Pix está na mira dos EUA, mas não é só o Brasil que adota sistema próprio. Europa avança com euro digital
17 de julho, 2026
| Por: Agência O Globo
UE lançará em 2027 projeto piloto com objetivo declarado de reduzir dependência de provedores de pagamentos americanos, como Visa e Mastercard
Sistemas de pagamentos instantâneos como o Pix não são exclusividade brasileira – Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil
O Pix brasileiro entrou na mira do governo americano do presidente Donald Trump e foi usado como um dos argumentos para os Estados Unidos aprovarem uma sobretaxa de 25% sobre as exportações brasileiras. A Casa Branca alega que o Pix prejudica as empresas americanas ao viabilizar um sistema de pagamentos que é, ao mesmo tempo, operado e regulado pelo governo brasileiro. E, ainda, que exigir que empresas americanas ofereçam o Pix seria uma prática desleal de comércio.
Mas, se no Brasil o Pix foi lançado como uma ferramenta para democratizar o acesso da população a meios de pagamento, pelo mundo crescem iniciativas cujo objetivo declarado é reduzir a dependência dos provedores americanos.
Lançada em 2020, a proposta de criar um euro digital ganhou impulso na União Europeia só este ano, diante da escalada de tensões com os EUA sob o governo Trump. Em junho, a Comissão de Assuntos Econômicos e Monetários (ECON) do Parlamento Europeu, em Bruxelas, finalmente aprovou um plano para criar versões online e offline da moeda digital, que o Banco Central Europeu (BCE) pretende lançar de forma experimental em 2027 e por em circulação até 2029.
E, esta semana, o BCE selecionou 36 prestadores de serviços de pagamento, entre eles Deutsche Bank e UniCredit, para iniciar o teste piloto do euro digital. O euro digital é uma estratégia da Europa para reduzir sua dependência de empresas americanas como Visa e Mastercard.
— Atualmente, quase dois terços dos pagamentos com cartão na zona do euro são processados por empresas não-europeias, e 13 dos 21 países que integram a zona do euro não possuem um sistema nacional de cartões para pagamentos cotidianos em lojas físicas ou pela internet — destacou Alessandro Giovannini, assessor do projeto de euro digital no BCE, na ocasião da aprovação no parlamento, destacando:
— O euro digital reduzirá a dependência de soluções não europeias. Nenhuma outra iniciativa tem a mesma ambição de fortalecer, de forma estrutural, a soberania europeia.
Além das bandeiras de cartão de crédito, as carteiras digitais de pagamento mais populares também são operadas por empresas americanas, como Apple Pay, Google Pay ou PayPal.
A expansão das stablecoins, em sua maioria denominadas em dólares e promovidas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também aumentou a preocupação entre os governos da União Europeia.
Além disso, ações recentes do governo americano acenderam o alerta entre autoridades europeias. No ano passado, os EUA impuseram sanções contra juízes do Tribunal Penal Internacional (TPI), entre eles o francês Nicolas Guillou, que, de forma inesperada, ficou impedido de utilizar seu cartão de crédito Visa.
Desde que a Comissão Europeia apresentou sua proposta em 2023, foram necessários mais de dois anos para que os Estados-membros chegassem a uma posição comum. Um dos principais obstáculos foi que parte dos parlamentares defendia uma solução desenvolvida pelo setor privado.
Mas acabou prevalecendo a decisão de que o BCE comandaria a solução de infraestrutura para a moeda digital. No Brasil, a infraestrutura do Pix também é pública, feita pelo Banco Central.