ECONOMIA

Programa da OMC de ajuda a países pobres desembolsa US$ 795 bi em 20 anos, mas falta chegar aos mais necessitados

29 de outubro, 2026 | Por: Agência O Globo

Lançado em 2026, Aid for Trade concede empréstimos favorecidos e doações para construir infraestrutura logística e qualificar empresas para exportarem

A diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, na sede da entidade, em Genebra – Foto: @worldtradeorganization / Instagram

O Aid for Trade, programa de apoio a países em desenvolvimento para superar barreiras ao comércio exterior mantido pela Organização Mundial do Comércio (OMC) que está completando 20 anos, desembolsou US$ 795 bilhões neste período, segundo um relatório de balanço da iniciativa, elaborado em conjunto com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), apresentado nesta quinta-feira em Genebra, na sede do organismo multilateral.

Mesmo assim, as nações mais necessitadas seguem com baixa participação no comércio internacional.

Conforme a OMC, o programa ajudou a impulsionar as exportações de países em desenvolvimento. Segundo o relatório, a participação desse grupo nas exportações globais de bens passou de 38%, em 2006, para 48%, em 2024. Nas exportações de serviços, essa fatia foi de 25% para 33% no mesmo período.

Do total desembolsado pelo programa de ajuda em 20 anos, 38% foram direcionados para países da África. Nações da Ásia receberam 35%.

Os efeitos sobre os LDCs, ou países menos desenvolvidos

Independentemente do continente onde estejam, os países menos desenvolvidos (LDCs, na sigla em inglês para a classificação usados pela OMC para definir as economias mais pobres do muno) ficaram com 28% dos valores aplicados.

“Pesquisas empíricas nas duas últimas décadas sugerem que o Aid for Trade teve efeitos positivos para impulsionar as exportações das economias que receberam os recursos”, diz um trecho do relatório divulgado nesta quinta-feira.

Mesmo assim, parte relevante do avanço da participação dos países em desenvolvimento nas exportações mundiais parece ter haver com o crescimento das economias de maior porte desse grupo, ou os países que podem ser chamados de “emergentes”, como o Brasil — na classificação da OMC, há uma lista de LDCs, mas os países em desenvolvimento são definidos por autodeclaração; tanto Brasil quanto China se consideram assim, por exemplo.

América Latina participa menos

O Aid for Trade foca mais nos países da África e da Ásia. A região das Américas, incluindo a América Latina, registrou queda de 23% nos desembolsos do programa entre 2023 e 2024, para US$ 3,1 bilhões, ou 6% do total global aplicado pela iniciativa dois anos atrás.

O Brasil teria um papel de fazer doações, mas não há registro de aportes por parte da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), vinculada ao Ministério de Relações Exteriores.

Conforme o relatório da OMC e da OCDE, mesmo após os investimentos bilionários do Aid for Trade, os LDCs seguiram com participação irrelevante nas exportações globais de bens (1%) e serviços (0,5%).

O vice-diretor-geral da OMC, Zhang Xiangchen, reconheceu que o avanço dos países em desenvolvimento no comércio exterior tem sido desigual:

— Enquanto vimos algumas histórias de sucesso, não vimos uma expansão qualitativa das exportações dos países mais pobres. Precisamos fazer mais para ajudar essas economias a elevar sua participação no comércio global.

Recursos de países ricos para ajuda estão em queda

No discurso de abertura de uma conferência de dois dias para a avaliação do Aid for Trade em Genebra, a diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, lembrou que os recursos dos países ricos para ajuda humanitária aos mais pobres vem encolhendo desde 2025. Por isso, seria preciso adaptar o programa

— Precisamos nos perguntar como fazer melhor, especialmente para os mais pobres. O Aid for Trade precisa evoluir — afirmou Okonjo-Iweala.

A diretora-geral sugeriu maior focalização do programa nos LDCs e um avanço na cooperação com fontes privadas de financiamento e ajuda:

— Recursos públicos não podem fazer tudo. Temos que pensar como eles podem catalisar outras fontes de recursos, como reduzir o risco para o capital privado por exemplo.

* O jornalista viajou como participante do Programa de Intercâmbio para Jornalistas da OMC e da Konrad Adenauer Stiftung (KAS)

BS20261029120000.1 – https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/10/29/programa-da-omc-de-ajuda-a-paises-pobres-desembolsa-us-795-bi-em-20-anos-mas-falta-chegar-aos-mais-necessitadas.ghtml

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