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Atriz chorou ao ler justificativa deixada por Maneco, criador das Helenas, que morreu aos 92 anos; decisão ajuda a entender o coração de uma das maiores mitologias da teledramaturgia brasileira
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O universo de Manoel Carlos sempre foi habitado por mulheres que amavam demais, erravam sem pedir licença e carregavam no rosto as marcas do tempo e da vida. As Helenas, espalhadas por mais de três décadas de novelas, envelheceram com o público, ensinaram a sofrer e a recomeçar. Nesse imaginário tão afetivo, uma ausência sempre chamou atenção: Lilia Cabral, atriz recorrente e decisiva na obra do autor, jamais viveu uma Helena.
A resposta veio em forma de carta — e de emoção. Revelado no documentário “Tributo – Manoel Carlos”, lançado pelo Globoplay em 2024, o texto foi lido pela própria atriz, que chorou ao entender o motivo. Manoel Carlos explicava que Lilia, para ele, era a antagonista ideal. Se estivesse no centro da história, faltaria quem a enfrentasse. “Quem é a antagonista da Lilia Cabral?”, questionava o autor, ao justificar que seu talento tornava impossível reduzi-la ou diluí-la em qualquer papel.
Na visão de Maneco, Lilia nunca foi vilã, mas sempre uma mulher com razões profundas, capaz de combater a heroína de igual para igual. Ele afirmava que não adiantava lhe dar papéis pequenos, porque eles inevitavelmente cresciam. A decisão, longe de ser um veto, revelava admiração e a lógica interna de um autor que escrevia personagens como quem observa a vida.
As Helenas, por sua vez, nasceram dessa mesma observação. A primeira surgiu em Baila Comigo (1981), vivida por Lilian Lemmertz, e foi ali que o arquétipo se formou: uma mulher comum, atravessada por culpas, afetos e escolhas difíceis. Manoel Carlos dizia que, depois das primeiras cenas, a personagem deixou de ser escrita e passou a ser Lilian — uma fusão que marcaria todas as outras.
Maitê Proença deu sequência ao legado em Felicidade (1991), com uma Helena falha, impulsiva e profundamente humana, que ampliou a identificação do público e transformou a personagem em marca internacional. Regina Duarte consolidou o mito ao viver três Helenas, atravessando crises conjugais, dilemas familiares e tragédias íntimas, sempre com a delicadeza que o autor buscava ao retratar mulheres em conflito.
Vieram depois Vera Fischer, em Laços de Família, rompendo tabus ao viver uma paixão com um homem mais jovem; Christiane Torloni, em Mulheres Apaixonadas, simbolizando a coragem de recomeçar após anos de casamento; e Taís Araújo, em Viver a Vida, como a primeira Helena negra, jovem e modelo internacional, num passo que marcou a história da representação na televisão brasileira.
O ciclo se fechou em 2014, com Julia Lemmertz, filha de Lilian, em Em Família. A escolha carregava memória e afeto: uma Helena que dialogava com a origem de todas as outras, consciente do peso simbólico de continuar uma linhagem que misturava ficção e vida real.
A morte de Manoel Carlos, neste sábado, aos 92 anos, no Rio de Janeiro, encerra definitivamente esse universo. Internado no Hospital Copa Star, na Zona Sul, o autor teve a morte confirmada por volta das 20h, segundo nota divulgada pelo perfil Boa Palavra. Com ele, despede-se o criador que transformou mulheres imperfeitas em espelhos de gerações — e que soube, como poucos, reconhecer que algumas atrizes, como Lilia Cabral, eram grandes demais para caber em um único nome.
BS20260113070207.1 – https://oglobo.globo.com/cultura/noticia/2026/01/13/por-que-lilia-cabral-nunca-foi-helena-a-carta-de-manoel-carlos-que-explica-a-ausencia-mais-simbolica-de-sua-obra-video.ghtml

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