últimos tempos, a escutar mais a sua intuição.

— Eu estava vindo de muitos projetos, sou workaholic (ela esteve envolvida em shows com Nando Reis e comemorações de 20 anos do álbum de estreia), gosto muito do que eu faço, e não tinha percebido que estava nesse pique. Aconteceram várias mudanças pessoais na vida, e falei: “Cara, tá na hora, preciso me reorganizar.” E aí veio a pausa — conta. — E ela foi essencial para poder olhar para dentro e escrever o que escrevi, para me sentir hoje muito mais pertencente a mim, ficar mais em paz com tudo ao meu redor, entendendo que as coisas são o que elas são.

O novo momento influenciou, inclusive, a forma de Pitty compor.

— Quis voltar para o básico, eu estava aqui sozinha dentro do estúdio, cheia de coisas para dizer, então abri meu software, peguei meu violão e falei: “Gente, eu preciso de três acordes, no máximo!” Voltei para o punk rock, para minha essência — festeja. — Como é inspirador, por exemplo, quando alguém me marca e eu vejo que alguma menina pegou o violão e conseguiu tocar as músicas que eu fiz! Eu me lembro de como isso era empoderador para mim. Porque eu também conseguia tocar as músicas que eram assim, eu não precisava ser uma exímia musicista.

A cantora diz estranhar, no entanto, que as novas gerações façam música dentro de casa ou do estúdio, numa perspectiva mais solitária e intimista. Logo que acabou de compor as canções de “Pitty”, ela foi logo procurar sua banda, para gravá-las, com toda a potência sonora de guitarra, baixo e bateria:

— A gente fazia a música na rua. Eu componho para o coletivo, aquela é uma música de palco. Porque tem o ô-ô para cantar junto, tem a hora de pular e tem a hora de acender o isqueiro, embora hoje em dia o povo acenda o celular. Eu componho para me juntar com as pessoas no show!

E agora, nos shows, além da roda punk, Pitty quer também a pista de dança.

— Eu sempre tentei fazer rock dançante. E estou tentando ainda. Acho que esse novo disco talvez tenha sido um passo nessa direção — diz ela, que investiu nesse formato nas faixas “Pileque de poeta” e “Sobriedade seletiva”.

Para “Pitty”, ela quer fazer um show “minimalista, chique e com, com um foco muito mais na música do que em pirotecnia”. A turnê estreia amanhã em São Paulo, no Espaço Unimed, e até o fim do ano segue por Leopoldina (MG), Curitiba, Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Vitória, Ribeirão Preto (SP), Sorocaba (SP) e Balneário Camboriú (SC).

BS20261016063000.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/10/16/pitty-diz-que-primeiro-album-de-ineditas-desde-2019-e-narrativa-de-tres-anos-de-coisas-que-estavam-entaladas.ghtml

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